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Cine Estranho
Sunday, August 08, 2004
 
Notinhas, notinhas:

- Mulheres Perfeitas é um grande desperdício de idéias, que resulta em desperdício de tempo pra quem for assistir. Com um roteiro que chega a assustar, de tão furado, só ganha algum brilho quando Glenn Close entra em cena, e isso só porque ela é excelente atriz. O resto do elenco, incluindo aí o gênio Christopher Walken, está totalmente apagado, o que só piora as coisas. Não sei dizer que cotação eu daria pra ele, já que tá totalmente instável no meu conceito: toda vez que penso nele, a nota cai mais.

- Cold Mountain é todo certinho, chega uma hora que irrita. Não é pior que Seabiscuit, no entanto, então não vou dizer que é justo não ter sido indicado ao Oscar. Não é que seja ruim, os coadjuvantes todos são ótimos, só chega um ponto em que cansa.

- Aos Treze me decepcionou um pouco. É só o mesmo olhar dado ao mesmo assunto já tratado tantas vezes antes, da exata mesma maneira. Sem contar que o visual de filme metido a moderninho enche. Mas vai, é até perdoável, não consegui desgostar completamente.

- Vontade, muita vontade de ver Fahrenheit 11 de Setembro. Tsc, mas pra estrear documentário aqui é complicado.

- Que mais? Vi muitos, muitos filmes em Julho. Jamais vou conseguir manter uma média como a desse mês. Já comecei Agosto mal, pra falar a verdade. Mas em Setembro vou estar com mais tempo pra isso, tenho certeza.

Hm, escrever em notinhas poupa tempo e idéias. Legal!

Saturday, July 31, 2004
 

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças(Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004)


Dirigido por: Michel Gondry

Com: Jim Carrey, Kate Winslet, Elijah Wood, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson, Kirsten Dunst, Thomas Jay Ryan, David Cross, Jane Adams, Debbon Ayer

Memória é uma das coisas mais complicadas do Universo. É algo tão obscuro e complexo que não é de se admirar que as almas mais inquietas sempre tenham procurado entendê-la, ou, ao menos, estudá-la, ainda que só como forma de se aproximar, e não de resolver, os seus mistérios. Almas inquietas são aquelas que sempre, durante a História, estiveram produzindo arte (ok, não só isso, eu sei). Portanto, não é de se estranhar que, no cinema, volta e meia temos obras envolvendo-a: ela, a memória. Elas não precisam dar respostas, ou mesmo ser tão incompreensíveis quanto seu tema. Podem causar arrepios como Amnésia, ou podem ser doces como 50 First Dates, cujo nome se eu escrevesse do jeito que foi traduzido traria uma repetição chata da palavra "como" - ambos devidamente comentados aqui, alguém se lembra? Certo, o fato é que essa é uma fonte que há tempos vem rendendo coisas interessantes (não só no cinema, claro, mas esse é outro assunto).

Charlie Kaufman é um roteirista estranho, pra dizer o mínimo. Desde seu primeiro trabalho, Quero Ser John Malkovich, já demonstrava uma vontade incomum de explorar a mente humana. E assim ele vem fazendo, sem se preocupar muito com conceitos estabelecidos anteriormente. O homem tem talento, isso é inegável, suas histórias são contos cheios de detalhezinhos importantes somando pro todo. Mas, de qualquer jeito, não há como negar que, no fundo, as coisas que ele diz são bastante simples, e falam pra todas as audiências. O que faz de Kaufman alguém tão admirável é o fato de reciclar tão bem as idéias, muitas vezes fazendo com que elas pareçam novas. Eu diria que o nome disso é genialidade, até porque é muito mais difícil dizer o que é simples hoje em dia. O simples é sempre subestimado.

Não me lembro de outros roteiristas que tenham ficado tão famosos. Normalmente, louvam-se diretores, atores, atrizes e compositores. Claro, há também quem olhe pros roteiristas, mas não do jeito que olham pra Charlie Kaufman, aplaudindo-o a cada novo filme, quase como se fosse ele o responsável por tudo, quase como se fosse o diretor. Mas Kaufman gosta de estar nos sets onde filmam seus roteiros, ajudando no que pode - até por isso tem mágoas de George Clooney, que dispensou-o durante as filmagens de Confissões de uma Mente Perigosa. Ele é importante. Na Folha, sexta passada, eu li a explicação mais plausível pra essa valorização de Kaufman: estamos numa época onde o texto em si é muito valorizado, numa época de blogs de cinema, de fóruns de internet, enfim, onde o roteiro é um elemento cada vez mais essencial - ao menos no cinema de Hollywood.

Em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, há a idéia de se apagar coisas da mente. Joel Barish (Jim Carrey) é um homem reservado e tímido. Bem o contrário de sua ex-namorada, Clementine Kruczynski (Kate Winslet), que é extremamente impulsiva e fala muito. Após um tempo sem se ver, o casal se reencontra, mas Clementine não o reconhece. Joel acaba descobrindo a existência de uma empresa de nome Lacuna Inc., que oferece um serviço bizarro: a chance de apagar da sua memória uma pessoa da qual você prefere não mais lembrar, possivelmente por se tratar de uma desilusão amorosa. Foram eles, especificamente o doutor Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson) e seus assistentes Stan (Mark Ruffalo) e Patrick (Elijah Wood), que tiraram a figura de Barish da mente de sua ex. Patrick, aliás, até se aproveita da situação pra se aproximar de Clementine. Joel (ou Joely, como ele um dia já foi chamado) decide, então, fazer o mesmo, e esquecer completamente dos seus sentimentos pela moça. Só que se arrepende no meio do processo, e briga pra manter suas lembranças. Enquanto isso, a secretária de Mierzwiak (Kirsten Dunst) se sente misteriosamente atraída pelo patrão...

Apagar a memória é um fetiche um tanto quanto antigo. Há coisas guardadas nela que nos arrependemos profundamente. Como viajar no tempo já é uma outra complicação, preferimos escondê-las na memória, supostamente esquecendo-as. Faz parte da nossa natureza. Mas as lembranças, elas são...Oras, elas são lembranças! São como aquelas fitinhas vermelhas amarradas no dedo. Elas impedem você de se esquecer. Quando são doloridas, elas vão torturá-lo, até que deixem de ser importantes. Por isso mesmo, a idéia de querer apagar alguém é irônica, ela só mostra o quanto não se pode esquecer essa pessoa, mesmo que se tente. Não é uma prova de que se quer viver longe dela, e sim de que não se pode viver longe dela. Uma saída até covarde, fugir do problema.

Química. Química é importante. Raríssimas vezes encontrei química maior que em Brilho Eterno. Jim Carrey, naquela que é provavelmente sua melhor interpretação, fascina, com um personagem de Kaufman que em muito lembra outros, ao lado de uma Kate Winslet inspiradíssima e cheia de vida, falando inglês com sotaque americano sem muito problema. O elenco todo, aliás, é digno de elogios. Mark Ruffalo e Elijah Wood estão hilários. Tom Wilkinson faz, com talento, o papel do mágico médico que traz esperanças às pessoas, esperanças de não mais sofrerem com o que veio e já passou - porém, há muito menos magia nele do que se imagina. Mas Kirsten Dunst acaba roubando a cena, nos poucos minutos que tem na tela. Atua sutilmente, talvez matando suas chances de ser indicada como atriz coadjuvante pra qualquer coisa: ela o faz de maneira muito natural. Talvez só não esteja melhor que os protagonistas, porque esses recebem cenas maravilhosas e diálogos perfeitos, tudo filmado com a classe discreta de Michel Gondry na direção.

Há um episódio meloso demais de That 70's Show no qual Eric, depois de muito sofrer estando separado de Donna, pede a Deus pra esquecê-la. Ele envia um anjo (o gordinho que faz Newman em Seinfeld) e esse mostra a Eric o que seria das vidas de ambos se não tivessem nunca se aproximado. Ele perderia muito da coragem que adquiriu e ela ficaria sem rumo rapidamente na vida. Ainda assim, confrontado com o dilema de não saber se é pior ter amado e depois perdido ou nunca ter amado, ele escolhe a segunda opção. O anjo então exibe uma espécie de "melhores momentos" daquele relacionamento, e ele, por fim, desiste da idéia. É mais ou menos essa a noção que Joel tem, mas depois de já ter iniciado o processo de esquecimento. Bloquear alguém de sua mente é esquecer tudo. As pessoas tendem a só lembrar das coisas ruins, mas elas vêm, claro, presas às boas, e quando se tem certeza que as boas consertam tudo o que as ruins fizeram, que a intimidade sem medos vale muito mais que a estranheza ríspida com a qual os ex-amantes se tratam, então não se pode simplesmente desistir de se manter próximo - ainda que a vontade incontrolável de estar próximo assuste.

Não se pode exigir mais do que o que é básico, o que se acha necessário pra uma convivência. Dizer um "ok" e seguir em frente é mais simples do que querem fazer parecer. "Não vejo nada em você que eu não goste", "Mas você verá", "ok". Sentimentos devastadores são horríveis, mas sem eles, não se vive. Ou se vive com monotonia forte. Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças talvez seja o melhor filme que vi na vida, mesmo sendo comum, mais do que aparenta. É tudo uma questão de ver se vale a pena.


Cotação: 100/100

PS: Estou me sentindo, nos últimos tempos, como Bill Murray em Encontros e Desencontros. Isso só faz o filme de Sofia Coppola subir no meu conceito.


Saturday, July 24, 2004
 
Ok, eu estava adiando fazer isso, mas com tantos blogs fechando, decidi que era hora. Aliás, depois de ver o profeta do apocalipse (hehe) comentando ali no último post, vi até que já tinha passado da tal hora. Mas não, não, essa não é uma despedida. Só um tempinho que eu tô dando - férias são tão legais, dã, afirmar o óbvio dizer isso, mas tenho visto tanta coisa. Quem dera manter a média nos outros meses que virão.

Enfim. Eu volto. Quem sabe com o novo filme do Charlie Kaufman estreando. Bah, já devia ter avisado tudo isso faz um tempão, né? Eu sei. Mas é isso. Ok? E, sei lá, alguém aí me explica como o filme do Garfield é tão ruim?

Saturday, July 03, 2004
 
Homem-Aranha 2(Spider-Man 2, 2004)


Dirigido por: Sam Raimi
Com: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Alfred Molina, Rosemary Harris, J.K. Simmons, Donna Murphy, Daniel Gillies, Dylan Baker, Bill Nunn, Aasif Mandvi

Estive pensando: talvez adaptar histórias em quadrinhos seja uma das coisas mais complicadas de se fazer. Mas calma aí, não qualquer história em quadrinhos: as tradicionais, com personagens mainstream da DC e da Marvel Comics, lidas por milhares de pessoas nos Estados Unidos e em todo o mundo. Porque, bem, primeiro que um dos piores tipos de nerd que existe é o fã de HQs. Tá certo que fã de qualquer coisa que vá virar filme vive esperneando sobre "fidelidade à obra", mas nesse caso específico, as reclamações são as mais absurdas. Pro Homem-Aranha, condensar todo espírito de cada personagem, alguns existentes já fazem uns bons 40 anos, em um longa de duas horas, é uma missão impossível.

Portanto, não tem surpresa nenhuma em ver que são poucos os bons filmes de super-heróis. A maioria dos estúdios prefere contratar qualquer diretor, não dar liberdade alguma pra ele, rezar pros fãs não reclamarem muito e simplesmente investir com peso nas campanhas publicitárias. Felizmente, o quadro tem mudado - principalmente no caso da Marvel. Por exemplo, em 2002, quando Homem-Aranha foi lançado, ele não trazia qualquer nome: era assinado por Sam Raimi. Deixando de lado o fato do filme ter arrecadado horrores, foi interessante ver que trouxeram alguém que realmente entendia de cinema e, mais ainda, de quadrinhos. Quer dizer, não sei dizer se Raimi já sequer abriu alguma revista do Cabeça de Teia, mas seu filme era toda a essência dos quadrinhos de Stan Lee e Steve Ditko. O que me leva a concluir toda essa linha enorme, entediante de pensamento, dizendo: nem os fãs mais die-hard poderiam reclamar (não que não tenha alguém que reclamou mesmo assim...).

Pra continuação, sinceramente acredito que os braços de Raimi estavam ainda mais soltos. Já tendo faturado rios de dinheiro com o primeiro, os executivos de Hollywood confiaram no diretor. Pra alegria minha e de qualquer cinéfilo, acho. Ok, então retomamos a história de Peter Parker (Tobey Maguire), um jovem que se divide entre a dura vida de fotógrafo, entregador de pizza e, quando ninguém está vendo, Homem-Aranha. Passaram-se alguns anos, e Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), seu grande amor, já se distanciou romanticamente dele e mesmo do amigo comum a ambos, Harry Osborn (James Franco), que aliás, odeia o Homem-Aranha (vocês se lembram do porquê, né?). Harry está financiando o Dr. Otto Octavius (Alfred Molina), que pesquisa dia e noite atrás de uma outra maneira de se conseguir energia. Quando uma demonstração do seu trabalho transforma Octavius em "Dr. Octopus", um monstro de braços metálicos, Parker se vê obrigado a defender Nova York da nova ameaça, ao mesmo tempo que tenta se reaproximar de Mary Jane. Tarefa árdua, não?

Lá em cima, no primeiro parágrafo desse texto, eu disse algo sobre "condensar o espírito de cada personagem". Pois bem, em Homem-Aranha 2, o roteiro de Alvin Sargent permite que se chegue a um ponto em que nenhum outro filme de herói chegou, em termos de aprofundar-se nos personagens. As situações proporcionadas por ele nos levam a enxergar não só o básico em cada um, mas a entendê-los, suas motivações. Não só o conflito entre Aranha e Peter, essa indecisão de sacrificar-se por um bem maior ou aproveitar a vida, mas MJ, Harry e o Dr. Octavius, são todos tridimensionais, e não é preciso saber mais do que é mostrado; pode-se deduzir muitas coisas sobre cada um deles, até a Tia May (Rosemary Harris), tendo somente visto o que está no longa.

Tomemos o exemplo mais óbvio: Parker. Ele é um perdedor, aos olhos dos outros. Se é preciso mostrar que ele é o cara que, numa festa, não consegue nem pegar um salgadinho da bandeja antes que todos eles acabem, então, mostra-se. Isso vem de diversos jeitos, e não só pro protagonista. É muito interessante assistir à essa humanização da trama. Que ironia ver o Homem-Aranha descendo de elevador.

Tá certo, num filme desse tipo não se pode só ver o lado psicológico, e então a competência de Sam Raimi fica ainda mais evidente. As cenas de ação são espetaculares, extremamente bem filmadas, até quando parecem mais artificiais. Os pegas entre o Aranha e o Dr. Octopus são sensacionais, de tirar o fôlego, só conferir a cena da luta no metrô pra saber que é verdade. Não é nada que fuja muito aos padrões, não, mas funciona com todo o resto, dá um ótimo contraste com as partes mais sossegadas. Na verdade, nos balanços finais pelos prédios, eu conseguia até prever o movimento da câmera - e, não, não é algo ruim. É uma estética parecida com HQ, aliás.

Nota-se também a tal da confiança no diretor. Ele agora parece ter tido liberdade pra incluir cenas que nos remetem aos seus filmes mais antigos. Cenas divertidíssimas, diga-se de passagem, ainda que não tão sérias, ou melhor, que não deveriam ser levadas tão a sério. Otto Octavius acordando no hospital, só pra citar uma. Há até exagero nas atuações, nesses casos, mas tudo encaixando corretamente. Inclusive o humor, tão comum nos gibis, tão ausente no primeiro (o que é tudo aquilo ao som de Raindrops Keep Falling On My Head? Muito bom!).

Mérito também do ótimo elenco. Tobey Maguire não é um poço de talento, mas ele É o Homem-Aranha, e não consigo imaginar alguém entrando melhor no papel. Provavelmente essa é uma de suas atuações mais inspiradas. Alfred Molina passa da bondade à maldade de uma maneira bem natural, e é outro bom ponto do filme. Mas eu acho que o que impressiona mesmo são os jovens James Franco e Kirsten Dunst. Se já estavam bem em Homem-Aranha, no 2 eles destróem. A cena lá pro final em que nos é entregada a idéia da terceira parte (sim, teremos uma!) mostra a competência de Franco, que rouba outros momentos. Dunst é fenomenal também, com aquele ar de "garota-mais-inteligente-do-que-imaginamos".

Por fim, o que dizer? Raimi fez a continuação ainda mais divertida que o original. Um filme que prende a atenção, que talvez seja muito, muito profundo, ainda sendo um blockbuster. Só um bom diretor seria capaz de uma coisa dessas. Se mantendo fiel às HQs ainda? Uau! Ninguém tem motivo pra reclamar, vai, vamos lá: o filme é um gibi filmado. Tão delicioso, ingênuo e marcante quanto um bom gibi.




Cotação: 76/100
Friday, July 02, 2004
 
MARLON BRANDO
1924 - 2004


Vencedor de 2 Oscar e de 2 Golden Globe Awards.




"Quando o homem velho cai morto entre suas plantações de tomate, temos a sensação de que um gigante se foi. (...)A performance de Brando é famosa com justiça e imitada freqüentemente. Nós sabemos tudo sobre suas bochechas estufadas, e seu uso de acessórios como o gato na cena inicial. Brando usa-os, mas não depende deles: ele carrega o personagem tão convincentemente que, no final, quando ele avisa seu filho duas ou três vezes que 'o homem que vier marcar um encontro com você - é esse o traidor', não estamos pensando que aquela é uma atuação, de maneira alguma. Estamos pensando que o Don está envelhecendo e se repetindo, mas também estamos pensando que provavelmente ele tem toda a razão."

(Roger Ebert, em sua crítica de O Poderoso Chefão)

Don Corleone é, provavelmente, meu personagem favorito do cinema. Estou triste.
Monday, June 28, 2004
 
Assim, esse não é beeeem o que você pode chamar de um blog pessoal, nem eu sou uma pessoa que pode ser considerada sensível, sabe. Mas tenho que admitir: a versão de Ben Folds para Golden Slumbers, da trilha sonora de I Am Sam, trazem-me lágrimas aos olhos.

Hm, sim, é só isso.
Saturday, June 26, 2004
 
O Dia Depois de Amanhã(The Day After Tomorrow, 2004)


Dirigido por: Roland Emmerich
Com: Dennis Quaid, Jake Gyllenhaal, Sela Ward, Ian Holm, Emmy Rossum, Dash Mihok, Kenneth Welsh, Austin Nichols, Jay O. Sanders, Perry King, Nestor Serrano, Adrian Lester, Sheila McCarthy, Glenn Plummer, Tamlyn Tomita

Detesto ser o último a comentar um filme, mas a verdade é que eu não estava com a mínima vontade de ver O Dia Depois de Amanhã, o filme mais recente de Roland Emmerich, que dirigiu, entre outros longas, O Patriota, Independence Day e Godzilla. Nada, absolutamente nada me parecia encorajador nos trailers, nem mesmo a presença de Jake Gyllenhaal, ator que passei a admirar depois do ótimo Donnie Darko, do diretor Richard Kelly. Até que começaram a sair as críticas e, surpresa, nem todas eram negativas.

Achei muito estranho isso. Quer dizer, é claro que existe gente que adora filmes-catástrofe, cada um deles, mas a maior parte da crítica sempre torceu o nariz pra esse tipo de produção. "Tem alguma coisa aí", pensei. Mas o tempo passou (bem, não muito tempo, um mês mais ou menos), e adiei vê-lo enquanto pude. Simplesmente não estava na minha lista de prioridades, e quando se vai tão pouco ao cinema, isso até tem alguma importância. Até que veio a oportunidade: depois de um desencontro com uns amigos com quem tinha marcado de ver Shrek 2, resolvi me aventurar nesse aí.

O aquecimento global começa a derreter as calotas polares e, com isso, uma nova "Era do Gelo" está pra começar. Jack Hall (Dennis Quaid) é um paleoclimatologista que avisa o vice-presidente dos Estados Unidos (Kenneth Welsh, muito parecido com adivinha quem? Sim, Dick Cheney) dos perigos que os danos ao meio ambiente, muitos deles causados sob a proteção da política do país, podem trazer. Como resposta, tudo que Hall recebe é uma palestra sobre a economia norte-americana e como ela não pode ser prejudicada. O filho de Jack, Sam (Jake Gyllenhaal), e seus amigos estão em Manhattan por causa de uma competição acadêmica, enquanto o cientista escocês Terry Rapson (Ian Holm) avisa Hall que tudo que ele havia previsto já começou a acontecer, e as primeiras vítimas seriam todos aqueles que estão no Hemisfério Norte - inclusive quem está em Nova York...

Ufa. Ok, então temos o ambiente perfeito pra um tal filme-catástrofe: vários personagens, protagonistas heróicos, dramas familiares, tudo que você já viu antes em algum filme onde um desastre ocorria. Me pergunto o porquê disso, aliás. Será que todos esses clichês estão em algum livro secreto pra diretores, no capítulo "Como Enrolar Se Você Tem Um Orçamento Grande, Mas A História Que Tem Em Mãos Não Preenche Um Longa-Metragem"? Piadas sem graça à parte, vale dizer que isso é usado como bengala por O Dia Depois de Amanhã. Quer dizer, quando não há mais ao que recorrer, recorre-se então às pequenas historinhas de gente que vai/pode perder a vida na catástofre que se aproxima.

Tudo bem, então dessa vez Roland Emmerich resolveu usar furacões, tornados e outros tipos de terrores vindos do descontrole da natureza. Isso pra voltar a fazer cenas de destruição, aquelas que são as responsáveis pela existência de pessoas que vão ao cinema só pra ver desastres. No entanto, há de se reconhecer que alguma coisa diferente acontece em O Dia Depois de Amanhã: na cena em que tornados destróem Los Angeles, por exemplo, é passada a sensação de que uma coisa realmente assustadora está sendo mostrada. Não, não é só por causa dos efeitos especiais (eles tão lá também, ótimos como sempre), mas o trabalho com a câmera, feito do ponto de vista do chão, é interessante. Sem contar que, no fundo, é legal pra caramba ver uma metrópole engolida por uma onda gigante, como acontece na Nova York do filme.

E o discurso político? Que discurso político? Talvez até haja a intenção de se alfinetar os Estados Unidos, seja pelo vice-presidente cabeça-dura, seja pelos americanos tentando cruzar a fronteira e perdoando a dívida externa dos países latinos. Mas que isso soa superficial e oportunista durante todo o longa, não tenho dúvidas. Até porque em nenhum momento somos levados a ver como estão as coisas em outro lugar, como a Europa - bem, tirando as poucas seqüências com a turma de Ian Holm, que são nada perto do que se passa na terra do Tio Sam. Talvez tenhamos alguma propaganda ambientalista, mas só isso.

Não há nada muito profundo, nada que seja relevante de fato na produção. É um filme sobre milhões de pessoas morrendo, como muitos que existem e são feitos todos os anos em Hollywood. O negócio é que não é tão bobo quanto, sei lá, Impacto Profundo, um dos filmes que mais me arrependo de ter gastado tempo assistindo. Seus clichês e até sua previsibilidade são melhores trabalhados. Um ótimo filme-catástrofe, embora isso não signifique muita coisa. Só que, enquanto não temos feijão, eu prefiro comer arroz bom do que arroz ruim.




Cotação: 48/100
Sunday, June 20, 2004
 
Chinatown(1974)


Dirigido por: Roman Polanski
Com: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, John Hillerman, Burt Young, Perry Lopez, Diane Ladd, Darrell Zwerling, Roy Jenson, Joe Mantell, Bruce Glover, Richard Bakalyan, James Hong, Beulah Quo, Jerry Fujikawa, Roy Roberts, Noble Willingham, Rance Howard
Indicado a: 7 Golden Globe Awards (Melhor Filme de Drama*, Melhor Ator de Drama para Jack Nicholson*, Melhor Atriz de Drama para Faye Dunaway, Melhor Ator Coadjuvante para John Huston, Melhor Trilha Sonora para Jerry Goldsmith, Melhor Diretor para Roman Polanski*, Melhor Roteiro para Robert Towne*) 11 Oscars (Melhor Filme, Melhor Ator para Jack Nicholson, Melhor Atriz para Faye Dunaway, Melhor Direção de Arte, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Som, Melhor Trilha Sonora para Jerry Goldsmith, Melhor Diretor para Roman Polanski, Melhor Roteiro Original para Robert Towne*)

Com muita vergonha, admito que conheço pouquíssimo da filmografia de Roman Polanski. Dizem que é um gênio. Se é o caso, fico feliz por ele ter sido reconhecido recentemente pela Academia, com o Oscar de diretor por O Pianista, apesar de toda a confusão, dele não poder entrar nos Estados Unidos pra receber o prêmio - seu nome estava envolvido com pedofilia por aqueles lados, acho. Sei lá, não saber exatamente o que se passou só confirma a minha ignorância em relação a ele.

No entanto, faz algum tempo que despertou em mim alguma vontade de mudar isso. Sempre que ouço dizer que alguém é um gênio, é o mínimo que acontece, me dar essa vontade. E achei que Chinatown era um bom começo: o filme foi indicado a inúmeros prêmios (chegou a "roubar" o Golden Globe de O Poderoso Chefão 2), Los Angeles - Cidade Proibida sempre foi comparado com ele, e ainda tinha Jack Nicholson, um dos meus atores favoritos.

Nicholson, em um dos seus primeiros papéis realmente importantes, interpreta J.J. Gittes, um detetive particular, contratado por alguém se passando por Evelyn Mulwray (Faye Dunaway), com a missão de investigar seu marido, Hollis Mulwray, que supostamente cometia adultério. Aos poucos, Gittes se dá conta que Hollis está envolvido em algo muito maior: alguém está comprando terrenos secos baratos, cedendo água para eles, e depois revendendo por milhões de dólares, enquanto a cidade de Los Angeles se torna desértica.

Bom, toda a introdução tosca (os dois primeiros parágrafos) foram só pra explicar que eu não saberia de que maneira comentar Chinatown. Quer dizer...O filme é complexo, mas não é nem por isso. É que, em Chinatown, há um desenvolvimento lento da trama, bastante natural e ajustado, que é construído tão perfeitamente que não cansa. Por conhecer tão pouco de Polanski, eu não sei dizer se isso é característica dele ou se foi o excelente roteiro vencedor do Oscar, escrito por Robert Towne, que fez com que as coisas ficassem como ficaram. De qualquer jeito, é de se admirar a coragem que alguém tem de filmar assim em Hollywood, onde o público é tão impaciente. Imagino que a cena onde J.J. Gittes cantarola The Way You Look Tonight deve ter deixado o público de lá se contorcendo na cadeira, esperando alguma "emoção" (obviamente entre aspas, isso é muito relativo), que não viria.

Água e poder em Los Angeles, que belo tema de se trabalhar. No entanto, muitos filmes policiais, especialmente nos anos 90, tinham temas maravilhosos e estavam abaixo de serem simplesmente medíocres. O que diferencia Chinatown é, em primeiro lugar, o excelente roteiro de Robert Towne. É composto de diversas, digamos, camadas, que são descobertas pelo espectador, sem nunca forçar nem querer causar aquelas grandes surpresas que sempre surgem pra salvar um filme do seu destino patético. Confiar na inteligência de quem vê, tá aí uma lição preciosa que é sempre ignorada.

Towne entrega a Polanski personagens muito marcantes, cada um a sua maneira, pra serem trabalhados. J.J. Gittes está pra filmes noir como Pelé pro futebol, porque é o protagonista completo. Durão, insistente, realista, não deixa de ser sensível aos problemas dos outros e até romântico em certas ocasiões. Com texto escrito especialmente pra ser dito por ele, Jack Nicholson se mostra mais do que versátil, além de absurdamente carismático. Mas não há nem como dizer que o público deixa de se identificar com Evelyn, pois Faye Dunaway também é muito talentosa, e os acontecimentos mostram-na muito mais forte do que se imagina. Por fim, John Huston como Noah Cross é um grande vilão, tem motivações compreensíveis e, mesmo não tendo tanto tempo na tela, tem algum conflito profundo. "A maioria das pessoas não reconhece que, no lugar certo e na hora certa, são capazes de qualquer coisa", ele chega a dizer.

Minha intenção não era falar muito sobre o longa, porque sabia que não conseguiria ressaltar as coisas que realmente importam nele. Com uma direção espetacular de Roman Polanski (será que é justo mesmo dizer que, anos mais tarde, ela inspiraria a de Curtis Hanson em Los Angeles - Cidade Proibida? As duas são geniais, mas não se parecem tanto), Chinatown é único, original e bastante esperto. Meu tipo de filme.




Cotação: 92/100
Tuesday, June 15, 2004
 
Cazuza - O Tempo Não Pára(2004)

Dirigido por: Sandra Werneck e Walter Carvalho
Com: Daniel de Oliveira, Andréa Beltrão, Cadu Fávero, Marieta Severo, Reginaldo Faria, Débora Falabella, André Gonçalves, Leandra Leal, Emílio de Mello

"Dias sim/Dias não/Eu vou sobrevivendo sem um arranhão/Da caridade/De quem me detesta"
(Cazuza - O Tempo Não Pára)

Durante a sessão que peguei de Cazuza - O Tempo Não Pára, filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho, que narra a trajetória de um dos cantores brasileiros mais populares dos anos 80, me encontrei refletindo sobre uma teoria meio boba: "filmes baseados em histórias reais recentes não dão muito certo". É até meio estúpido pensar assim, já que é só usar a rolagem aí pra descobrir o quanto gostei de O Informante, de Michael Mann, que envolvia acontecimentos, digamos, fresquinhos.

Acontece que o que me levou a pensar assim foi o próprio Cazuza (o filme, não a pessoa). Por muitas vezes, ele tenta ser livre, tenta ir um pouco mais além da simples exibição do mito. Só que talvez por Frejat ainda estar na mídia, talvez pelo fato do Brasil (ainda) não ter esquecido do artista que dá título ao longa, talvez por ter sido algo que parece que aconteceu ontem, ou talvez simplesmente por ser um filme da Globo Filmes, tudo fica lá, na superfície. Dei tantos motivos pra isso porque é injusto dizer que Mann teve "mais peito" que Werneck e Carvalho: estes últimos apenas tinham uma tolerância menor pra trabalharem.

Ok. O que se passa, todos sabemos (acredito eu): Cazuza (Daniel de Oliveira) é um garoto carioca, cheio de amigos, que começa a fazer sucesso com sua banda, o Barão Vermelho. Por ter crescido nos anos da ditadura no Brasil, ele quer se libertar, seja através das drogas, do sexo ou do rock 'n roll. Mas o rapaz não consegue se encontrar, pra desespero dos seus pais (Marieta Severo e Reginaldo Faria). Depois de contrair um vírus do qual ainda pouco se sabia, Cazuza se sente preso e cheio de restrições, e inicia-se então a decadência lenta e, simultaneamente, meteórica, de um ídolo.

Cazuza - O Tempo Não Pára não se arrisca a explicar a infância do cantor e letrista. Se por um lado, isso é bom, já que seria idiota tentar encontrar uma razão pra tudo ter ocorrido como ocorreu, por outro, não sei. Não seria essa mais uma tentativa de evitar problemas com os fãs? Seja lá o que for, os fãs ganham, porque retrata-se então o período mais interessante e conhecido dessa vida - claro que alguns fatos importantes não estão lá, mas falemos disso mais pra frente.

Por enquanto, vamos apelar pra o que já foi dito mil vezes: Daniel de Oliveira dá um show. Ótima atuação. Ao mesmo tempo que encarna um personagem real, Daniel cria seu próprio Cazuza. Seus vícios, seus gestos, eles não só desenterram a lenda, eles também constróem algo inédito, algo novo. Marieta Severo e Reginaldo Faria também se saem bem, embora tenham poucas chances de demonstrar seu talento, porque tudo gira de fato em torno de Daniel. Cadu Fávero, como Frejat, é outro bom ator, num papel não tão fácil assim (não é nenhum Salieri, mas há uma certa ambigüidade de sentimentos em relação a Cazuza).

Mas como um filme sobre esse cara não fala sobre Ney Matogrosso, ou sobre a entrevista à Marília Gabriela onde ele confessou ter AIDS? Pois é, são só algumas das coisas que foram esquecidas. O filme se mantém muito certinho, sem explorar aspectos da vida de Cazuza que ainda não foram explorados. É uma história que muita gente já conhece, recontada, agora no cinema. Embora os diretores tentem se libertar dos grilhões da obviedade, convenhamos que uma cena de homossexualismo aqui, uma cena de usuários de drogas ali, um filho xingando a mãe acolá, não constituem um estudo do homem. O roteiro, recheado de diálogos fracos querendo soar grandes, é basicamente feito disso.

Só que, apesar dessas falhas graves, não é um filme ruim. Tem mais acertos do que erros, porque, como diversão, funciona. O ritmo frenético do início (as coisas acontecem muito, muito rápido) não é exatamente ruim, embora, depois que o filme bota o pé no freio, pareça deslocado. Como cinebiografia, não é nada inovador mesmo. Só que, ao escrever isso, me pego tentando lembrar de alguma cinebiografia que fosse, e são poucas. Por fim, é algo pra fã: é até legal ver tanta gente cantarolando baixinho, e o longa investe bem na excelente discografia de Cazuza. Poderia ter sido melhor, mas está acima do que eu esperava.




Cotação: 53/100
Saturday, June 12, 2004
 
Então, eu tinha prometido melhorar, e ia começar postando um review de Chinatown, do Polanski, que não, nunca assisti. Mas aí...Sabe quando você tem tanta coisa pra fazer, que até esquece que tinha alugado filme? Então, vou ter que alugar de novo alguma outra vez. Enfim.

Só pra não deixar isso aqui às moscas, e só porque eu achei engraçado:

"It's the biggest overreaction since Joe Pesci shot Spider in GoodFellas"

Ou em português claro:

"É a reação mais exagerada desde que Joe Pesci atirou no Spider em Os Bons Companheiros"

(Colin Quinn, do Saturday Night Live, falando sobre a possibilidade de Bill Clinton sofrer um impeachment por causa de suas...relações com uma estagiária)
Monday, June 07, 2004
 
Caramba, que falta de atualização por aqui. Bom, depois do feriado, prometo tentar melhorar.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban(Harry Potter and The Prisoner of Azkaban, 2004)


Dirigido por: Alfonso Cuarón
Com: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Maggie Smith, Alan Rickman, Warwick Davis, Miriam Margolyes, Kenneth Branagh, David Thewlis, Robbie Coltrane, John Cleese, Gary Oldman

Ok, então, eu nunca li um livro do bruxo adolescente mais famoso do mundo. Mas sempre ouvi falar que o terceiro da série escrita pela britânica J.K. Rowling era o melhor e, bem, ao menos o preferido de boa parte dos fãs ele é. Harry Potter acabou fazendo bastante barulho no cinema também, com os lançamentos de A Pedra Filosofal e A Câmara Secreta, em 2001 e 2002, respectivamente. Portanto, ficou difícil pra eu continuar, digamos, ignorando o fenômeno apelidado de "Pottermania".

Porém, sempre achei os dois primeiros filmes fracos. Chris Columbus não está entre meus diretores favoritos, muito pelo contrário, e deve ser uma tarefa dificílima produzir algo interessante e criativo quando você sabe que há milhões de pessoas rezando pra que o filme seja o mais fiel possível ao livro em que é baseado, e pior ainda se uma dessas pessoas for a própria escritora dele. Sim, mas não é impossível: Peter Jackson fez algo maravilhoso com sua trilogia O Senhor dos Anéis, e devem existir outros exemplos. Sim, até assistir O Prisioneiro de Azkaban, a tal Pottermania ainda era estranha demais pra mim, já que não via nada demais ali.

Nesse terceiro filme, Columbus resolveu ficar só como produtor, e dar a chance de uma vida pra Alfonso Cuarón, já conhecido por trabalhos como A Princesinha e E Sua Mãe Também. Seria ele então o diretor, e, quando fiquei sabendo, gostei. Em O Prisioneiro de Azkaban, Cuarón pegaria o universo já apresentado por Columbus e iria em frente, contando agora a história de Sirius Black (Gary Oldman), um perigoso bruxo que, foragido, está à procura de Harry Potter (Daniel Radcliffe), pra que possa terminar o que começou há vários anos atrás, quando matou os pais do garoto.

As coisas mudaram, acho que isso fica bastante claro pra qualquer um que tenha visto os anteriores e vá conferir esse aqui. Pra começo de conversa, tudo está mais sombrio, só que agora sombrio de verdade (digo isso porque era o que comentavam de A Câmara Secreta, mas todos sabemos que ele não era muito diferente de A Pedra Filosofal): não há mais, ainda bem, aquele clima de fascinação por Hogwarts e tudo o que envolve os bruxos. Talvez por já ser a terceira parte, e já no livro era assim, ou talvez porque Cuarón simplesmente sabia que isso não funcionaria novamente.

O que temos aqui é um filme de personagens, apoiado neles e só neles - sim, lá estão efeitos especiais, direção de arte caprichada, etc. e tal, mas não é nada como o mundo um tanto plástico e vazio que Chris Columbus nos exibiu. Aliás, ok, estou sendo injusto: a parte visual do filme é ótima, mas ela acompanha o tom da trama, que é, em grande parte, ditado pelas estranhezas e peculiaridades dos personagens. Exageros? Até vemos alguns, mas são mais sutis. De fato, até John Williams me pareceu menos repetitivo e trouxe uma boa trilha sonora.

E ainda bem, ainda bem mesmo que Alfonso Cuarón soube dirigir seus atores. Porque, se no primeiro filme, era um tanto indigesto ver Radcliffe atuando, aqui nem parece a mesma pessoa. Tá certo, o rapaz tá amadurecendo, mas talvez ainda não estivesse pronto pra carregar todo um filme nas costas (que é o que acontece em Prisioneiro de Azkaban). Não, não, aqui é totalmente diferente: ele está inclusive mais "tridimensional", se é que vocês me entendem, que Rupert Grint e Emma Watson, que, apesar disso, não estão ruins. Gary Oldman, nos pouquíssimos minutos que aparece, mostra porque é brilhante. Atuação digna de Oscar (de ator coadjuvante, claro), mas isso já é outro assunto.

Por fim, talvez seja como A. O. Scott, do New York Times, disse em sua crítica: esse é o primeiro filme do bruxo que parece realmente um filme, em vez de uma leitura do livro com alguns efeitos especiais. Por isso, pode decepcionar quem espera que tudo que Rowling escreveu esteja presente. Muitas coisas ainda podem ser melhoradas, o diretor não parece ter obtido liberdade total, mas há ritmo, ação, diálogos e situações interessantes na medida certa. É um filme divertido, e muito menos raso. Vamos ver o que Mike Newell, que irá dirigir o próximo (Harry Potter e o Cálice de Fogo), fará. Até agora, Azkaban é o melhor - fácil, fácil.




Cotação: 67/100
Tuesday, June 01, 2004
 
Kill Bill - Vol. 1(2003)

Dirigido por: Quentin Tarantino
Com: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Chiaki Kuriyama, Sonny Chiba, Gordon Liu, David Carradine, Michael Madsen, Daryl Hannah
Indicado a: 1 Golden Globe Award (Melhor Atriz de Drama para Uma Thurman)

"Bang bang, he shot me down/Bang bang, I hit the ground/Bang bang, that awful sound/Bang bang, my baby shot me down"
(Nancy Sinatra - Bang Bang)

Não há nada mais clichê do que começar um texto sobre o primeiro volume da nova história trazida por Quentin Tarantino às telas com uma citação à essa música. Porém, acho que pra quem só teve a oportunidade de ver o filme praticamente um mês depois dele ter estreado no Brasil (sem mencionar quantos meses fazem desde a estréia americana), não é nada tão absurdo. E o pior é que toda essa demora não foi por vontade própria: o longa só abriu aqui pela minha cidade semana passada, com a censura estranha de 18 anos.

Mas não, não é nada que não tenha valido a pena esperar: depois de um bom tempo longe da cadeira de diretor, Tarantino retornou com praticamente tudo que se poderia esperar dele - e um pouco mais. Misturando referências de maneira deliciosa (e não de maneira que quem não sabe do que se trata, se sente perdido), passeando por vários estilos com competência, e jogando com as coisas com seu humor negro de sempre. Da cena inicial, em preto e branco e ao som de uma respiração acelerada, até a cena final, que deixa qualquer um maluco de vontade de voltar aos cinemas (o Volume 2 estréia em Outubro, não?) pra ver como as coisas vão se resolver, Kill Bill é um filme cool. Entenda isso como quiser.

A trama não parece e talvez não seja nada profunda: no dia do seu casamento, a Noiva (Uma Thurman), cujo nome não nos é revelado nessa metade da saga, é atacada por pessoas de um grupo conhecido como Víboras Mortais, do qual ela costumava fazer parte. Só que, ao contrário do que o homem que ordenou tudo isso, um tal de Bill (que não tem sua face mostrada ainda, mas todos sabemos e até os créditos nos dizem que é David Carradine), esperava, ela não morreu. Após passar 4 anos em coma, a moça está disposta a se vingar de cada uma das pessoas que fez isso com ela, sem descansar - até que o último deles tenha morrido.

Sim, sim, este é um filme do homem por trás de Cães de Aluguel, como essa sinopse paupérrima já deixa claro. Violento sim, mas a violência não é ofensiva nem pode ser levada muito a sério. Claro, ou alguém perde uma mão e jorra sangue sem parar, chegando até a fazer barulho de chuveiro? É sim questionável a censura de 18 anos: não que seja exatamente um filme pra levar a criançada pra ver, mas é muito menos sério do que A Paixão de Cristo, por exemplo, que recebeu uma censura de 14 anos, e ainda mexia com um tema mais, digamos, forte.

Algo que eu gostei bastante em Kill Bill e que li em poucos textos alguma coisa sobre é Uma Thurman, a Noiva (que, diga-se, é um papel tão incrível e memorável quanto um Indiana Jones ou um Luke Skywalker), que acerta muito na sua atuação. Não há um olhar que transmita tanto ressentimento (olhar esse que recebe atenção especial da câmera, assim como os pés da moça, mas essa já é outra história, e sim, eu vou colocar uma dezena de parênteses nesse review), nem uma voz que pareça conter tanta dor, e talvez isso seja muito, muito importante, mesmo que pouca gente acabe prestando atenção.

"Epa, mas como que esse filme é isso tudo aí? Não é só uma bobagenzinha, sobre uma garota que luta com espadas e decepa uns japoneses, numas cenas de ação legaizinhas?", alguém pode perguntar. E não, não é só uma bobagenzinha, porque o cinema de Tarantino é humano, embora pra muita gente isso não fique claro. Nesse, ele se aproveita de uma montagem sensacional de Sally Menke e de uma fotografia linda de Robert Richardson, pra esconder ainda mais o que quer dizer. Portanto, não há diálogos recheados de cultura pop, e sim todo um visual de filme B de Honk Kong (com um anime violento e belíssimo, inclusive, lá pro meio), que tornam a experiência divertida, pra quem só procura olhar pro que está na superfície, e pra quem não faz isso também.

Na trilha sonora, é sabida a competência do cara, escolhe as músicas certas pros momentos certos, e nesse Volume 1 as coisas continuam assim. "Battle Without Honor Or Humanity", "Twisted Nerve", "Don't Let Me Be Misunderstood", está tudo lá, em seu lugar, servindo de fundo pros rios vermelhos que escorrem da tela. Tentei evitar encerrar assim, mas não dá: Kill Bill - Vol. 1 é praticamente o Pulp Fiction da nossa época, ainda que o Pulp Fiction da nossa época seja o próprio Pulp Fiction.

E vamos rezar pra que a Lumiére não adie muitas vezes o Volume 2.




Cotação: 90/100

PS: Pois é, durante Kill Bill, não senti fome.
Saturday, May 29, 2004
 
O Informante(The Insider, 1999)


Dirigido por: Michael Mann
Com: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Philip Baker Hall, Lindsay Crouse, Debi Mazar, Stephen Tobolowsky, Colm Feore, Bruce McGill, Gina Gershon, Michael Gambon, Rip Torn, Lynne Thigpen, Hallie Kate Eisenberg
Indicado a: 5 Golden Globe Awards (Melhor Filme de Drama, Melhor Ator de Drama para Russell Crowe, Melhor Roteiro para Michael Mann e Eric Roth, Melhor Trilha Sonora para Peter Bourke e Lisa Gerrard, Melhor Diretor para Michael Mann), 7 Oscars (Melhor Filme, Melhor Ator para Russell Crowe, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Som, Melhor Roteiro Adaptado para Michael Mann e Eric Roth, Melhor Diretor para Michael Mann)

Eu tinha uma professora de inglês que fazia umas traduções pra um fabricante de cigarros, ela e o marido britânico. Ambos tinham assinado um contrato de sigilo com a empresa. O que significa que, sobre algumas coisas, jamais poderiam abrir a boca. No entanto, ela comentava na sala, em especial pra uma adolescente que estudava com a gente e que fumava muito, que se ela soubesse algumas das sujeiras das companhias de tabaco, ela jamais acenderia outro cigarro.

Não sou moralista, acho. Se o cara quer fumar, que fume, a saúde é dele. Isso é, desde que respeite quem não é fumante e tudo mais, essa ladainha que você aprende no primário, mas que não deixa de ser verdadeira. Certo. No entanto, é estranho notar que os fabricantes dessa droga estão numa boa, sempre, com a justiça. Citando um diálogo do filme a ser comentado, a GM e a Ford podem levar uns processos pela explosão de algum carro. Agora, as empresas de tabaco, mesmo o cigarro causando uma série de doenças e matando números incríveis de pessoas por ano, sempre saem ilesas. Mas o que elas têm a esconder, que precisam de um contrato assinado com seus tradutores, pra que tudo que eles façam fique só entre os empregados?

Não sei se a intenção de Michael Mann e Eric Roth era de investigar isso, quando resolveram sentar pra escrever O Informante. Baseado num artigo real de nome "The Man Who Knew Too Much", ou "O Homem que Sabia Demais", da revista Vanity Fair, essa é a história de Jeffrey Wigand (Russell Crowe), ex-cientista da Brown & Williamson, uma grande empresa de tabaco, que está disposto a, lentamente, abrir o bico. Quem pretende estar lá, na hora certa, pra registrar isso, é Lowell Bergman (Al Pacino), produtor do programa 60 Minutes do canal CBS. Enquanto Wigand enfrenta ameaças por parte dos ex-colegas de trabalho, Bergman enfrenta o departamento judiciário da CBS, que não quer se envolver com tudo isso.

O roteiro de Mann e Roth é excelente, de gente que sabe fazer cinema, e mais, de quem sabe muito bem onde quer chegar. Não só engloba todos os fatos envolvidos no caso, levantando boas questões sobre omissão de informação (no caso, informação extremamente importante, já que supostamente seria algo relacionado à saúde de quem consome os cigarros da Brown & Williamson), como também trata o espectador de maneira inteligente. Pra um drama real sem grandes surpresas, ter um bom roteiro é essencial, acredito.

É bastante interessante, também, notar que Mann, com uma história polêmica em mãos, não dirige O Informante de maneira convencional. Talvez não tivesse ficado ruim se ele jogasse as coisas normalmente, como quase todo diretor americano faz, mas ele evitou esse que seria o caminho mais seguro. Portanto, os acontecimentos se seguem com alguma rapidez, vários personagens são explorados simultaneamente, e talvez isso possa confundir quem só espera um filme divertido de ação. Ação, suspense, drama, sei lá, tudo isso está no longa.

A dupla de atores é um ponto altíssimo de O Informante. Essa é, possivelmente, a melhor atuação de Russell Crowe. Em nenhum momento identifiquei em Wigand os vícios que o ator costuma ter. Aliás, tudo que consegui desenvolver foi o respeito por esse seu trabalho, porque todo o tempo, na tela, quem está lá é um ator dedicado e criativo, que passa tudo que Mann provavelmente queria passar com o personagem. Já Al Pacino, esse costuma sempre dispensar comentários. Já provou ser um gênio, e, pra ele, o prazer em atuar deve ser mais ou menos como o da Madonna em fazer tours. Aquele negócio de se reinventar. E ele se dá muito bem. Há uma cena onde ele fica revoltado, e...Bem, talvez esse negócio de ficar revoltado seja muito fácil pra um ator, já que grito é sinal de boa atuação pra quem não entende muito do assunto, e ninguém devesse admirar tanto isso. Mas é que o cara faz isso de maneira espetacular, merecia o Oscar de Melhor Revolta do Ano - se ele existisse, é claro.

Por fim, o que me conquistou mesmo em O Informante foi o fato de que ele não é só um filme investigativo, como andei lendo por aí, mesmo mexendo num vespeiro enorme, com um acontecimento recente e tudo mais. Portanto, não funciona como documentário, ou só como isso; é também um ótimo drama, bem dirigido, bem atuado, com uma trilha sonora incrível. Não sei se pode-se cobrar muito mais do que isso de uma realização cinematográfica.




Cotação: 80/100
Sunday, May 23, 2004
 
Tróia foi de fato o último filme que vi no cinema. Mas odeio blogs que ficam muito tempo sem atualizar, como esse. Então, bem, me vejo forçado a escrever, em negrito:

OS FILMES DO TARANTINO ME DÃO FOME!

É que eu sou meio...americanizado demais, acho.

Em Cães de Aluguel, o Mr. Blonde me aparece com aquele copo típico de fast foods. Adoro fast foods. Me lembro de ter ficado com vontade de beber algo...

Em Pulp Fiction, toda a seqüência do "Royale With Cheese" me deixou com fome. Aquele hamburger gorduroso, hm...De um fast food havaiano, não? Mais pra frente, ainda tem o milk shake de 5 dólares e tal.

Em Jackie Brown, tem toda uma parte numa praça de alimentação de um shopping. Pô, tem lugar mais perfeito pra instalar um fast food que uma praça de alimentação de um shopping? Me lembro sim de ter ficado com vontade de correr pro shopping mais próximo.

Por fim, não vi Kill Bill. Mas me pergunto se isso é bom ou ruim, isso de me dar fome. Acho que...É ruim. Primeiro que comida de fast food não é nada legal (aliás, alguém mais tá louco de vontade de ver Super Size Me, aquele documentário sobre o cara comendo um mês inteiro só no McDonald's?). Segundo que...Bem, se você lembra que tá com fome, significa que não tá prestando tanta atenção no que se passa na tela, né? E nem tem motivo pra isso, pra dispersão da sua atenção, já que, putz, é um filme do Tarantino. Mas assim sou eu.

Hã. Sim, é só isso.
Tuesday, May 18, 2004
 
Tróia(Troy, 2004)


Dirigido por: Wolfgang Petersen
Com: Brad Pitt, Eric Bana, Peter O'Toole, Orlando Bloom, Diane Kruger, Brian Cox, Brendan Gleeson, Sean Bean, Julie Christie, Saffron Burrows, Garrett Hedlund, Tyler Mane, Rose Byrne

Em 2000, quando a carreira de Ridley Scott estava mais pra baixo que a de Michael Jackson, e Russell Crowe era um ator promissor, com boas atuações em Los Angeles - Cidade Proibida e O Informante, eles resolveram fazer barulho. Isso é, através do lançamento de Gladiador. Depois desse filme, Scott voltou a ser considerado um grande diretor, assim como Crowe passou de vez de "ator de papéis menores" pra "grande astro". Gladiador levou ainda alguns Oscars, inclusive o de melhor filme, mas seu maior feito talvez tenha sido ressuscitar os épicos em Hollywood - até porque sua qualidade é bastante questionável.

Mas um épico pode ser uma bomba tão grandiosa quanto os gastos em sua produção. Ao ver o primeiro trailer de Tróia, não acreditei que pudesse sair grande coisa: aqueles navios enfileirados eram bonitos de se ver, mas era só isso mesmo que me atraía. Orlando Bloom e o diretor de Mar em Fúria num filme baseado em A Íliada, de Homero? Tremi ainda mais quando soube que, pouquíssimo tempo antes do lançamento do longa, a trilha de Gabriel Yared havia sido substituída às pressas pela de James Horner, só porque a de Yared era bem estilizada e diferente, ao contrário da música-genérica-pra-blockbusters de Horner. Era só mais uma prova de que esse filme não era pra ser levado mesmo a sério. Portanto, confesso: me surpreendi.

Páris (Orlando Bloom) e Heitor (Eric Bana) estão em Esparta, promovendo a paz entre a cidade e Tróia, onde são príncipes. No entanto, Páris acaba se envolvendo com a mulher do Rei Menelau (Brendan Gleeson), a bela Helena (Diane Kruger), e leva-a pra Tróia. Menelau, furioso, vai até o irmão, o Rei Agamenon (Brian Cox), que se aproveita da situação pra declarar guerra entre a Grécia e a cidade de Páris. Depois de uma conversa com Ulisses (Sean Bean), Aquiles (Brad Pitt), provavelmente o melhor guerreiro grego, aceita ajudar, mas por razões próprias: ele quer que seu nome seja lembrado muitos anos depois, que sua glória seja imortal. A maior guerra que o mundo veria está pra começar...

Ok, então o roteirista David Benioff resolveu trabalhar livremente, sem se prender muito à Ilíada. Isso não traz prejuízos, só uma visão diferente: ao eliminar a presença dos deuses, deixando que eles só sejam citados, mais como crença do que como fato, ele dá alguma "realidade" ao filme, humanizando mais os acontecimentos da guerra. Claro, essa realidade é entre aspas, porque mesmo não havendo aparições das divindades, há toda uma romantização hollywoodiana, que nem é tão boa assim.

Mas Tróia não decepciona, ou não decepciona completamente. Todos os seus clichês de superprodução funcionam, ou quase todos. Os figurinos lembram muito os velhos épicos norte-americanos, dando um clima legal. A fotografia e a direção de arte também não deixam a desejar. Já a direção de Wolfgang Petersen é bem acertada: embora não muito criativo, ele não exagera em nenhuma parte (particularmente, gostei das lutas no mano a mano, bem filmadas). Aliás, é interessante ver o tratamento que o diretor dá a Aquiles com sua câmera - simplesmente constrói toda a figura do herói na imagem de Brad Pitt, não só pra fazer as menininhas da platéia delirarem, mas pra dar sua visão do personagem. Provavelmente, o maior acerto do diretor, e ele faz algo parecido com a Helena de Diane Kruger, embora em menor escala, já que ela não tem tanto tempo na tela.

Mas parece que só visualmente Aquiles e Helena funcionam. Brad Pitt está apagado, maneirista demais, e com expressões faciais fracas. Eu não o considero um ator ruim, ao contrário da maioria das pessoas, mas parece que, com um papel desses, ele se perdeu. Não está mal, mas falta algo. Melhor que Orlando Bloom, ao menos, que atua mais uma vez mediocremente, e com um personagem desses, só parece mais apático ainda. Embora tenhamos um bom Peter O'Toole (o que não é novidade) e um ótimo Sean Bean como coadjuvantes, o elenco se sai bem abaixo do nível que um filme desses exige. Eric Bana, esse sim, demonstra talento, sendo provavelmente o melhor ator do filme. Heitor, acredito, é até menos profundo que Aquiles ou Páris, mas Bana imprime carisma e força nele, e o faz de maneira bem satisfatória.

No entanto, dói um pouco ver que a pretensão de todo mundo envolvido era mesmo faturar: o filme acaba, você até sai feliz, mas só. Tudo bem, supera fácil o já citado Gladiador, só que é tão certinho dentro do que se propõe, que dá a impressão de ser só mais uma produção esquecível. A trilha sonora de Horner, tão previsível, contribui, e muito, pra isso. Mas acho que o problema é mais profundo. Enfim, melhor não reclamar: se fosse um longa com muitas ambições, como parecia ser no trailer, teria sido muito pior. Ou não.




Cotação: 52/100
Friday, May 14, 2004
 
Van Helsing - O Caçador De Monstros(Van Helsing, 2004)


Dirigido por: Stephen Sommers
Com: Hugh Jackman, Kate Beckinsale, Richard Roxburgh, David Wenham, Will Kemp, Shuler Hensley, Kevin J. O'Connor, Elena Anaya, Josie Maran, Silvia Colloca

Monstros: o cinema americano sempre foi ligado a eles. Ao menos, o antigo cinema americano. Mas eles foram uma vez bastante populares, e filmes e mais filmes foram feitos, principalmente sobre o trio Lobisomem-Frankenstein-Drácula, todos personagens da Universal Studios. Pra qualquer fã dos feiosos, um filme que reúne os três seria um sonho, não? Bem, não sou fã, mas acho que posso dizer que Van Helsing não deve ter preenchido as expectativas de quem é.

Stephen Sommers. Ah, sim, o diretor de A Múmia. Ele é o homem por trás do projeto, dirigiu e assinou o roteiro. Já disse uma vez que gostaria de fazer um filme onde tudo que estaríamos vendo seria uma conversa entre duas pessoas numa praia, ou coisa assim. "Mas não seria legal se, no meio disso, uns monstros chegassem e destruíssem tudo?". Quebra um pouco a expectativa ouvir isso, não? Sommers não esconde sua paixão pelo estilo de cinema de superproduções. Não gosto de uma coisa sobre isso: nunca sabemos quando o diretor está levando a coisa a sério e quando não está.

Nesse longa, temos Van Helsing (Hugh Jackman), um caçador de monstros. Claro, o título no Brasil entrega isso. Ele deve fazer o trabalho de Deus, ou alguma coisa do tipo, sendo manipulado pelo Vaticano. Legal, uma espécie de Homem-Aranha daquela época. Ou melhor, Batman, porque é incrível a quantidade de equipamentos cool que o cara tem, lembrando bastante o morcego. Enfim, junto com seu amigo Carl (David Wenham), ele é enviado pra Transilvânia, onde deve ajudar Anna Valerious (Kate Beckinsale) a matar o Conde Drácula (Richard Roxburgh) e acabar com a maldição da família da moça, que não passaria pelos portões de São Pedro, aqueles que guardam o Céu, caso o vampiro não fosse assassinado.

Certo. A cena inicial de Van Helsing, em preto-e-branco, faz parecer que o que temos pela frente é realmente um bom filme: uma homenagem mais sincera que todo o resto do longa aos antigos filmes sobre monstros. Infelizmente, Sommers parece ter usado toda sua inspiração logo aí, e essa é a melhor cena que tem pra nos apresentar. Depois, tudo que vemos são efeitos especiais incríveis, e uma história que tem pouco a dizer. Aliás, como filme que reúne a trindade de ouro dos filmes de terror, muita coisa é desperdiçada. O único bem desenvolvido é Drácula, e suas noivas.

Que, na minha modesta opinião, não ficaram legais. As atuações são bem forçadas, a ponto de irritar. As noivas do Drácula que o digam, berrando e berrando sem razão aparente. O próprio vilão é tão afetado, tão bobo, que prejudica bastante quem quer torcer pelo bad guy. De fato, ficamos sem ter pra quem torcer, porque Van Helsing é interpretado por um Hugh Jackman apático, bem diferente daquele que nos acostumamos a ver. Kate Beckinsale...é Kate Beckinsale. Nesse, ela nem atrapalha tanto, talvez por estar cercada de gente que faça isso por ela. A melhor atuação acaba sendo de David Wenham, o Faramir de O Senhor dos Anéis, que mesmo com um texto fraco, consegue cativar - não muito, mas o suficiente pra que eu me importasse com ele.

O romance entre Anna e o protagonista parece só atrasar as coisas, além de ser clichê em quase todos os seus momentos. O roteiro de Sommers, bem como sua direção, só privilegia as partes que parecem pré-fabricadas pra fazer o espectador saltar da cadeira. E falha nisso. Mr. Hyde é jogado fora numa seqüência boba, e nada feito com o Lobisomem desperta algo além de "legal, hein". Van Helsing acaba parecendo vazio, fraco, looooongo. Só vamos esperar que não vire uma franquia, porque as coisas costumam piorar nas continuações...




Cotação: 37/100
Tuesday, May 11, 2004
 
Diários de Motocicleta(2004)


Dirigido por: Walter Salles
Com: Gael García Bernal, Rodrigo de la Serna, Mía Maestro, Susana Lanteri, Mercedes Morán

Embora Diários de Motocicleta não esteja exatamente fazendo um discurso político, é de se admirar que finalmente se faça um filme falando de um revolucionário latino-americano. Tudo bem, é estranho ver escrito nos créditos finais de um filme desses algo como "produtor ejecutivo: Robert Redford". Mas em tempos de gente sem terra em seu próprio país, é louvável que alguém se preocupe em retratar uma parte que seja da vida de uma pessoa como Che Guevara - o real, não o que é vendido em camisetas.

Baseado nos diários que Ernesto Guevara de la Serna, o "Che" (ou "El Fuser", como você ouvirá bastante durante o longa), escreveu durante sua viagem pela América do Sul, Diários de Motocicleta esteve em Sundance e participará do Festival de Cannes. O filme é dirigido por Walter Salles, do indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro Central do Brasil, e já tem site americano especulando que agora Salles poderá receber uma indicação na categoria de diretores. O que é estranho: os americanos são extremamente paranóicos em relação a Guevara. Comprovei isso dando uma olhadinha na página do filme no IMDB, e lá as coisas quase ficaram feias.

Mas como já disse, não é um discurso político, nada do tipo "vamos-ser-comunistas-e-tudo-ficará-bem". Nada mais é do que a história de Ernesto (Gael García Bernal) e Alberto Granado (Rodrigo de la Serna), dois amigos que resolvem percorrer uma boa parte da América do Sul, na companhia da simpática motocicleta de nome La Poderosa, partindo de Buenos Aires, na Argentina, e indo até San Pablo, no Peru, onde fica o leprosário que pretendem visitar.

Narrado como uma "aventura na estrada", de uma maneira parecida com Central do Brasil, o filme tem um desenvolvimento muito interessante e devo dizer que nos primeiros momentos não esperava muito dele. É que Salles gosta, ou parece gostar, de que vejamos as coisas do ponto de vista dos seus personagens. Assim, no início, diversão e algumas boas risadas são quase garantidas. Mas é só Ernesto começar a prestar mais atenção no povo, e a nossa visão de toda aquela terra é aprofundada. O ritmo é ótimo, sem reclamações aqui.

Não há como negar que o diretor se aperfeiçoe cada vez mais tecnicamente. Em Diários de Motocicleta, várias tomadas de Salles são verdadeiras pinturas, que não só denunciam a pobreza, a tal "gente sem terra em seu próprio país" citada previamente, como também exibem a riqueza natural americana. Fotografia digna de nota. Ainda há o roteiro que ajuda bastante, sem forçar, sem choros compulsivos, sem exageros que prejudiquem. Os diálogos são leves, ainda bem (aliás, sou só eu que penso assim, ou o castelhano é uma língua maravilhosa, mesmo nos seus palavrões?). Com tudo isso, a duração parece ser bem menor, e as coisas fluem agradavelmente.

Gael García Bernal está ótimo. Sua interpretação é acertadíssima, em momento algum soando falsa. Ah, aqueles ataques de asma...A escolha do ator pro papel foi muito bem pensada, justamente por se tratar de um filme onde tudo é visto através de seus olhos; seu Guevara passa da ingenuidade pra indignação contida, numa mudança bem real. A química com Rodrigo de la Serna é muito boa, e deve ser levado em conta também o talento deste, cujo personagem rouba muitas cenas, sendo extremamente carismático e trazendo um tom de humor que se mostra bastante necessário.

Maduro, bonito e exalando um espírito latino raro no cinema - isso é, ao menos pra mim é raro -, Diários de Motocicleta ainda é fechado de um jeito sublime, com imagens do verdadeiro Alberto Granado, vivo até hoje. Tá certo, toda crítica tem mencionado isso, mas vou fazer o quê? É bem legal mesmo, assim como as fotos reais colocadas nos créditos finais. Dá pra ver o cuidado com a caracterização física dos atores. Belo filme.




Cotação: 75/100
Saturday, May 08, 2004
 
Donnie Darko(2001)


Dirigido por: Richard Kelly
Com: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Drew Barrymore, Mary McDonnell, Holmes Osborne, Katharine Ross, Patrick Swayze, Noah Wyle, James Duval, Maggie Gyllenhaal

"And I find it kinda funny, I find it kinda sad: the dreams in which I'm dying are the best I've ever had"
(Gary Jules - Mad World)

Filme independente de 2001, que chegou discretamente no Brasil direto em DVD pela Flashstar, ano passado, Donnie Darko era uma das produções das quais eu mais ouvia falar. Mas justamente por ser tão pequeno, pensava que jamais encontraria na locadora que freqüento. Tudo bem, eu achava que me decepcionaria, não importava muito. De qualquer maneira, quando encontrei o DVD, não resisti. E depois de vê-lo, tudo que resumiria minhas sensações em relação ao filme é a palavra "uau". Isso, apenas uau.

Mas como esse é um blog de cinema com críticas bem chatas e longas (pelo menos eu tento fazê-las assim, acho que funciona), nada de resumir. Donnie Darko, intepretado por um inspirado Jake Gyllenhaal, é um garoto que supostamente sofre de problemas mentais sérios, mas que estão sendo tratados. Ele conhece um coelho gigante de nome Frank (James Duval), que diz a ele que o mundo acabará em 28 dias. Ao mesmo tempo, algo estranho acontece na residência dos Darko: uma turbina de avião atinge o quarto de Donnie, que não estava lá. Mas não havia um aeroplano no céu naquele momento. E, cada dia mais perto do tal apocalipse previsto por Frank, a vida do garoto vai tomando caminhos...Peculiares. O fim se aproxima, enquanto se acumulam ocorrências inexplicáveis envolvendo uma Vovó Morte, alagamentos na escola, Michael Dukakis, viagens no tempo e um filme de Sam Raimi.

Richard Kelly, diretor estreante, que também escreveu o roteiro, explora cada aspecto da história que tem em mãos: desde a estranheza da adolescência, até a estranheza da tal viagem no tempo. Kelly cria uma atmosfera sombria, mas de maneira natural, sem descaracterizar sua cidade pequena. A escolha da Era Reagan para uma história dessas pode parecer inútil, mas tem a sua importância e foi acertada. Aliás, por mais que a sinopse acima seja esquisita, o filme é construído de um jeito em que tudo aquilo não seja a coisa mais esquisita do mundo. Não exatamente aceitável, mas entende-se a confusão de Donnie. Inclusive, há quem se identifique com ele - e não são poucas pessoas.

Kelly cria imagens lindas, poderosas, mas nem precisa fazer muito esforço. Até porque seus efeitos especiais não são grande coisa, obviamente pelo baixo orçamento de filme independente. Ainda assim, a seqüência de abertura é ótima, por exemplo. Outra coisa que merece lembrança é a trilha sonora. Linda, tem Tears For Fears, Echo & The Bunnymen, Duran Duran, a música citada lá em cima, etc. E é também muito bem usada pelo diretor.

Gyllenhaal se sai incrível no papel principal. Seu Donnie, que parece meio sonolento e perturbado, acrescenta muito à qualidade do filme. Outros atores também são bem aproveitados: Patrick Swayze não está nada que possa ser chamado de excelente, mas ruim muito menos. Jena Malone e Mary McDonnell, como as duas garotas da vida de Darko, essas sim, dignas de muitos elogios. Suas personagens são pontos diferentes na trajetória do garoto, e elas cumprem muito bem essa função, ajudando a enxergar ainda mais o esforço de Donnie em ir em frente.

É até difícil falar de um filme como Donnie Darko. Ele mesmo pode ser considerado como pertencente a vários gêneros: suspense, drama, família, religião, anos 80, política, adolescente, etc. Não sei, ainda não consegui elaborar frases que expressem o que eu de fato senti ao vê-lo. Sabe aquela masturbação filosófica que seus amigos chatos fazem com Matrix? Fazer com Donnie Darko é bem mais legal. Tudo que posso, ou melhor, consigo dizer é que é uma das experiências mais espetaculares que já tive.




Cotação: 93/100
Saturday, May 01, 2004
 
Como Se Fosse A Primeira Vez(50 First Dates, 2004)


Dirigido por: Peter Segal
Com: Adam Sandler, Drew Barrymore, Rob Schneider, Sean Astin, Dan Aykroyd, Amy Hill, Missi Pyle, Blake Clark, Luisa Strus

"Wouldn't it be nice if we were older?/Then we wouldn't have to wait so long/And wouldn't it be nice to live together/In the kind of world where we belong?"
(Beach Boys - Wouldn't It Be Nice)

Adam Sandler sempre teve um humor estranho. Quando fazia parte do elenco de Saturday Night Live, ele alternava momentos ótimos como a "canção do suéter vermelho", na qual conseguiu até a participação de Paul e Linda McCartney, e momentos constrangedores, onde tentava arrancar gargalhadas colocando uma colher na testa e botava a língua de fora diversas vezes durante o mesmo quadro. Ainda assim, nunca desgostei dele, embora seja claro pra qualquer um que o comediante nunca se deu tão bem assim fazendo filmes.

Como Se Fosse A Primeira vez, comédia romântica que não é a primeira produção a trazer Sandler e Drew Barrymore juntos (eles estrelaram Afinados no Amor, em 98), explora um tema incomum no gênero, mas comum hoje em dia no cinema americano: a perda de memória, ou doenças que envolvam-na. Já comentei aqui Amnésia e Procurando Nemo, e ambos abordam o assunto de um jeito ótimo, cada um à sua maneira. Mas será que havia necessidade de se fazer uma comédia romântica tratando disso também? Quer dizer...O que de interessante e/ou diferente um filme do estilo traria dentro de uma proposta dessas?

Henry Roth (Adam Sandler) é um veterinário no Havaí. Ele costuma levar pra cama uma turista diferente toda semana, nunca assumindo um compromisso com elas, e dando as desculpas mais absurdas pra pular fora dos relacionamentos. Até encontrar uma conterrânea, Lucy Whitmore (Drew Barrymore), que o atrai de uma maneira diferente. Seu amigo Ula (Rob Schneider) não aprova que ele fique com uma só. O pai (Blake Clark) e o irmão (Sean Astin) da moça não aprovam o namoro também, mas por outro motivo: Lucy sofreu um acidente, e, desde então, sua memória só dura o tempo de mais ou menos 24 horas. Todas as manhãs, ela acorda pensando que o que tem pela frente é o domingo do aniversário de seu pai, dia no qual bateu a cabeça e ficou assim, quando na verdade já se passou um ano. Sua família tem de todo dia repetir as mesmas ações, pra que a moça não sofra. É claro que há dias em que Lucy descobre a verdade, mas não importa: amanhã, ela já esqueceu.

É meio arriscado um romance falar sobre isso, porque, a não ser que ele faça a coisa de uma maneira madura, é um grande desperdício. Sim, porque, ao menos pra mim, o plot parece intrigante. Mas o que se vê é algo que pode ser considerado qualquer coisa, exceto maduro. É a comédia de Adam Sandler, somada ao humor de Rob Schneider. O que resulta em piadas que não deveriam estar em um filme de censura livre (piadas essas que envolvem maconha e o tamanho do pênis de alguns mamíferos). Porém, há de se dizer que Schneider e Sandler parecem levar a coisa tão infantilmente, que a censura se justifica. Eles nunca fazem a coisa de maneira pesada, apesar de que, ainda assim, ela é grosseira.

Schneider já mostrou, no SNL do início dos anos 90, que quando contido, é bem melhor. Quando deixam, ele escracha e fica aquela coisa "pastelão-bizarra", que só agrada a americanos mesmo, e uma parcela não tão grande assim deles. Aqui, pra nós, acho difícil o filme funcionar como comédia. Eu assisti a Como Se Fosse... numa sala preenchida principalmente por adolescentes, e pensava, talvez por preconceito, que iria ouvir risadas histéricas durante toda a projeção. O que vi, no entanto, foram alguns sorrisos amarelos e forçados.

Já como romance...É aí que a produção conquista o público, mesmo que de uma maneira pouco satisfatória. Barrymore não faz nada demais, mas com seu jeitinho de garota meiga, faz com que alguma pena, ao menos, se sinta dela. Bem mais "oh-so-cute" que os animais do filme, usados claramente pra dar ao humor um tom mais leve (embora isso seja questionável pra qualquer um que veja a cena em que um deles vomita). É o relacionamento adoçado (às vezes em excesso) entre ela e Sandler que dá algum brilho à trama.

O roteiro, do estreante George Wing, não ajuda. É fraco, piegas, cheio de personagens implorando por risadas (Sean Astin? Tsc, tsc, tsc), etc, etc. Até a música dos Beach Boys não é tão bem usada assim. Porém, há o fato positivo de você acabar parecendo com a personagem de Barrymore: um dia depois, você já esqueceu de que assistiu isso aí. É bem assim que funciona.




Cotação: 31/100
Sunday, April 25, 2004
 
Todos Dizem Eu Te Amo(Everyone Says I Love You, 1996)


Dirigido por: Woody Allen
Com: Natasha Lyonne, Edward Norton, Drew Barrymore, Alan Alda, Gaby Hoffmann, Natalie Portman, Goldie Hawn, Julia Roberts, Tim Roth, Billy Crudup, Woody Allen, Lukas Haas
Indicado a: 1 Golden Globe Award(Melhor Filme de Comédia)

Nunca vi muitos musicais na minha vida. Admito que até pouco tempo atrás tinha um certo preconceito contra esse tipo de filme. Achava que odiaria um personagem que começasse a cantar e dançar no meio de uma cena, sem razão aparente. Sem contar que o gênero andava meio morto lá em Hollywood, que é provavelmente o lugar em que mais se produziu filmes musicais na história. Mas, hoje em dia, esse quadro mudou: eu não tenho mais esse preconceito, e os musicais podem não ter a força de antes, mas ainda existem - um até ganhou o Oscar, recentemente.

Woody Allen reuniu um belo elenco neste Todos Dizem Eu Te Amo, com o objetivo de fazer um musical antigo, mas moderno. Isso é, algo que funcionasse como os velhos musicais, mas que se passasse nos dias de hoje. Woody é mestre em criar personagens e situações memoráveis. Portanto, partindo disso tudo aí, penso que não seria difícil pra ele fazer algo interessante.

A trama gira em torno de uma família, que não é a típica família de musicais, como bem lembra DJ (Natasha Lyonne), a narradora da história. Sua família é rica, e democrata liberal. Tanto seu padrasto, Bob (Alan Alda), quanto sua mãe, Steffi (Goldie Hawn), ainda mantêm amizade com seu pai, Joe (Woody Allen). DJ tem uma irmã, Schuyler (Drew Barrymore), que estando pra se casar com Holden (Edward Norton), desiste, tendo se apaixonado por um ex-prisioneiro (Tim Roth). Isso tudo somado resulta em Todos Dizem Eu Te Amo: encontros e desencontros amorosos em Nova York, Paris e Viena.

Todos os personagens, como costuma ocorrer nos filmes do diretor, são apaixonantes. Vivos, cada um com ao menos um traço forte. Nisso, o roteiro acerta. Porém, há alguma coisa de errado nesse mesmo roteiro: ele joga muitas idéias, e acaba não indo fundo em nenhuma. Ou pelo menos, não tão fundo quanto gostaríamos que ele fosse. Ainda mais por ser quase um Simplesmente Amor, com menos histórias, e ainda tendo números musicais, tudo quase se torna artificial.

Mas o elenco é bom, e segura as pontas. Barrymore, como a mocinha ingênua, e Norton, como rapaz apaixonado, estão ótimos, e o terceiro elemento nesse triângulo, que é o ex-prisioneiro de Tim Roth, também é bastante divertido. Alan Alda, nas suas discussões com o personagem de Lukas Haas, está bem à vontade, assim como nas cenas com a ótima Goldie Hawn. Por fim, há ainda Allen, que faz aquele seu papel neurótico. Não exatamente excelente, mas não exatamente ruim.

Na direção, porém, ele se garante. Tanto na coordenação dos atores, quanto nas cenas musicais, muito bem coreografadas. Vale ressaltar que uma boa parte do elenco jamais tinha cantado ou dançado na tela, e Woody faz com que, mesmo estreando nesse aspecto, eles fiquem bem. O diretor ainda capta muito bem o espírito de Paris e Viena. Em Nova York...Bem, acho que nem preciso mencionar que ele traz sua cidade de uma maneira interessante, mais uma vez.

Todos Dizem Eu Te Amo é uma comédia/musical, que brinca por várias vezes com o amor e com os relacionamentos, mas que falha em conquistar o espectador totalmente, fazendo com que ele realmente não se preocupe com os destinos dos personagens. E o amor, o sentimento que deveria ser trazido junto pra que ficasse evidente, acaba até fazendo isso, mas de uma maneira mais fraca, menos marcante. No final, o que temos é um filme decente - a não ser que você realmente odeie quando o personagem comece a cantar sem razão aparente.




Cotação: 60/100

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