Cine Estranho
Saturday, March 27, 2004
 
Tipo. Assim. Essa semana tá bem agitada. Provavelmente não vou conseguir postar, nem ver filme algum. Mas o blog ainda tá vivo. Não se sintam intimidados se quiserem comentar algum post mais de lá de baixo, eu olho todos os posts quando abro isso aqui, pra ver se tem comentário novo. Enfim.

Até daqui a alguns dias...!
 
Amadeus(1984)


Dirigido por: Milos Forman
Com: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice, Jeffrey Jones, Charles Kay
Indicado a: 6 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Drama*, Melhor Ator Coadjuvante para Jeffrey Jones, Melhor Ator de Drama para Tom Hulce, Melhor Ator de Drama para F. Murray Abraham*, Melhor Diretor para Milos Forman*, Melhor Roteiro para Peter Shaffer*), 11 Oscars(Melhor Filme*, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Maquiagem*, Melhor Direção de Arte*, Melhor Figurino*, Melhor Som*, Melhor Ator para Tom Hulce, Melhor Ator para F. Murray Abraham*, Melhor Diretor para Milos Forman*, Melhor Roteiro Adaptado para Peter Shaffer*)

A mediocridade é a pior coisa do mundo: saber que somos medianos em algo. E só. Não somos gênios, nem excelentes, nem coisa alguma. Dá pro gasto, numa linguagem mais popular. Essa linha, que separa a divindade do homem que não é ruim mas também não é bom, é visível pra qualquer um. E é, ao mesmo tempo, a mais cruel das linhas divisórias. Por que existem pessoas que praticam basquete 24 horas por dia, amam o esporte como nada mais na vida, mas não jogam tão bem quanto o Michael Jordan? Assim são as coisas: o talento é algo com o qual algumas pessoas nascem, outras não.

Amadeus é um filme sobre essas coisas: mediocridade e genialidade, pessoas esforçadas e pessoas naturalmente talentosas. Quem nos narra essa história é Antonio Salieri (F. Murray Abraham), compositor do Imperador austríaco (Jeffrey Jones) que, já no final da vida, afirma ter matado o maior músico que ele havia conhecido: Wolfgang Amadeus Mozart (Tom Hulce). Salieri era tudo que Mozart não era: rico, favorecido pelo Imperador, reconhecido. E medíocre. Por isso, invejava o jovem. Por que Deus escolhera como sua forma de falar com o mundo aquela criança obscena, ridícula, arrogante? Por que não ele, Salieri, uma pessoa esforçada, que implorara ao Senhor para que lhe fizesse Seu instrumento?

F. Murray Abraham nos presenteia com uma das maiores atuações já registradas. Com um personagem extremamente complicado e ambíguo, que sabia reconhecer o talento divino de Mozart mas justamente por isso invejava-o, ele se adapta perfeitamente no papel de homem amargo. Ele admira e odeia o rival. Faz de tudo para que ele tenha poucas apresentações, mas comparece em segredo a todas. Abraham apenas com o olhar para o padre com o qual Salieri se confessa traduz tudo isso.

Aliás, o elenco é excelente: apesar de Tom Hulce ter perdido o Oscar e o Golden Globe para Abraham, seu Mozart é exagerado, infantil, deliciosamente pervertido. Aquela risada que atormentou Salieri depois de sua morte, ah, aquilo foi muito bem criado, um símbolo da alma do compositor. Elizabeth Berridge, como Constanze, a esposa de Wolfgang, também está digna de elogios. Jeffrey Jones, como o "Imperador musical", um sábio imbecil, também se garante. A direção de atores de Milos Forman sempre foi formidável.

Forman, aliás, nos entrega uma direção ótima, com cenas e mais cenas de óperas muitíssimo bem conduzidas. Peter Shaffer, o autor da peça de teatro Amadeus, que também a roteirizou para o cinema, ajuda nesse aspecto, dando ao diretor uma história incrível pra ser contada. Forman é muito bom em retratar personagens reais, fazendo cinebiografias. Mesmo com a romantização da história de Salieri e Mozart, há alma, há vida na trama, sem exageros bobos. A música, ah, a música. Assistir esse filme sem falas, num cinema, somente com a trilha sonora, deve ser uma experiência memorável - há essa opção no DVD, mas pena que só lá.

Me aproximando do fim dessa crítica (humilde e mal escrita, sempre é bom lembrar, Amadeus merecia mais), vejo que vou ter que dar uma nota de obra-prima ao filme. Na verdade, até tem lá seus defeitos. Não gostei da maquiagem que envelheceu Abraham, por exemplo. Mas não vou ser como Salieri e o Imperador, que disseram que Mozart usava "notas demais", somente pra apontar falhas, em lugares onde elas não existem.

Enfim, só gostaria de relembrar a parte que, na minha opinião, dá um ótimo resumo do filme e representa-o perfeitamente: quando Wolfgang já está doente, abatido pelo fantasma do passado trazido à vida por Salieri, e compõe sua Missa das Almas. Numa cena fenomenal, Hulce, suando na cama, vai ditando a Abraham o que escrever, num ritmo rápido, frenético. Antonio se espanta com aquilo, e finalmente verifica: ao não conseguir acompanhar, ele estava muito abaixo da genialidade.




Cotação: 91/100
Friday, March 26, 2004
 
Rain Man(1988)


Dirigido por: Barry Levinson
Com: Dustin Hoffman, Tom Cruise, Valeria Golino, Jerry Molden, John M. Murdock, Michael D. Roberts, Ralph Seymour, Lucinda Jenney, Bonnie Hunt, Kim Robillard
Indicado a: 4 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Drama*, Melhor Ator de Drama para Dustin Hoffman*, Melhor Diretor para Barry Levinson, Melhor Roteiro para Ronald Bass e Barry Morrow), 8 Oscars(Melhor Filme*, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Ator para Dustin Hoffman*, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora para Hans Zimmer, Melhor Roteiro Original para Ronald Bass e Barry Morrow*, Melhor Diretor para Barry Levinson*)

"Well, she was just seventeen/You know what I mean/And the way she looked/Was way beyond compare/So how could I dance with another/Oh, when I saw her standing there"
(The Beatles - I Saw Her Standing There)

85% das iscas para o Oscar cumprem seus objetivos e são premiadas. Dessas, apenas 40% são bons filmes. Rain Man é um deles. Não sei se merecia um Oscar de fato, nem considero um dos melhores filmes já feitos. Mas não é ruim e foi produzido com cuidado. Quem dera todos as iscas fossem assim.

Charlie Babbitt (Tom Cruise) é um cara um tanto amargurado e fechado. Enquanto o filme vai rolando, percebemos que é a ausência do amor do pai na infância que o fez assim - ele inclusive fugiu de casa aos 16. Quando seu progenitor morre, Charlie só vai ouvir a leitura do testamento por um motivo: dinheiro. Ao descobrir que só recebeu o carro que causou o desentendimento que levou à sua fuga na juventude e algumas rosas, ele vai atrás de quem de fato herdou dinheiro (3 milhões de dólares, nada mau) de seu pai. Essa pessoa é ninguém menos que o irmão que ele nunca conheceu: Raymond Babbitt (Dustin Hoffman), um autista sábio, ou qualquer coisa assim, com grande inteligência para certas coisas, e uma grande memória. Charlie rapta-o, a fim de conseguir os tais 3 milhões.

Normalmente, os filmes em que um ator representa algum personagem com doença física ou mental são bobos demais, apelando até pra curas milagrosas e redenções de vidas perdidas. Em Rain Man não se vê isso: o desenvolvimento da personalidade antes mesquinha de Charlie é lento e verossímil. Aliás, fiquei surpreso em ver que Tom Cruise dá uma atuação acima do regular de sempre. Talvez seja ele o melhor ator da película.

Não que Dustin Hoffman esteja ruim. Ele faz o típico papel de deficiente, o que impede uma atuação mais baseada no que quem representa realmente está sentido, acredito eu. O fato de Hoffman ter de decorar frases e números, pra ilustrar a boa memória de Raymond, e de ter de agir como não age normalmente, bloqueia um pouco a liberdade do ator, e exige alguns vícios nos gestos. Mas a química entre Hoffman e Cruise está ótima, e de uma hora pra outra pode-se passar a considerar, sem ressalvas, que pessoas tão fisicamente diferentes como Charlie e Raymond são de fato irmãos.

O autismo funciona muito bem no contexto do filme. Levinson achou um senso de humor fácil e sem grosserias pra explorar a doença, e a interação entre Charlie e o irmão. O roteiro de Ronald Bass e Barry Morrow à primeira vista pode parecer previsível, aquele tipo de filme de viagens pela estrada, mas incrivelmente em Rain Man a coisa parece fresca, nova - talvez porque eles não caíram no clichê, algo que seria tão simples de se fazer com uma história de deficiência e irmãos nunca apresentados.

Por fim, Rain Man flui bem porque tem como um dos protagonistas alguém que não pode evoluir emocionalmente (embora esse tipo de coisa seja possível em Hollywood). No entanto, Raymond nunca deixa de ser simpático, talvez pelo carisma de Dustin Hoffman, sua habilidade de dizer uma frase como "estou sem cueca" da maneira mais singela possível, dando ao que poderia ter sido um dramalhão momentos cômicos envolvendo um autista, algo que soaria rude em outras leituras. Já a evolução de Charlie é bem vagarosa, e no final nem se vê grandes diferenças entre sua personalidade no início e a mesma no final. Mas se sabe que aquele é um homem mudado. Méritos de Barry Levinson, dos roteiristas e - por que não? - de Tom Cruise.




Cotação: 70/100
Thursday, March 25, 2004
 
Casamento Grego(My Big Fat Greek Wedding, 2002)


Dirigido por: Joel Zwick
Com: Nia Vardalos, Louis Mandylor, Gia Carides, John Corbett, Joey Fatone, Andrea Martin, Lainie Kazan, Bruce Gray, Michael Constantine
Indicado a: 2 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Comédia, Melhor Atriz de Comédia para Nia Vardalos), 1 Oscar(Melhor Roteiro Original para Nia Vardalos)

Todo ano surge um filme americano, meio pequeno, que arranca elogios da crítica, sabe-se lá porquê. Filmes que não são Blockbusters e que, aparentemente, são louvados somente por isso. Ou então, vê-se qualidades inexistentes neles só por isso, vai saber. O fato é que Casamento Grego se encaixa perfeitamente nessa categoria. Escrito pela engraçada Nia Vardalos, que também atua nele, esse filme acaba se saindo só como um sitcom mais longo e sem graça.

Toula (Nia Vardalos) é uma mulher de família grega (doh!) que, aos 30 anos, feia e ainda vivendo com os pais, se apaixona por Ian (John Corbett), assim como ele por ela, o que logo resulta em noivado. Porém, garotas gregas devem se casar com garotos gregos, e Ian não poderia ser mais americano. Assim começam os conflitos entre Toula e a própria família, especialmente entre ela e seu pai Gus (Michael Constantine). Ela se sente envergonhada de ter uma família que fala tão alto e é tão calorosa, e ele acha uma desonra sua filha estar pra se casar com um "xeno", um não-grego.

Vardalos parece desesperada em tentar fazer rir com seu filme, inserindo várias piadas bobas, previsíveis, e sem muito timing. O que dizer daquela vovó que veio direto da Grécia e implora pra ser engraçada e simpática? Enfim, quem dera fosse só isso. Ela poderia até vir a se tornar uma grande roteirista, mas nessa película as coisas não funcionam: Nia tenta de todas as maneiras estereotipar os personagens, meio que pra agradar aos "xenos" que assistiriam o filme, ao mesmo tempo em que coloca tudo que tinha pra dizer sobre a Grécia num roteiro só, exorcisando alguns traumas de infância. Infelizmente, a "autobiografia" não se sai nada bem.

Irrita também o processo de embelezamento que Toula sofre: no começo do filme, ela está mais estranha que esse blog. É só passar a freqüentar a faculdade que...bom, ela não vira grande coisa, mas melhora muito. A maquiagem foi usada em excesso no início. Já Ian, o americano, está simplesmente superficial, disposto a fazer tudo pela mulher que conheceu a poucos meses. Desse jeito, já dá até pra saber como o casamento vai terminar: Casamento Grego 2 - My Big Fat Greek Divorce.

Por fim, o que realmente não funciona em Casamento Grego são os estereótipos étnicos. A maioria dos personagens (isso é, todo mundo menos Toula, Ian e Gus) está lá só pra estar. Sem desenvolvimento algum, só pra contrastar, pra mostrar que americanos são americanos, gregos são gregos. Isso até poderia funcionar, não fosse a trama central mais uma dessas comédias românticas açucaradas e um pouco exageradas, que por aí existem aos montes. Essa aqui tem até um carinha do NSync.




Cotação: 41/100


Tuesday, March 23, 2004
 
O Último Imperador(The Last Emperor, 1987)


Dirigido por: Bernardo Bertolucci
Com: John Lone, Joan Chen, Peter O'Toole, Ruocheng Ying, Vivian Wu, Richard Vuu, Tsou Tijger
Indicado a: 5 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Drama*, Melhor Ator em Drama para John Lone, Melhor Roteiro para Mark Peploe e Bernardo Bertolucci*, Melhor Trilha Sonora para Ryuichi Sakamoto, David Byrne e Cong Su*, Melhor Diretor para Bernardo Bertolucci*), 9 Oscars(Melhor Filme*, Melhor Direção de Arte*, Melhor Fotografia*, Melhor Figurino*, Melhor Montagem*, Melhor Trilha Sonora para Ryuichi Sakamoto, David Byrne e Cong Su*, Melhor Som*, Melhor Diretor para Bernardo Bertolucci*, Melhor Roteiro Adaptado para Mark Peploe e Bernardo Bertolucci*)

Filmes feitos por ocidentais sobre o Oriente são incrivelmente parecidos uns com os outros. Seja no roteiro tentando soar profundo e/ou envolvendo algum ocidental branco e de olhos claros, seja nas tomadas clichê filmando multidões vistas de cima, o espetáculo acaba sempre se mostrando um grande deja-vu. Aclamado pela crítica, O Último Imperador não foge à regra.

Baseado na autobiografia de Pu Yi, o imperador que foi pego de surpresa pela formação de uma república na China, em 1912, o filme de Bertolucci é incrivelmente belo no visual. Todos os Oscars técnicos foram merecidos, isso é inegável. Mas normalmente os grandes filmes de Hollywood nunca vacilam nessa área mesmo.

O filme se passa através das memórias de Pu Yi (interpretado por vários atores em idades diferentes: Richard Vuu aos 3, Tsou Tijger aos 8, John Lone adulto), que está numa prisão comunista. Tendo 3 anos quando se sentou pela primeira vez no trono e 7 quando abdicou, o garoto cresceu praticamente preso dentro da chamada Cidade Proibida. Evoluindo sem muito senso de realidade, ele só pôde sair de lá aos 18. Toda sua vida é narrada: o casamento, a expulsão dos eunucos da Cidade Proibida, a fase em que ele era um pseudo-imperador, fantoche nas mãos do governo japonês.

Não se preocupe se você se encontrar completamente perdido na trama, porque o roteiro realmente não faz muita questão de nos situar. Pra quem não é expert em história chinesa moderna, muitas vezes a sensação de "hã? O quê?" pode surgir. E isso é sim um defeito terrível do filme. Não o pior, nem de longe o maior, mas é.

Bertolucci é bem conservador na direção: apesar de captar o espírito da Cidade Proibida terrivelmente bem (me parece que ele foi o primeiro ocidental a filmar no lugar. Convenhamos que usar uma locação real é sempre melhor), ele nunca arrisca, nunca vai além do convencional. Talvez isso tenha lhe rendido o Oscar, mas a que preço? Somos obrigados a ver um filme que tinha um grande potencial cair em lugar comum, se tornando maçante em um bom número de vezes.

As atuações estão fracas. Mesmo o ótimo Peter O'Toole parece errado naquele papel de instrutor. Ele se encaixa perfeitamente na categoria "ocidental de pele branca e olhos claros que entra na história para mudar a vida do personagem oriental". Joan Chen como imperatriz tinha tudo para emocionar numa história paralela, em uma personagem que acaba se entregando ao ópio, corrompida por uma espiã japonesa. Mas o máximo que sentimos é uma pequena pena. Por fim, John Lone como Pu Yi está somente chato; talvez tenha sido o vazio que foi a vida de Pu Yi que proporcionou isso. Depois que deixa a Cidade Proibida, o ex-imperador acaba não fazendo nada de muito envolvente. O começo do filme acaba se destacando por ser muito melhor que todo o resto.

Aliás, o filme em geral não envolve. Não é ruim, é belo visualmente, é dirigido com competência (porém com o mínimo de criatividade). Mas não passa disso. No fim, mal amado e decadente, Pu Yi lembra Michael Corleone. Mas sem me dar a mínima vontade de chorar. E sem carisma. Isso é tudo num personagem. Num filme longo assim, acompanhar uma história que não interessa tanto não é lá muito agradável.




Cotação: 46/100

Sunday, March 21, 2004
 
Edward, Mãos de Tesoura(Edward Scissorhands, 1990)


Dirigido por: Tim Burton
Com: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Kathy Baker, Vincent Price, Alan Arkin, Robert Oliveri, Conchata Ferrell, Caroline Aaron
Indicado a: 1 Golden Globe Award(Melhor Ator de Comédia para Johnny Depp), 1 Oscar(Melhor Maquiagem)

Há um episódio da série Seinfeld onde um barbeiro chamado Enzo e seu sobrinho chamado Gino, que também é barbeiro, ambos ítalo-americanos, discutem sobre Edward, Mãos de Tesoura. "O que você vai fazer no banheiro, hã? Com duas mãos de tesoura, me diga, o que você vai fazer no banheiro?", diz Enzo. Mais tarde, o tio aluga o VHS e acaba indo se desculpar com Gino: (perdoem meu inglês agora, mas é que preciso reproduzir a fala dele do jeito mais próximo que conseguir) "Thato Johnny Deppo...he making me cry, hã" (não se assustem, eu sei falar inglês. O cara é que fala tudo errado, por conta do sotaque. Enfim, pra quem sabe menos de inglês que Enzo, ele diz algo como "Aquele Johnny Depp...me fez chorar").

Edward, Mãos de Tesoura é sim um filme de derreter corações, como o do insensato barbeiro citado. É uma espécie rara. É a versão de Tim Burton de como surgiu a neve. Isso leva a crer que seja uma fábula. Sim, de fato, é uma fábula doce e incansável, uma que poderia ser contada toda noite pra uma criança quando se está tentando fazer ela dormir. Mas é mais, mais que isso. É um filme intimista, uma janela que dá pra algum lugar entre a alma do diretor e a nossa própria. "Uau, olha só como esse cara é imbecil, morrendo de elogiar um filme 100% Sessão da Tarde". O que eu acho que tô fazendo é não esconder que gosto mesmo.

Edward (Johnny Depp) é uma criatura não acabada. O seu inventor (Vincent Price) morreu antes de lhe dar as mãos que havia prometido, e tudo que Edward tem substituindo-as são tesouras. Ele fica isolado do mundo, em seu castelo, até que um dia, Peg (Dianne Wiest), uma representante da Avon, resolve entrar naquele lugar, tentando vender cosméticos. Comovida pela simplicidade e solidão de Edward, ela resolve acolhê-lo, levando-o pra conviver com sua família.

A interpretação de Depp é singela, aquela tristeza disfarçada, o ar nostálgico, a paixão controlada por Kim (Winona Ryder), filha de Peg. Aliás, seu Edward é um show à parte, especialmente com a identificação que ele vai desenvolvendo conosco, espectadores. Não é de surpreender que o ator tenha vindo participar mais tarde de outros filmes do mesmo diretor. A parceria deu certo. Dianne Wiest, interpretando praticamente uma mãe adotiva, nos gestos amorosos e nos perdões, também está muito bem. Acho que sempre admirei a direção de atores de Burton, sei lá.

Falando nisso, o toque do diretor está em todo lugar. No subúrbio em cores pastéis, que combinam com as roupas e carros dos seus habitantes, no castelo que parece aterrorizante, nas metáforas, Tim Burton abre uma porta pra um outro mundo, muito peculiar. Isso é algo que ele sabe fazer muito bem. E, nesse caso em particular, ele faz com bom humor, o que torna a história ainda melhor. A trilha sonora de Danny Elfman, outra figura recorrente nos filmes de Tim, só ajuda.

O maior erro do filme é Anthony Michael Hall, no papel de Jim, namorado de Kim. Nem o romance atrapalha tanto. Estereotipado e com um final um pouco pesado demais pra esse tipo de filme, Michael Hall ainda acaba representando de uma maneira fraca, e uma história dessas merecia um vilão melhor.

Criticando também a vida dos fofoqueiros suburbanos, Edward nunca foge do seu objetivo: ser uma parábola sobre preconceito, sobre buscar nosso lugar no mundo e sobre aceitação. Tesouras no lugar de mãos. Dá pra sacar logo de cara, não é? Às vezes, alguém faz uma coisa errada, querendo fazer uma coisa certa, mas acaba não realizando-a de maneira correta, e causa algum mal por isso. Como não se identificar com um personagem assim?




Cotação: 76/100
 
Dr. Fantástico(Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964)


Dirigido por: Stanley Kubrick
Com: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Slim Pickens, Peter Bull, Tracy Reed
Indicado a: 4 Oscars(Melhor Filme, Melhor Ator para Peter Sellers, Melhor Roteiro Adaptado para Stanley Kubrick, Peter George e Terry Southern, Melhor Diretor para Stanley Kubrick)

Parece até pretensão querer comentar um filme de Stanley Kubrick. E deve ser. Deve ser heresia, sei lá. Mas Dr. Fantástico é fantástico (ops!) demais pra eu me segurar e não dar minha humilde opinião. Como disse um cara lá no RottenTomatoes: "veja o filme, por favor, antes que o mundo acabe". É, é um filme desse tipo mesmo.

Considerada uma "comédia de humor negro", a película, passada nos tempos da Guerra Fria, conta a história de um General paranóico chamado Jack D. Ripper (Sterling Hayden), que se baseando numa teoria insana de que os soviéticos estavam contaminando os "fluidos corporais" da América, resolve que irá atacar com armas nucleares a URSS. Essa ordem só poderia ser cancelada por um código que apenas Ripper conhecia. Trancado no seu escritório na base com o Capitão Lionel Mandrake (Peter Sellers), ele se isola, evitando que qualquer um tente fazer contato e acabe arrancando o código dele.

O presidente dos EUA (Peter Sellers novamente) é chamado para um Conselho de Guerra pelo General Turgidson (George C. Scott), uma espécie de Colin Powell daquela época, que está encarregado de lhe passar as notícias. Tal Conselho acaba se tornando uma confusão só, seja pelas brigas de Turgidson com o embaixador russo Sadesky (Peter Bull), seja pelas conversas do presidente americano com um embriagado governante soviético, seja pela presença estranha do Dr. Fantástico (Peter Sellers pela terceira vez), um ex-cientista nazista que agora trabalha para o governo dos Estados Unidos. A situação piora ainda mais quando se descobre que a União Soviética possui a máquina do Juízo Final, que se ativaria sozinha em caso de conflito e acabaria com toda vida na Terra.

O roteiro de Kubrick é tão bem amarrado que realmente não vemos saída, o mundo estará perdido por causa da maluquice do General Ripper. Com uma situação tão bizarramente complexa para o presidente resolver, realmente não tinha como acabar sendo uma comédia. Acaba ainda servindo de crítica ácida ao medíocre mundo dos políticos e suas "pseudo-guerras", como diria Michael Moore. A coisa vai caminhando pro humor naturalmente, com diálogos irônicos, como quando o presidente grita com Turgidson e Sadesky: "vocês não podem brigar aqui! Isto é uma Sala de Guerra!". Sem contar o slogan do exército norte-americano, que a câmera faz questão de focalizar: "paz é a nossa profissão". É uma idéia indescritível de humor negro que, 40 anos depois, ainda soa atual. Preciso citar nomes de importantes líderes mundiais que se encaixariam perfeitamente? Acho que não.

Kubrick cutuca sutilmente os "Texas white trash", usando-se da grande atuação de Slim Pickens como o Major Kong, ao mesmo tempo em que Peter Sellers se mostra um gênio cômico. Há aqueles atores que adoram se repetir. Em alguns casos, isso é ruim, em outros, é excelente. Sellers, no entanto, atua de maneira em que mal se pode notar que aquela é a mesma pessoa, fazendo três personagens-chave da trama. Em nada um personagem lembra o outro. Espantoso. George C. Scott é o típico militar cabeça-dura, 100% anti-comunista. Outra belíssima representação, talvez a mais hilariante, por ser o seu personagem tão histérico e sem muito controle das emoções. Ele chega a rolar no chão, em determinado momento.

Mudando de cenário toda hora (destaque para a bela Sala de Guerra, triangular, intimidante), Dr. Fantástico é um filme que consegue retratar de uma maneira praticamente perfeita o quão estranha é uma guerra. O quão louco ela pode levar alguém a ficar. E o quão errada era a política da Guerra Fria, que ainda se reflete hoje nas políticas externas das grandes potências. Mesmo assim, o filme foi aclamado pela crítica nos Estados Unidos. Coisas de Kubrick.




Cotação: 86/100
Saturday, March 20, 2004
 
O Piano(The Piano, 1993)


Dirigido por: Jane Campion
Com: Holly Hunter, Anna Paquin, Harvey Keitel, Sam Neill, Kerry Walker
Indicado a: Palma de Ouro em Cannes*, 6 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Drama, Melhor Atriz de Drama para Holly Hunter*, Melhor Atriz Coadjuvante para Anna Paquin, Melhor Direção para Jane Campion, Melhor Roteiro para Jane Campion, Melhor Trilha Sonora para Michael Nyman), 8 Oscars(Melhor Filme, Melhor Atriz para Holly Hunter*, Melhor Atriz Coadjuvante para Anna Paquin*, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Direção para Jane Campion, Melhor Roteiro Original para Jane Campion*, Melhor Edição)

Filmes envolvendo pianos sempre parecem sempre querer passar uma imagem de bonito, profundo, inesquecível. Considero o piano, na verdade, o instrumento mais romântico, de som mais belo, o mais poético dentre todos. Então, acho que deixo esses filmes passarem através de mim, e se tornarem o que eles parecem querer se tornar.

Ada (Holly Hunter) é muda desde os seis anos de idade. Ela e a filha Flora (Anna Paquin) se mudam para a Nova Zelândia, onde Ada se casaria com Stewart (Sam Neill) para iniciar uma nova vida. Mas quando ele se livra do piano, que é o meio pelo qual a moça escolhe se comunicar com o mundo, ela tenta recuperá-lo num acordo com Baines (Harvey Keitel), o analfabeto que recebeu o instrumento, que começaria na forma de simples aulas de música. Até que vemos que não é exatamente em tocar que Baines está interessado...

Ok, o filme, escrito e dirigido por Jane Campion, é daqueles que nascem para fazer atores brilhar. No caso, atrizes. Holly Hunter, sem dizer absolutamente nada durante o filme todo ainda assim está ótima, a melhor coisa do filme. Numa personagem temperamental e sensível, ela usa somente os olhares e os gestos para construir uma imagem impressionante. Anna Paquin, na época com apenas 11 anos, também convence. Não dá pra dizer que ela ganhou o Oscar só por ser criança, embora alguns votantes na Academia possam ter sido influenciados pela sua idade. Mas ela está também muito boa, numa química decente com Hunter, servindo de tradutora de sua mãe no filme. Carregando ainda um sotaque um pouco afetado, a menina se sai surpreendentemente bem. Por outro lado, o roteiro dá uma visão meio estereotipada, de uma só dimensão, dos personagens masculinos, o que impede Keitel e Neill de ter atuações tão inspiradas quanto às de suas colegas.

O Piano fala de comunicação. A esposa não pode falar. O novo marido não tenta ouvir. Os Maori e os britânicos não conseguem se entender. Há a contradição de idéias, a mudez e a música. E assim, captando de maneira lenta aquele clima chuvoso de um lugar isolado do mundo, Campion faz desse seu filme algo que muitas vezes soa poderoso. Perturbador, talvez.

Com uma bela trilha sonora, um tema de piano singelo (me parece que a própria Holly Hunter tocava o instrumento, o que certamente facilitou a filmagem), a bela fotografia de Stuart Dryburgh, que nos leva instantaneamente à Nova Zelândia do século XIX, um final ambíguo e o toque feminino de Jane na direção, O Piano é um filme que envelheceu muito bem, obrigado.

Ou talvez eu seja só um sentimental. Argh.




Cotação: 73/100
Friday, March 19, 2004
 
Minha Amada Imortal(Immortal Beloved, 1994)


Dirigido por: Bernard Rose
Com: Gary Oldman, Jeroen Krabbe, Isabella Rossellini, Johanna Ter Steege, Valeria Golino, Marco Hofschneider

"Meu anjo, meu tudo, minha outra metade...Minha Amada Imortal." Beethoven deixaria tudo para ela, no que seria o seu testamento. O problema é que o compositor teria morrido solitário, sendo seu irmão e sua cunhada as únicas pessoas que cuidavam dele em seus últimos dias. Quem seria então a Amada Imortal? Anton Schindler (Jeroen Krabbe), amigo do Maestro enquanto este estava vivo, se propõe então a investigar, por acreditar que acharia não só a mulher a quem Beethoven dedicava tudo, mas também uma boa parte da história de sua vida que ele não conhecia. Sua única pista é uma assinatura ilegível num hotel.

O diretor e roteirista Bernard Rose se utiliza de basicamente duas coisas nesse filme: liberdade para criar fatos que não teriam realmente acontecido na vida desse compositor e um estilo de narrativa parecido com o de Orson Welles em Cidadão Kane. Ou seja, através das memórias das pessoas é que vamos descobrindo quem foi aquele personagem. O velho Ludwig Van, no caso.

Beethoven, no filme, é o Mick Jagger de sua época. Sua música é excitante, os pais têm de controlar suas jovens filhas. A atuação de Gary Oldman, que viverá Sirius Black no próximo filme do Harry Potter, é cheia de maneirismos, ele leva cada suposta mania de Ludwig ao extremo. Não acho que se saia mal, apesar disso. O problema é ele não estar carismático o suficiente para o espectador desenvolver uma simpatia com o personagem. O roteiro de Rose mantém Beethoven à distância, e assim fica difícil gostar de alguém perturbado e que grita com todos que o cercam. Já Jeroen Krabbe está simplesmente ruim, e é visível que a presença de Oldman faz falta nos momentos onde Schindler é quem está em destaque. Há um vazio, nem que seja a falta de um personagem odiável.

A direção de arte é agradável e a cidade de Praga, onde a película foi rodada, é linda. Mas o filme acaba se romantizando demais. A preocupação maior, arrisco dizer, é sim com o sentimentalismo um tanto exagerado, mais do que em tentar ser um retrato fiel da vida de Ludwig Van. Nem por isso é ruim, mas não consegue ir além de ser divertido, apenas.

O ponto mais alto, na verdade, é a trilha sonora. O que não é absurdo, de forma alguma. As composições de Beethoven estão muitíssimo bem executadas, e a empolgação com o filme cresce em cenas como quando o compositor toca a Sonata Ao Luar com o ouvido encostado no piano (obviamente, devido à surdez) e quando ele coloca o sobrinho no colo e nos brinda com Für Elise. Sem mencionar uma cena que sozinha valeria todos os defeitos do filme: a execução da Nona Sinfonia. Memorável, e que faz com que alguém como eu releve a maioria das falhas da obra.




Cotação: 58/100
Thursday, March 18, 2004
 
Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas(Big Fish, 2003)


Dirigido por: Tim Burton
Com: Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Alison Lohman, Marion Cotillard, Helena Bonham Carter, Robert Guillaume, Steve Buscemi, Matthew McGrory, Danny DeVito, Loudon Wainwright
Indicado a: 4 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Comédia, Melhor Ator Coadjuvante para Albert Finney, Melhor Trilha Sonora para Danny Elfman, Melhor Canção Original para Eddie Vedder com "Man Of The Hour"), 1 Oscar(Melhor Trilha Sonora para Danny Elfman)

Digam o que disserem, Tim Burton é sim um diretor extremamente competente. E extremamente injustiçado. Costumo considerar como pessoas de Hollywood que são reconhecidas pela própria Hollywood os ganhadores de Oscar e dos Golden Globe. Burton nunca venceu nenhum desses(na verdade, só foi indicado ao Golden Globe uma única vez, por Ed Wood, em 1994. Na Academia, ninguém sabe nem quem é esse tal de Burton). Qual a razão disso? Estava pensando no assunto antes de começar a escrever. Seria pelo fato do diretor dar um toque bizarro em praticamente todos os seus filmes? Seria pelo fato de adorar uma história metade maluca, metade fantasiosa? Seja como for, Burton é Edward Bloom. E Hollywood é Will Bloom.

Não que este seja um filme intimista. Pelo contrário, tanto é que o roteirista é John August, que escreveu As Panteras: Detonando e já está roteirizando o remake de A Fantástica Fábrica de Chocolates, que também será dirigido por Tim Burton. Mas o fato é que, pra mim, foi difícil não associar Edward Bloom ao diretor. É visível o carinho que envolveu o projeto.

Em Peixe Grande, Will Bloom(Billy Crudup)é um homem que decidiu parar de falar com o pai Edward(Albert Finney quando velho, Ewan McGregor quando jovem - aliás, quantos Edwards na filmografia Burtoniana, não?), justamente por não acreditar nas histórias que cresceu ouvindo dele. Nelas, coisas estranhas aconteciam: seus ossos cresciam demais, gigantes apareciam na cidade, peixes eram pescados com alianças. Mas nada disso era relatado por Edward somente a seu filho, como simples contos para criança. Não, ele jurava que esses acontecimentos eram reais. Quando vê o pai doente, Will se sente na obrigação de descobrir a versão real dos fatos da vida de seu progenitor. E a partir daí, revisitamos as supostas mentiras ditas entre os Bloom.

Estas, aliás, são vistas por meio de uma fotografia belíssima. Há cores, há vida, contrastando muito bem com o mundo "real" do filme, mais cinzento e escurecido. Até o rosto de Sandra Templeton(Alison Lohman, no caso, mas também interpretada mais velha por Jessica Lange)parece ter um brilho especial, simbolizando a aura daquele ser tão amado por Edward, a mulher por quem ele trabalharia durante meses recebendo como pagamento apenas informações rasas de sua personalidade. Quando ele a vê pela primeira vez, o tempo pára - literalmente. Essa é, inclusive, a tomada mais fantástica das duas horas de filme.

Quanto às atuações, discordo do que foi dito por aí: a maioria do elenco está muito bem. Ewan McGregor tem um sorriso que convence como um personagem capaz de dialogar com trogloditas. Albert Finney representa muito bem um homem com limitações físicas que o deixam irriquieto. E, particularmente, achei Steve Buscemi como Norther Winslow algo que merece certo destaque, porque, em suas poucas cenas, ele rouba-as, todas.

Burton, no entanto, acaba cometendo um erro terrível, ao tentar puxar pra realidade as histórias de Edward, mais de uma vez. Como se quisesse provar, por A+B, que ele não era um mentiroso. Era necessário? É algo parecido com o que diz o médico a Will: se há uma versão real mas entediante dos fatos, e uma versão mais fantasiosa porém empolgante, por que iríamos preferir a primeira? E aí mora o erro, que compromete, sim, o enredo. Tim Burton quer gritar que era tudo verdade; depois do que vi no filme, a única conclusão a que cheguei era de que, no fundo, isso não importava.




Cotação: 69/100
Tuesday, March 16, 2004
 
Quatro Casamentos e Um Funeral(Four Weddings And A Funeral, 1994)


Dirigido por: Mike Newell
Com: Hugh Grant, Andie MacDowell, Kristin Scott Thomas, Simon Callow, James Fleet, Rowan Atkinson, John Hannah, Charlotte Coleman, David Bower
Indicado a: 4 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Comédia, Melhor Ator de Comédia para Hugh Grant*, Melhor Atriz de Comédia para Andie MacDowell, Melhor Roteiro para Richard Curtis), 2 Oscars(Melhor Filme, Melhor Roteiro Original para Richard Curtis)

Estranho, segundo filme comentado aqui e é outra comédia romântica. Vão achar que sou fã do estilo. Bem, vamos combinar que é notável como os ingleses são bons nesse tipo de cinema. Das poucas comédias românticas que prestam, 90% vem deste lugar da Europa, onde vivem pessoas de sotaque charmoso. Mesmo usando-se dos mesmos clichês que fazem as pessoas olharem torto pra esse tipo de filme quando é americano, eles sempre têm uma carta na manga, algo diferente, que parece dar um sabor fresco ao filme. Como em Um Lugar Chamado Notting Hill, com aquele tal amigo esquisitão do personagem do Hugh Grant.

Pois bem, em Quatro Casamentos e Um Funeral, os clichês são mais sutis do que em Notting Hill, mas ainda estão lá. Alguns dizem ser melhor que o recente Simplesmente Amor, também do roteirista/diretor Richard Curtis, mas eu acabei não enxergando o que essas pessoas viram. De qualquer jeito, há de se reconhecer que Curtis tem uma habilidade incrível com diálogos e situações inusitadas - que, aliás, são os elementos-chave para uma boa comédia romântica.

No filme em questão, o que temos é um grupo de amigos atendendo a esses importantes compromissos sociais, os chamados casamentos. E ele retrata sim muito bem a bizarrice em que uma festa dessas pode se transformar. Como não rir, mesmo num lugar sério como uma igreja, de um padrinho que esquece as alianças? Ou de um padre que erra todo o discurso ao casar os noivos(cena sensacional do Mr. Bean Rowan Atkinson, aliás)? Num desses casamentos, Charles(Hugh Grant)acaba encontrando Carrie(Andie MacDowell, que não faz muito meu estilo de beleza, diga-se de passagem). Aos poucos, encontrando-a em outras cerimônias matrimoniais, o solteirão vai se apaixonando...

Hã, já vimos esse filme antes, não? É o que parece, mas aí é que entra o toque britânico, sempre transformando o velho em novo, mesmo que só superficialmente. É o suficiente para um bom tempo de entretenimento. As atuações, no entanto, são só medianas: apesar do Golden Globe para Hugh Grant, aqui vemos ele fazer um papel que veio a se repetir umas trinta vezes na sua carreira, que é o do bonitão, às vezes engraçado, às vezes ingênuo, às vezes gaguejando. Já a trilha sonora nos dá a boa canção do Wet Wet Wet, Love Is All Around, que veio a ser usada novamente, mas de maneira diferente em Simplesmente Amor...

...que acaba se saindo melhor que seu antecessor, Quatro Casamentos, justamente por reciclar os clichês de forma mais satisfatória. Isso não faz desse um filme ruim, mas acaba por dar um gosto de que faltou algo aqui. Não vi, por exemplo, propósito no conflito de Fiona(Kristin Scott Thomas). Aliás, do grupo de amigos, poucos deles acabam sendo desenvolvidos de verdade.

Concluo que, apesar das falhas, é ainda uma boa experiência, principalmente quando se quer fugir da mesmice que é a comédia romântica de Hollywood.




Cotação: 51/100
Monday, March 15, 2004
 
Encontros e Desencontros(Lost In Translation, 2003)


Dirigido por: Sofia Coppola
Com: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris
Indicado a: 5 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Comédia*, Melhor Ator em Comédia para Bill Murray*, Melhor Atriz em Comédia para Scarlett Johansson, Melhor Direção para Sofia Coppola e Melhor Roteiro para Sofia Coppola*), 4 Oscars(Melhor Filme, Melhor Direção para Sofia Coppola, Melhor Ator para Bill Murray, Melhor Roteiro Original para Sofia Coppola*)

A filha do homem que levou às telas a saga dos Corleone acertou em cheio em transformar o que originalmente seria um curta em um longa-metragem. O resultado é um diamante de filme, lapidado cuidadosamente por Sofia Coppola. A melhor comédia romântica, porque o filme não é uma comédia. E também não é romântico.

Bob Harris(Bill Murray)é um ator decadente, numa crise de meia-idade, que se encontra no Japão em função de um contrato que lhe renderia alguns trocados a mais. Puramente, um final de carreira triste. Charlotte(Scarlett Johansson)é só uma garota recém-formada, que mal sabe o que quer fazer da vida e que veio a Tóquio acompanhar o marido, que trabalha demais pra se importar com ela. No meio do neon do Japão, eles se encontram, e aí nasce uma relação no mínimo interessante.

É um filme basicamente de personagens. E o mais legal: personagens que muitas vezes não têm o que dizer. Aí entra o talento da dupla de atores protagonistas, que brilham ainda que calados: Bill Murray e sua cara de "acabei de acordar", sempre parecendo mais chateado do que realmente está, e Scarlett Johansson e seu sorriso doce, sempre parecendo mais alegre do que realmente está. A química entre os dois é tão grande...é algo realista. Realismo, aliás, é um ponto forte no filme. Sofia se inspirou nas suas próprias viagens ao Japão.

Alguns dizem que o filme traz uma visão preconceituosa do Japão. Oras, como não estranhar uma cultura tão diferente da nossa? Não é uma "piada repetida à exaustão", como andei lendo por aí: é simplesmente uma forma de mostrar que pode sim surgir comédia sem preconceitos a partir do choque cultural. Temos aí uma grande diretora surgindo.

Sofia, no seu estilo de filmar, foge do estilo hollywoodiano comum. Ela opta por captar a cidade, com uma câmera um tanto inusitada, simulando viagens de carro e outras coisas do tipo. E ela consegue passar uma coisa muito interessante: Tóquio é praticamente uma personagem do filme. Às vezes intimida, às vezes acolhe, é um grande palco para a fuga que Bob diz estar planejando. Em duas cenas ou mais, vemos Charlotte olhando a cidade pela janela, e aí reside uma bela duma ironia. Num lugar tão grandioso, mostrando o poder econômico e a força que o homem atingiu nos dias de hoje, quem imaginaria que as pessoas que passam por ali ainda têm problemas que soam tão bobos, como crises existenciais?

Vale destacar também a belíssima trilha sonora. A diretora, aliás, parece buscar incessantemente o casamento perfeito entre som e imagem. E, com cenas essenciais pra história, como a do videokê, ela se aproxima do objetivo. Temos Elvis Costello, Sex Pistols, Roxy Music...e um final lindo, lindo, com Just Like Honey do Jesus And Mary Chain.

Por fim, vamos supôr que você assistiu e não gostou. Ok. Mas você consegue imaginar o que Bob disse à Charlotte naquela cena? Consegue? Então você agora faz parte do que está se passando na tela, é um homem numa crise de meia-idade no Japão se despedindo de uma pessoa que marcou sua vida. Só por isso, Coppola já merece todos os méritos.




Cotação: 80/100
 
"Is everybody in? Is everybody in? The ceremony is about to begin..."

Hm, então. Difícil saber o que eu pretendo com esse blog. Quer dizer, a premissa mais simples dele é...simples. Falar de cinema. Filmes, ah, sim, filmes. Mas o que eu, que não entendo nada de cinema, posso falar sobre filmes? Vou tentar ter alguma expressividade. Sei lá. Sou uma pessoa indecisa. Por exemplo, a idéia desse post era fazer um longo texto me apresentando, mas já desisti. Não tô com energia suficiente pra isso.

Enfim, stick around. Podemos trocar algumas figurinhas cinematográficas. Acredito eu, embora não seja lá muito esperto no assunto cinema, justo um assunto que eu gosto tanto. Vou me esforçar, prometo.

Até o próximo post, esse sim, já valendo pra mostrar minha imensa ignorância sobre o assunto(sim, porque sei lá, vai que você pensou que tudo isso era falsa modéstia...).

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