Cine Estranho
Sunday, April 25, 2004
 
Todos Dizem Eu Te Amo(Everyone Says I Love You, 1996)


Dirigido por: Woody Allen
Com: Natasha Lyonne, Edward Norton, Drew Barrymore, Alan Alda, Gaby Hoffmann, Natalie Portman, Goldie Hawn, Julia Roberts, Tim Roth, Billy Crudup, Woody Allen, Lukas Haas
Indicado a: 1 Golden Globe Award(Melhor Filme de Comédia)

Nunca vi muitos musicais na minha vida. Admito que até pouco tempo atrás tinha um certo preconceito contra esse tipo de filme. Achava que odiaria um personagem que começasse a cantar e dançar no meio de uma cena, sem razão aparente. Sem contar que o gênero andava meio morto lá em Hollywood, que é provavelmente o lugar em que mais se produziu filmes musicais na história. Mas, hoje em dia, esse quadro mudou: eu não tenho mais esse preconceito, e os musicais podem não ter a força de antes, mas ainda existem - um até ganhou o Oscar, recentemente.

Woody Allen reuniu um belo elenco neste Todos Dizem Eu Te Amo, com o objetivo de fazer um musical antigo, mas moderno. Isso é, algo que funcionasse como os velhos musicais, mas que se passasse nos dias de hoje. Woody é mestre em criar personagens e situações memoráveis. Portanto, partindo disso tudo aí, penso que não seria difícil pra ele fazer algo interessante.

A trama gira em torno de uma família, que não é a típica família de musicais, como bem lembra DJ (Natasha Lyonne), a narradora da história. Sua família é rica, e democrata liberal. Tanto seu padrasto, Bob (Alan Alda), quanto sua mãe, Steffi (Goldie Hawn), ainda mantêm amizade com seu pai, Joe (Woody Allen). DJ tem uma irmã, Schuyler (Drew Barrymore), que estando pra se casar com Holden (Edward Norton), desiste, tendo se apaixonado por um ex-prisioneiro (Tim Roth). Isso tudo somado resulta em Todos Dizem Eu Te Amo: encontros e desencontros amorosos em Nova York, Paris e Viena.

Todos os personagens, como costuma ocorrer nos filmes do diretor, são apaixonantes. Vivos, cada um com ao menos um traço forte. Nisso, o roteiro acerta. Porém, há alguma coisa de errado nesse mesmo roteiro: ele joga muitas idéias, e acaba não indo fundo em nenhuma. Ou pelo menos, não tão fundo quanto gostaríamos que ele fosse. Ainda mais por ser quase um Simplesmente Amor, com menos histórias, e ainda tendo números musicais, tudo quase se torna artificial.

Mas o elenco é bom, e segura as pontas. Barrymore, como a mocinha ingênua, e Norton, como rapaz apaixonado, estão ótimos, e o terceiro elemento nesse triângulo, que é o ex-prisioneiro de Tim Roth, também é bastante divertido. Alan Alda, nas suas discussões com o personagem de Lukas Haas, está bem à vontade, assim como nas cenas com a ótima Goldie Hawn. Por fim, há ainda Allen, que faz aquele seu papel neurótico. Não exatamente excelente, mas não exatamente ruim.

Na direção, porém, ele se garante. Tanto na coordenação dos atores, quanto nas cenas musicais, muito bem coreografadas. Vale ressaltar que uma boa parte do elenco jamais tinha cantado ou dançado na tela, e Woody faz com que, mesmo estreando nesse aspecto, eles fiquem bem. O diretor ainda capta muito bem o espírito de Paris e Viena. Em Nova York...Bem, acho que nem preciso mencionar que ele traz sua cidade de uma maneira interessante, mais uma vez.

Todos Dizem Eu Te Amo é uma comédia/musical, que brinca por várias vezes com o amor e com os relacionamentos, mas que falha em conquistar o espectador totalmente, fazendo com que ele realmente não se preocupe com os destinos dos personagens. E o amor, o sentimento que deveria ser trazido junto pra que ficasse evidente, acaba até fazendo isso, mas de uma maneira mais fraca, menos marcante. No final, o que temos é um filme decente - a não ser que você realmente odeie quando o personagem comece a cantar sem razão aparente.




Cotação: 60/100
Saturday, April 24, 2004
 
Os Suspeitos(The Usual Suspects, 1995)


Dirigido por: Bryan Singer
Com: Gabriel Byrne, Kevin Spacey, Stephen Baldwin, Kevin Pollak, Benicio Del Toro, Chazz Palminteri, Suzy Amis, Giancarlo Esposito
Indicado a: 1 Golden Globe Award(Melhor Ator Coadjuvante para Kevin Spacey), 2 Oscars(Melhor Ator Coadjuvante para Kevin Spacey*, Melhor Roteiro Original*)

Admito que sou um grande fã de X-Men. Isso antes dos filmes. Acho que a paixão surgiu lá pra metade da década de 90, quando a TV Colosso exibia o desenho. Aquilo era demais. Minha devoção ao grupo de heróis foi aumentando, assim como a marca X-Men, que cresceu cada vez mais nas histórias em quadrinhos, teve jogos de videogame e finalmente chegou aos cinemas. O primeiro filme, dirigido por um tal Bryan Singer, era uma das melhores adaptações de HQs já feitas. Estava à altura das minhas expectativas. O segundo, então, era um dos raros casos onde a seqüência supera o original. Ainda era o tal Singer quem dirigia.

Pois bem. Eu, como não vivo nesse mundo, só recentemente vim a descobrir que Kevin Spacey, que é um ator que muito admiro, não tinha só seu Oscar por Beleza Americana. Ele também tinha um por coadjuvante em Os Suspeitos, um filme mais antigo de Singer. Ok, eu sou, provavelmente, um dos únicos cinéfilos a ainda dar algum valor pra Academia. Mas não foi por isso que eu resolvi conferir esse trabalho de Spacey e Singer. Na verdade, o que chamou minha atenção foi um personagem da película em questão ter entrado recentemente numa lista de 100 melhores personagens do cinema, feita pela revista Premiere.

O filme abre com um assassinato e uma explosão em um navio. Desses dois acontecimentos, apenas duas pessoas sobreviveram: um marinheiro húngaro, com queimaduras sérias e extremamente traumatizado, e Roger "Verbal" Kint (Kevin Spacey), um pobre aleijado que, por fazer parte do grupo que estava roubando o navio naquela noite, é levado à delegacia pra depôr. Portanto, tudo é narrado do seu ponto de vista. A tensão aumenta quando descobrimos que há uma figura misteriosa, que manipulou todos os envolvidos.

As atuações são extremamente interessantes. Todos do grupo de Kint (e isso inclui o próprio, interpretado por Spacey) dão ótimas representações, cada um se saindo com uma personalidade bastante marcante. Gabriel Byrne, com seu Dean Keaton, como líder, merece destaque. Fora do grupo, o Agente Kujan de Chazz Palminteri é bem legal também, fazendo o estereótipo do policial que acha que sabe tudo.

Singer, assim como faz na franquia X-Men, mostra porque é um ótimo diretor de ação: o assalto ao navio é muito bem filmado, e o diretor acerta na trilha sonora e na fotografia. Mas o lado psicológico dos personagens também é bem explorado (o que não ocorreu de forma tão satisfatória no primeiro filme dos mutantes), e mesmo o personagem de Benicio Del Toro, que mal abre a boca, está bem caracterizado.

O roteiro por vezes tropeça em si próprio, tentando ser esperto demais. Nada muito prejudicial, mas é que as reviravoltas acabam se acumulando em grande número e isso pesa um pouco. A charada e a atmosfera misteriosa são levadas até um ponto onde o negócio quase fica ruim. Mas são defeitos pequenos, até. O único grande problema é que isso acaba exigindo uma segunda leitura pra se entender tudo perfeitamente, e filme nenhum deveria exigir isso.

Mas, no geral, Os Suspeitos agrada. Um policial que intriga e chama a atenção. E tem um daqueles finais que te deixam coçando a cabeça. Ah, que vontade de estragar a surpresa...Bom, não vou, mas vale comentar que o jeito que Singer optou por revelar o grande choque da história foi muito bem escolhido. Esse é um diretor que veio pra ficar. E que venha X-Men 3.




Cotação: 71/100
Wednesday, April 21, 2004
 
Todos já devem saber como funcionam as coisas nas Lojas Americanas, ótimo lugar pra se comprar DVDs. Então...O que você faz quando vê dois filmaços por apenas 10 reais (ou 9,90, grande diferença)? Você compra-os. E fica feliz.

Cães de Aluguel(Reservoir Dogs, 1992)


Dirigido por: Quentin Tarantino
Com: Harvey Keitel, Steve Buscemi, Tim Roth, Michael Madsen, Quentin Tarantino, Eddie Bunker, Chris Penn, Lawrence Tierney, Kirk Baltz

Há algum diretor americano vivo que entenda o cinema como arte, que explore sua câmera de uma maneira única, que escreva seus próprios filmes e coloque neles os diálogos mais incríveis, que abuse da violência, mas que dê à ela uma estilização toda especial, que tenha o elenco exatamente onde quer e que ainda tenha um humor negro delicioso? Se sim, este homem é Quentin Tarantino.

Em 92, ele lançou essa pequena pérola, de nome Cães de Aluguel. Essa é a história de como um roubo acabou dando errado. Muito errado. 6 ladrões foram reunidos pra um trabalhinho, mas, como costuma acontecer nesse ramo, nenhum deles conhecia muita coisa da vida dos outros. Por isso, o chefão do grupo, Joe Cabot (Lawrence Tierney) dá nomes de cor pra cada um: Sr. Brown (Quentin Tarantino himself) e Sr. Blue (Eddie Bunker) estão mortos; Sr. Orange (Tim Roth) está gravemente ferido e Sr. White (Harvey Keitel) cuida dele; Sr. Pink (Steve Buscemi) desconfia que um deles seja um policial disfarçado, enquanto Sr. Blonde (Michael Madsen) chega no galpão onde estão reunidos.

Os primeiros minutos de Cães são lendários, provavelmente estão entre as 5 melhores coisas filmadas nos anos 90: tudo começa numa mesa, onde os ladrões discutem assuntos...interessantes. Na verdade, o filme começa com uma teoria estranha sobre a música Like A Virgin, da Madonna. Sem dúvida, um dos diálogos mais inspirados de Tarantino. Só essa cena já dá uma idéia de seu estilo.

Cães é violento, mas é absurdo dizer que é só violento. A violência é usada de uma maneira bem peculiar, banalizada ao ponto de não ser uma coisa tão importante assim pra história. Quer dizer, justamente pelo fato das cenas violentas serem bizarras, você começa a deixá-las de lado, como se o mundo do filme fosse diferente do nosso. Isso quando não começa a achar aquilo até engraçado. Durante o resto da década, o jeito Tarantinesco de usar a violência como recurso foi copiado diversas vezes.

O diretor é fascinado por cultura pop, o que nos leva a olhar com cuidado pra trilha sonora, sempre bem escolhida. Mas a câmera de Tarantino merece mais destaque ainda: o que ele faz em Cães é sensacional. Maneira única de filmar. No galpão, ele presta atenção principalmente à visão do Sr. Orange, que está deitado, sangrando; portanto, filma em ângulos baixos. Há uma seqüência onde vemos Sr. Blonde sair do tal galpão, ouvindo uma música no rádio. Nós o seguimos até seu carro, e a música some. Ele pega um galão de gasolina, volta, e a música volta junto. Qualquer outro diretor teria tirado a simplicidade de uma cena dessas, ou cortado pra outro cenário, ou enfim. Não seria a mesma coisa.

As atuações são outro show à parte. Harvey Keitel e Tim Roth estão muito bem. Aliás, seria até bobo ficar comentando um por um aqui, porque não há alguém que não tenha se saído de ótimo pra cima. Penn, Tierney, Buscemi - todos, Tarantino tem todos nas mãos, e nada vindo do elenco prejudica, muito pelo contrário.

Conciso, com um ritmo perfeito, o filme é todo um único, longo clímax. Mesmo com flashbacks e pulos na narrativa, ele nunca te deixa descansar. Explosivo, bem montado, etc, etc. Querer dizer qualquer outra coisa é patético. Cães fala por si próprio, manipulado por um gênio que, já naquela época, tinha todas as características de um grande cineasta.




Cotação: 90/100

Amnésia(Memento, 2000)


Dirigido por: Christopher Nolan
Com: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano, Mark Junior Boone, Stephen Tobolowsky, Harriet Harris, Jorja Fox
Indicado a: 1 Golden Globe Award(Melhor Roteiro para Christopher Nolan), 2 Oscars (Melhor Montagem, Melhor Roteiro Original para Christopher Nolan

A memória é uma coisa complicada. Basicamente, o fato de sermos capazes de memorizar algo, de guardar uma informação em nossas mentes é um dom. Mas até que ponto a memória é confiável? Será que é impossível alguém ser traído pela própria mente? Perda de memória recente, deja-vu, amnésia - tudo isso já não é perturbador o suficiente?

Christopher Nolan fará o próximo filme do Batman. Os fãs vibraram com a notícia, e com razão. Não só por esse fato indicar uma melhoria considerável nos filmes do Homem Morcego, que andam piores que o time do Corinthians, mas também porque...Oras, é Christopher Nolan! O homem por trás de Amnésia, um filme espetacular em todos os aspectos.

Leonard Shelby (Guy Pearce) tem seu corpo inteiro tatuado, com dizeres que ele não pode esquecer. Sabe quando você anota algo na sua mão, algo importante? Pois é, mas ele precisa de tatuagens. Sofre de perda de memória recente desde que sua mulher foi estuprada e assassinada. Nós somos apresentados a Shelby em meio à sua confusão. Ele não sabe em quem acreditar, nem como lidar com Teddy (Joe Pantoliano) ou Natalie (Carrie Anne-Moss). Tudo que tem são suas tatuagens, sua máquina Polaroid e sua memória, se é que se pode chamá-la disso.

O roteiro de Nolan é maravilhoso. Sua história é perfeita. A narrativa é quebrada, baseada nos curtos minutos em que Shelby pode guardar uma informação. Portanto, essa narrativa se torna personagem, e de uma maneira que nos faz ficar ansiosos, muito ansiosos, por cada cena a vir ainda. A direção de Nolan também nos permite isso: ele explora todas as possibilidades, dando à Amnésia a injeção de tensão em cada partezinha, e faz isso de maneira genial, num estilo sutil - o máximo de sutileza que uma trama forte como essa permite.

Pearce e o resto do elenco trabalham muito bem. O australiano, já elogiado aqui por L.A. Confidential, é um grande ator dramático, e seu Shelby parece convencido, acreditando em tudo que diz. Mesmo nas cenas em preto e branco, onde a intepretação é mais "over the top" (expressão mais gay impossível, eu sei), Pearce não desaponta. Carrie Anne-Moss, graças a Deus, não é só "aquela mina chata de Matrix". Pantoliano e seu Teddy também estão muito bem, justamente pela capacidade do ator. O personagem irrita o espectador, até que se descobre que seu papel nessa história pode não ser exatamente de vilão.

Não só um dos filmes mais criativos já feitos, como também dono de uma atmosfera intrigante e incrivelmente bem montado, Amnésia é tudo, ou praticamente tudo, que um filme pode ser. Amnésia é memorável. Rárárá, sacou? Droga de piadinha, o filme de Nolan não merecia uma dessas.




Cotação: 91/100

Tuesday, April 20, 2004
 
Los Angeles - Cidade Proibida(L.A. Confidential, 1997)


Dirigido por: Curtis Hanson
Com: Guy Pearce, Russell Crowe, Kevin Spacey, Kim Basinger, James Cromwell, Danny DeVito, David Strathairn
Indicado a: 5 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Drama, Melhor Atriz Coadjuvante para Kim Basinger*, Melhor Trilha Sonora para Jerry Goldsmith, Melhor Roteiro para Brian Helgeland e Curtis Hanson, Melhor Diretor para Curtis Hanson), 9 Oscars(Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante para Kim Basinger*, Melhor Direção de Arte, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Som, Melhor Trilha Sonora para Jerry Goldsmith, Melhor Diretor para Curtis Hanson, Melhor Roteiro Adaptado para Brian Helgeland e Curtis Hanson*)

O ano era 1997 e todo mundo só falava no filme de James Cameron. A pergunta seria: com um filme como Los Angeles sendo lançado também em 97...por quê? Afinal, o filme de Curtis Hanson é fantástico. Um noir moderno, que com suas duas horas e pouco, mal deixa o espectador piscar, de tão preso que ele se torna àquilo. Baseado no romance de James Ellroy, Los Angeles é aquele tipo raro de projeção, que acerta em tudo, ou quase tudo. O "quase" nem importa num caso desses, acredito.

A trama se desenrola prestando atenção principalmente a três personagens: Bud White (Russell Crowe), um tira durão, que odeia violência contra mulheres, e tem seu parceiro assassinado no crime que dá o tom à história contada; Ed Exley (Guy Pearce), um cara certinho, policial carreirista, que (não só por isso, mas principalmente por isso) é odiado pelos colegas de trabalho; e Jack Vincennes (Kevin Spacey), um policial superstar, que ajuda na produção de uma série de TV e é famoso, graças ao seu acordo com o jornalista Sid Hudgens (Danny DeVito): esse último promete publicar matérias exaltando o trabalho de Vincennes, se isso lhe render reportagens exclusivas.

Ou seja, cada personagem com um código moral extremamente diferente, que faz de cada um uma espécie de vilão. Nos primeiros momentos, nem desconfiamos que serão essas as pessoas que teremos de seguir, e até torcer por elas, porque parecem tão distorcidas, tão perturbadas. Helgeland e Hanson, no entanto, trouxeram um roteiro tão bem amarrado, que explora não só esses três caras, mas outros também, de uma maneira profunda, privilegiando o lado psicológico de cada um. Quando entendemos suas razões, passamos a gostar dessa equipe (que, fique claro, em nenhum momento é de fato uma equipe). Mais ainda, ficamos fascinados com o filme.

A direção de Curtis Hanson é qualquer coisa de excelente: sua Los Angeles é corrompida, sensual, charmosa, provavelmente um dos melhores cenários criados nos últimos anos. Toda a aparência da cidade, seu aspecto angelical (que vem até no nome), na verdade é só uma coberta que esconde a verdadeira L.A. Direção de arte e fotografia inspiradas, mais uma trilha sonora que nos coloca dentro daquele lugar. Quando menos percebemos, Hanson cumpriu sua missão - e aí, é como eu disse, não tem como não ficar preso. Muito bem conduzido, com humor, violência, e vários protagonistas. Digno de reconhecimento.

Russell Crowe dá uma atuação acima da média de seu trabalho atual, bem convincente. Seu personagem é provavelmente o mais ajudado pelo roteiro, então fica difícil de saber até onde a competência de Crowe influenciou realmente. Pearce também é digno de nota, porque Exley, apesar de parecer um escoteiro, também tem seu lado sombrio. Spacey é aquela coisa de sempre: incrível! Logo de cara, é o que desperta no público (ou em mim, pelo menos) mais simpatia. Por fim, há ainda James Cromwell, que num papel interessantíssimo se destaca lá pro final, e Kim Basinger, que...pode ter ganhado o Oscar e o Golden Globe, mas é absurdamente mediana, sem nenhum momento de destaque. O mérito dela (além da beleza que possui, claro) é de fato se parecer com Vivian Lake.

Um filme humanizado e provocante, onde Hanson tem sucesso, criando toda a atmosfera peculiar da sua Los Angeles, ao mesmo tempo que narra delicisiomente a história que tem em mãos. Pena ter sido lançado no mesmo ano daquele filme (vocês sabem do que se trata...) e ter sido tão ignorado nas premiações.




Cotação: 88/100
Sunday, April 18, 2004
 
Mar de Fogo(Hidalgo, 2004)


Dirigido por: Joe Johnston
Com: Viggo Mortensen, Zuleikha Robinson, Omar Sharif, Louise Lombard, Adam Alexi-Malle, Saïd Taghmaoui, Harsh Nayyar, J.K. Simmons, Franky Mwangi, Floyd "Red Crow" Westerman, Malcolm McDowell, Elizabeth Berridge

Há algo a se falar sobre o novo filme de Joe Johnston e do Aragorn, digo, Viggo Mortensen? A impressão que tive após sair do cinema é de que não: é tudo que você já viu antes, recontado. Isso não faz do filme ruim; é interessante. Ouvi comentários de que se tratava de "Seabiscuit no deserto". Não vi Seabiscuit, mas não duvido nada que seja parecido. Esse é um estilo de filme que se repete no cinema americano, e às vezes rende coisas absurdamente ruins, e às vezes coisas legais.

Mar de Fogo faz parte dessas coisas legais. Ele é feito com tanta boa vontade...Talvez porque narre a história de Frank T. Hopkins, ídolo do diretor Joe Johnston e do roteirista John Fusco. É difícil até saber se o filme é baseado em fatos reais, como ele diz ser. Não há prova alguma de que Hopkins tenha feito metade das coisas que disse. Mas ao final da projeção, quase tive vontade que fosse mesmo - embora às vezes a coisa seja tão forçada que dificulta pra quem opta por acreditar.

Frank T. Hopkins (Viggo Mortensen) é um caubói descendente de índios, que é desafiado por um xeique (Omar Sharif) a provar que o cavalo que tem, um mustangue de nome Hidalgo, é tudo o que dizem ser. Pra isso, pede que ele entre na lendária corrida chamada Mar de Fogo, que acontece há séculos no Oriente Médio. Mas os perigos do deserto não são seus únicos problemas: há o seqüestro de Jazira (Zuleikha Robinson), filha do xeique, com quem se envolve romanticamente, a sedução com segundas intenções de Lady Davenport (Louise Lombard), a competição com Al Hattal, famoso e furioso cavalo árabe, e, é claro, a "busca interior de suas verdadeiras raízes" - raízes indígenas, no caso.

As tomadas do deserto são bonitas, e temos várias delas. A fotografia não é nada demais, mas não prejudica, porque é a certa a ser usada neste estilo de filme. Os tons de cores na tela são sempre os mesmos - o que é bem legal, mas deve dar sono a quem for querendo ver só uma aventura. E os efeitos especiais também não deixam a desejar. A direção de Joe Johnston não ousa, mas não é preciso, porque as cenas de ação são bem filmadas o suficiente pra serem consideradas excitantes.

Mas o roteiro, atirando pra todos os lados, prejudica um pouco. Tudo bem, tenho certeza que Hopkins, o verdadeiro, tinha mil histórias pra contar, mas os subplots acabam atrapalhando em uma certa altura. O Mar de Fogo, que seria a coisa principal da história (a julgar pelo título do filme no Brasil), fica em segundo plano várias vezes, o que passa a impressão de que o negócio nem foi tão difícil assim. Exceto pela cena final, que não vou estragar pra quem está lendo, que exagera e estraga um pouco do clima diferente que o filme teria. Ainda assim, esse clima diferente existe, e está em lugares estratégicos, como no caubói que (ainda bem) não é um sabe-tudo chato, ou na visão sem estereótipos dos índios ou dos árabes - um dos maiores méritos do filme, na minha opinião, já que estamos em tempo de Iraque e Bush.

As atuações estão razoáveis. Viggo Mortensen ainda não se livrou da imagem de Aragorn, porque leva mais que um sotaque sulista pra conseguir isso. Ele ainda tem uns traços do outro personagem, como os sussurros e olhares, mas não se sai mal. Sua química com os cavalos que foram Hidalgo nas filmagens é até legal de se ver. Um bom herói de assistir e de se torcer para. Viggo bem que poderia se tornar um Harrison Ford da nova geração. O único outro personagem que tem participação suficiente pra se avaliar quem o representa é o xeique de Omar Sharif, que, apesar de nunca sair do estigma de velhinho sábio, não atrapalha em nada o filme.

Um filme inofensivo, que não é bizarramente ruim, nem espetacularmente bom. Esse é Mar de Fogo de Joe Johnston. Diverte em umas partes, enche o saco em outras, mas no final, dá pra sair com um sorriso no rosto. O balanço geral é positivo.

Ah, por último, só mais uma bobagem: só fui saber que o gênio Malcolm McDowell (pra quem não sabe, o maravilhoso ator de Laranja Mecânica) estava no filme muito tempo depois de sair da sala de cinema. Mas também...se ele tem 10 falas é muito. Fora que ele envelheceu tanto que jamais diria que era ele quem estava lá na tela. Outra que está lá, mas mal se percebe, é Elizabeth Berridge, a mulher de Mozart, que em Amadeus tem uma performance bem legal.




Cotação: 53/100
Friday, April 16, 2004
 
Os Bons Companheiros(GoodFellas, 1990)


Dirigido por: Martin Scorsese
Com: Ray Liotta, Robert DeNiro, Paul Sorvino, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Frank Sivero, Mike Starr, Frank Vincent, Samuel L. Jackson, Sheila Howard, Kevin Corrigan, Henny Youngman, Tony Darrow
Indicado a: 5 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Drama, Melhor Ator Coadjuvante para Joe Pesci, Melhor Atriz Coadjuvante para Lorraine Bracco, Melhor Roteiro para Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, Melhor Diretor para Martin Scorsese), 6 Oscars(Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para Joe Pesci*, Melhor Atriz Coadjuvante para Lorraine Bracco, Melhor Montagem, Melhor Roteiro Adaptado para Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, Melhor Diretor para Martin Scorsese)

"As far back as I can remember, I always wanted to be a gangster". Com essa frase, abre-se um mundo novo: gângsteres (uau, acho que é esse o termo no plural em Português), violência, a palavra "fuck", armas, corpos, enfim. Os Bons Companheiros é provavelmente o melhor filme já feito sobre gangsters (sim, deixa pra lá esse "gângsteres") na história do cinema. Aliás, mesmo tendo a máfia na trama, o filme realmente é sobre gangsters, porque o personagem principal, por exemplo, tem sangue irlandês e, portanto, não pode entrar numa família. Mas desde quando isso é motivo pra ele deixar de cometer alguns crimes e conviver com a italianada mafiosa?

Scorsese, com sua visão única do mundo, nos apresenta uma história baseada em fatos reais - e que é incrivelmente real mesmo. Soou meio "dã" isso, mas explico: uma das coisas mais poderosas em Companheiros é o fato de que a visão romantizada é deixada de lado. Não é como em O Poderoso Chefão, e nem tô comparando a qualidade de um com a do outro. Mas o fato é que o filme ganha força, por mostrar como um gangster age, tornando a violência a coisa mais banal do mundo. Molho de tomate e sangue caminham juntos. Interessantíssimo.

A história é contada num tom nostálgico por Henry Hill (Ray Liotta), um garoto que sempre sonhou em ser um gangster, por admirar os que viviam no seu bairro, especialmente a família de Paul Cicero (Paul Sorvino). Começa a fazer pequenos trabalhos pra eles, e vê seu desejo se tornando realidade. Nos anos 70, Hill já alcançou uma posição alta, já se casou com a namorada judia Karen (Lorraine Bracco), já passou pela prisão, e, junto com seus parceiros Jimmy Conway (Robert DeNiro) e Tommy DeVito (Joe Pesci), se envolve no tráfico de drogas, que não é aprovado pela máfia. Em pouco tempo, as coisas começam a desabar e Henry, pra não morrer, é obrigado a desmanchar a ótima vida que tem.

O grande mérito da direção de Scorsese é que ele consegue compartilhar a visão do narrador, e te envolver na história. Assim, sua câmera presta atenção no brilho dos sapatos, na fineza dos tecidos das roupas. Quando os "wiseguys" planejam o roubo da Lufthansa, o diretor coloca-os sussurrando, se divertindo com aquilo, nota-se o prazer em roubar. O espectador é seduzido, assim como o personagem de Liotta, pra depois constatar que nem tudo na vida de gangster é tão legal quanto parece. Quando o filme acaba, você se sente traído, quase como se aquilo tivesse acontecido com você mesmo. Há também muitos truques cinematográficos, como voz narrando e imagens congeladas, mas eles nunca são usados sem mais nem menos, e estão muito melhores que em outros filmes.

As atuações são incríveis: Robert DeNiro interpreta um canalha cativante (esse adjetivo, obviamente, só vem por causa da atuação de DeNiro), que parece saber muito bem onde pisa. Ray Liotta também está bom, como protagonista, mas talvez a melhor coisa vinda dele no filme seja sua narração, que é excelente. Ele emprega a quantidade de empolgação necessária, sempre deixando um ar de nostalgia. Lorraine Bracco se sai muito bem narrando sua parte, e sua decadência - escancarada pela visão do diretor - e o jeito que aos poucos vai ficando maluca também são dignos de nota, assim como o tipo severo e paterno de Paul Sorvino.

Mas o ator mais incrível em Companheiros é Joe Pesci, que consegue, num papel pequeno, se transformar num monstro na tela. A construção de Tommy DeVito é interessante (com clara influência do estilo de Scorsese), um baixinho folgado e que não leva desaforo pra casa. Pesci transforma cada cena em que aparece numa expectativa tensa, "como ele vai reagir agora?", e coisa do tipo. Dando o toque de humor negro necessário a um filme desses. Não há como alguém não se lembrar da cena "engraçado? Eu sou engraçado? Como assim engraçado? Engraçado como um palhaço?". Anos mais tarde, o ator ainda seria lembrado várias vezes pelo pessoal do Saturday Night Live, no quadro "The Joe Pesci Show", onde o comediante Jim Breuer, imitando os trejeitos de Pesci em Companheiros, batia com um taco de baseball nos convidados.

Enfim, Os Bons Companheiros é uma realização memorável e única, com muito estilo. Uma história de um jovem que, ao apanhar do pai, não sentia nojo do poder, mas invejava-o. Contada não de uma maneira que pareça superior, mas realística, envolvente e, acima de tudo, divertida.




Cotação: 90/100
Tuesday, April 13, 2004
 
Nascido Em 4 de Julho(Born on the Fourth of July, 1989)


Dirigido por: Oliver Stone
Com: Tom Cruise, Kyra Sedgwick, Raymond J. Barry, Willem Dafoe, Frank Whaley, Jerry Levine, John Getz, Vivica A. Fox, Holly Marie Combs, Michael Wincott, Caroline Kava, Samantha Larkin, Robert Camilletti
Indicado a: 5 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Drama*, Melhor Ator de Drama para Tom Cruise*, Melhor Trilha Sonora para John Williams, Melhor Diretor para Oliver Stone*, Melhor Roteiro para Ron Kovic e Oliver Stone*), 8 Oscars(Melhor Filme, Melhor Ator para Tom Cruise, Melhor Montagem*, Melhor Trilha Sonora para John Williams, Melhor Fotografia, Melhor Som, Melhor Diretor para Oliver Stone*, Melhor Roteiro Adaptado para Oliver Stone e Ron Kovic)

Há muitos filmes sobre a Guerra do Vietnã. Aliás, há muitos filmes sobre guerras, das mais variadas possíveis. Guerras épicas, clássicas, modernas, contemporâneas. As que mais costumam receber versões são a do Vietnã e a Segunda Mundial, o que insere em cada novo filme sobre elas uma pressão razoável. Mas o mais interessante é quando o diretor propõe um debate político, em vez de se concentrar na glória de um soldado em batalha ou qualquer americanada do tipo.

Definitivamente, Nascido Em 4 de Julho não é um filme sobre a glória de um soldado. Apesar das palavras da mãe de Ron Kovic ("eu tive um sonho, Ron. Nele, você falava para multidões sobre coisas grandes, coisas importantes"), que co-escreveu o roteiro com o diretor Oliver Stone, sua vida não foi a de um honrado homem num posto alto do exército norte-americano, nem a de um presidente. Na verdade, todos os seus sonhos se perderam muito rápido e ele demorou até se encontrar, até cair em si e conhecer a real situação na qual estava.

Ron Kovic (Tom Cruise) é um excelente esportista, de bom porte físico, atlético, um prodígio de garoto, religioso e patriota. Disposto até a arriscar a possível chance que teria de ficar com Donna (Kyra Sedgwick), apenas pra ir lutar por seu país no Vietnã. Após conhecer os horrores da guerra e ser atingido, ficando paralisado da cintura pra baixo, perdendo qualquer chance de futuro brilhante que haveria para ele, Ron volta pra casa, pra descobrir que as coisas mudaram. A partir daí, toda a decadência de uma vida nos é mostrada.

Ao contrário de Gandhi, o último filme comentado aqui, Nascido é uma cinebiografia que é um filme de drama de fato, e não um documentário. Stone, obcecado com guerras e poder, sabe dirigir um filme e evitar que ele perca o impacto, se tornando apenas um relato de fatos. Apesar de não ser exatamente conciso, o ritmo é ótimo (se perdendo só um pouco durante a passagem de Kovic pelo México, com uma cena bizarra em que Willem Dafoe e Tom Cruise, interpretando dois paralíticos, lutam no chão), e o desenvolvimento do personagem central é bem natural.

Aliás, o personagem central brilha e desenvolve com o público uma simpatia incrível. Esse foi, provavelmente, o papel da vida de Tom Cruise. Escalá-lo foi uma decisão bem acertada, porque, apesar de ser um tanto batido ver alguém indo do céu ao inferno no cinema, Cruise o faz com competência. Kovic acaba se tornando, pro espectador, um símbolo da tragédia, do lado americano, que foi a batalha no Vietnã. O roteiro brinca com o lado psicológico do personagem, mostrando-o inicialmente até conformado com a situação, só pra depois explodir, se tornando um alcóolatra inverterado.

A fotografia é linda: as cenas inicias, com o pequeno Ron observando os soldados no desfile de 4 de julho, me deixaram embasbacado. Sem mencionar a beleza visual com a qual o país onde a batalha ocorre é trazida. O grande acerto do roteiro é nunca se concentrar na guerra em si, mesmo tendo acontecimentos importantes pro filme ocorrendo nela, e sim no impacto que ela teve sobre os jovens que foram lutar, cheios de orgulho, e voltaram e não sabiam mais o que fazer, sem braços, ou pernas, ou simplesmente enlouquecidos. Muito bem conduzido, sem tentativas fortes de expressar um "lado" na história toda, deve causar até hoje bons debates na terra do Tio Sam.

De temática forte, Nascido Em 4 de Julho é marcante. Não tanto pelo choque, afinal, não há quase choque nenhum, hoje em dia, em saber de tudo que ocorre numa guerra. Mais pela realização cinematográfica, que traz uma união de Cruise e Stone inspirada.





Cotação: 73/100
Monday, April 12, 2004
 
Gandhi(1982)


Dirigido por: Richard Attenborough
Com: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud,Trevor Howard, Martin Sheen, Athol Fugard, Amrish Puri, Roshan Seth, Nigel Hawthorne
Indicado a: 5 Golden Globe Awards(Melhor Ator de Drama para Ben Kingsley*, Nova Estrela do Ano para Ben Kingsley*, Melhor Roteiro para John Briley*, Melhor Filme Estrangeiro*, Melhor Diretor para Richard Attenborough*), 11 Oscars(Melhor Filme*, Melhor Ator para Ben Kingsley*, Melhor Maquiagem, Melhor Som, Melhor Figurino*, Melhor Direção de Arte*, Melhor Fotografia*, Melhor Montagem*, Melhor Trilha Sonora para Ravi Shankar e George Fenton, Melhor Roteiro Original para John Briley*, Melhor Diretor para Richard Attenborough*)

A Academia ama filmes que narram a história de algum personagem da vida real. Cinebiografias. Quando se trata de um personagem importante na história do mundo, é quase uma certeza de que ele conseguirá alguns Oscars, ou muitos. Mohandas Gandhi, que passou de advogado humilde a humilde líder não-oficial de uma nação, certamente foi uma das maiores personalidades do século passado, junto com Einstein e Chaplin, e se tornou símbolo do pacifismo, influenciando gente como Kurt Cobain e John Lennon.

Era meio óbvio, portanto, que a vida de uma pessoa dessas mais cedo ou mais tarde viraria filme. E que, quando virasse, seria prestigiado na Academia. De fato, o filme abocanhou 8 prêmios na festa (embora a caixinha do DVD diga que foram 9 - o que é muito estranho, pesquisei em tudo quanto é lugar e só descobri 8 Oscars mesmo pro filme), foi aclamado, elevado ao status de clássico e a partir daí a carreira de Ben Kingsley deslanchou.

Mas então, Gandhi é de fato um primor de filme? A impressão que eu fiquei é que Gandhi é um primor de vida, isso sim. E é mesmo, acho que quanto a isso não se pode discutir. Mas...bem, talvez eu esteja errado, porém, a produção acaba se saindo um...documentário com atores. O diretor Richard Attenborough prefere narrar todos, praticamente todos os eventos da vida do Mahatma, em vez de se concentrar em uma certa fase, ou em um certo objetivo alcançado por ele. É uma boa aula de história, mas como filme, acaba se saindo apenas como longo e cansativo.

Por sorte, tivemos acontecimentos grandiosos envolvendo a figura de Gandhi. Como quando os ingleses abriram fogo contra alguns indianos que estavam reunidos, após a prisão de Mohandas, matando 1500 pessoas, entre elas mulheres e crianças. E há sempre o choque de saber que o homem uniu hindus e muçulmanos e conseguiu com que eles jamais usassem violência, mesmo se estivessem apanhando. Esse tipo de coisa é o que domina o filme positivamente.

Há bastante realismo, até por isso é uma aula de história de 3 horas: cenas intensas filmadas com multidões, que nos dão a sensação de estar vivendo tudo aquilo. Isso sem mencionar a performance memorável de Ben Kingsley, de longe, a melhor coisa do filme de Attenborough. Pode-se acreditar que aquele ali é de fato o líder, ressuscitado. Porém, isso parece vir mais do ator mesmo, já que o resto do elenco está bom, mas só.

Enfim, quando se analisa todo o pacote, vendo-o como filme dramático, parece algo meio fabricado demais. É ótimo, excelente como documentário, mas o filme é um drama. Sendo assim, ele não apresenta nada de tão inovador, nada que o torne digno de ser aplaudido de pé ou coisa assim. A direção e o roteiro parecem injetar uma dose grande de emoção barata, com vilões britânicos de bigodinho, trilha sonora quase induzindo você a sentir algo e câmera em ângulos batidos com o mesmo objetivo. Talvez se a história tivesse sido romantizada em excesso, eu estaria fazendo reclamações 100% contrárias as que eu estou fazendo agora, quem sabe.

Mas é um pouco doído saber que sempre que a Academia jamais premiará um filme que seja mais ousado, mais artístico, mais humano - ao menos, quando este estiver concorrendo com um que simplesmente retrate a vida de uma pessoa tão incrível. Mas as vidas de pessoas incríveis necessariamente rendem filmes incríveis? Se fosse verdade, A Paixão de Cristo só receberia reviews positivos. O que não vem acontecendo - aliás, muito pelo contrário.





Cotação: 59/100
Friday, April 09, 2004
 
Spartacus(1960)


Dirigido por: Stanley Kubrick
Com: Kirk Douglas, Jean Simmons, Laurence Olivier, Charles Laughton, Peter Ustinov, Tony Curtis, John Gavin, Nina Foch, Woody Strode
Indicado a: 6 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Drama*, Melhor Ator Coadjuvante para Peter Ustinov, Melhor Ator Coadjuvante para Woody Strode, Melhor Ator de Drama para Laurence Olivier, Melhor Diretor para Stanley Kubrick, Melhor Trilha Sonora para Alex North), 6 Oscars(Melhor Ator Coadjuvante para Peter Ustinov*, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte*, Melhor Montagem, Melhor Fotografia*, Melhor Trilha Sonora para Alex North)

Spartacus, hoje em dia, é visto com olhos estranhos, principalmente pelos fãs de Kubrick. Afinal, esse é o filme mais "superprodução hollywoodiana" que Kubrick já dirigiu. Ele não o escreveu, nem esteve envolvido na pré-produção. Ou seja, é o filme de Kubrick menos Kubrick que existe. O fato é que havia vários "filmes de toga" nos anos 60, e esse parecia mais um. Mas não é razão pra desmerecer Spartacus, porque ele permanece como sendo o mais destacável, uma experiência cinematográfica incrível.

O diretor original do filme era Anthony Mann. Mas este, desde o início, era pra ser um filme de Kirk Douglas, pois não só ele é a estrela, como também produtor-executivo. O que quer dizer que a grana tava saindo do bolso dele, e geralmente, o dono da bola é quem decide as coisas. Após alguns poucos dias, Mann foi demitido e Douglas chamou Stanley Kubrick, com quem havia trabalhado antes em Glória Feita de Sangue. Mesmo com uma liberdade artística bastante questionável, o diretor não deixou de incluir seu toque.

A história, embora romantizada, é real: em 73 a.C. havia um escravo de nome Spartacus que liderou uma revolta em busca de liberdade. Só que o fato de eu ter passado menos de meia aula aprendendo sobre ele quer dizer que não foi uma coisa tão grande assim. Ou quer dizer que minha escola é ruim, sei lá. Spartacus (Kirk Douglas), tendo escapado da vida de gladiador na academia de gladiadores de Batiatus (Peter Ustinov), onde conheceu e se apaixonou por Varinia (Jean Simmons), propõe aos que fugiram com ele que libertem outros, formando um exército, e saiam do alcance dos romanos. Sonha que um dia chegue onde ele tenha um filho, e esse filho nasça livre. O Senador Crassus (Laurence Olivier), mesmo com inimigos em Roma, tem concedido a ele o poder para rechaçar os rebeldes.

Honestamente, Spartacus é o filme de 3 horas que passou mais rápido pra mim, dos filmes de 3 horas que já vi. Talvez porque a ação seja constante (é muito mais legal de se ver, aliás, do que Gladiador, de Ridley Scott - e ok, as comparações acabam aqui, juro). Como épico, e como superprodução, é sensacional e acima da média. As batalhas são bem coordenadas e toque de Kubrick que citei está na fotografia, feita por ele: muito bela, como costuma ser em seus filmes.

Ustinov, que faleceu recentemente, era um grande ator, e sua performance como Batiatus é fascinante. Rouba a cena toda vez em que aparece. Aliás, o elenco está no geral muito bem, com uma atuação grande de Olivier (o personagem deste, aliás, tem um fundo de homossexualismo interessante), e um bom Kirk Douglas se garantindo como protagonista. A trama é envolvente o suficiente pra dar margem às boas representações.

Há cenas típicas de épicos (como a do "Eu sou Spartacus!"), clichês desse tipo de drama, e tudo mais. Mas ainda assim, o fato de haver um fundo de política e desumanização, especialmente no começo quando Spartacus é de fato um escravo, compensa. Compensa e faz o filme "stand out", brilhar no meio dos outros "filmes de toga". Mesmo a voz quase inaudível de Kubrick está lá. Infelizmente, pra muita gente, esse sempre será o filme que poderia ter sido feito por qualquer outro diretor. O que, na minha opinião, não é verdade.




Cotação: 78/100
Thursday, April 08, 2004
 
O Sol é Para Todos(To Kill A Mockingbird, 1962)


Dirigido por: Robert Mulligan
Com: Gregory Peck, Mary Badham, Philip Alford, Brock Peters, Robert Duvall, John Megna, Frank Overton, Collin Wilcox, Estelle Evans, Rosemary Murphy, James Anderson
Indicado a: 4 Golden Globe Awards(Melhor Filme de Drama, Melhor Trilha Sonora para Elmer Bernstein*, Melhor Ator de Drama para Gregory Peck*, Melhor Diretor para Robert Mulligan), 8 Oscars(Melhor Filme, Melhor Direção de Arte*, Melhor Trilha Sonora para Elmer Bernstein, Melhor Fotografia, Melhor Atriz Coadjuvante para Mary Badham, Melhor Ator para Gregory Peck*, Melhor Roteiro Adaptado para Horton Foote*, Melhor Diretor para Robert Mulligan)

Lee Harper havia escrito um livro, que acabou se tornando vencedor do prêmio Pulitzer. Mas O Sol é Para Todos havia nascido mesmo era pra se tornar um filme - um que alguns dizem ter sido a melhor adaptação de livro pra filme já feita. Não só isso, o American Film Institute elegeu Atticus Finch como o maior herói da história do cinema, batendo os nomes que sempre ouvimos em listas dessas coisas. Teríamos perdido muito não tivesse o livro de Lee Harper virado roteiro cinematográfico? Sim, mas não pelas razões citadas: ele era necessário à época de seu lançamento.

Feito em 1962, ainda em preto e branco quando alguns filmes já estavam saindo coloridos, O Sol é Para Todos é contado do ponto de vista de uma criança, o que já fica claro na interessante cena inicial, onde, com giz de cera, nos é revelado o título da película. A história se passa nos tempos da Depressão, nos EUA. Ou melhor, no Sul dos EUA, onde a pobreza e o racismo imperavam (ou seria...imperam?).

Scout (Mary Badham) é uma garota de pouca idade, de família humilde, vivendo numa cidade pequena, com seu irmão Jem (Philip Alford) e seu pai Atticus (Gregory Peck), que é advogado. Certa feita, Atticus tem de defender Tom Robinson (Brock Peters), um homem negro acusado injustamente de estupro. Por quê? Porque ninguém o defenderia. Outro personagem interessante é o bicho-papão local, Boo Radley (Robert Duvall, em seu primeiro papel num filme), cuja vida é cercada de lendas, que envolvem ter atacado o próprio pai com uma tesoura. Ninguém sabe ao certo, afinal, ninguém nunca o vê.

O filme não é exclusivamente sobre racismo, embora denuncie, ou melhor, reforce os lados podres da terra norte-americana, com alcoolismo, miséria e preconceito. Mas justamente por ser narrado através da visão de Scout, o grande choque pelo qual todos passamos ao perder a inocência (e alguns de nós perdem-na de maneira mais chocante, que é o caso da garota em questão) é o que segura a trama e a leva em frente. O carinho que ela tem pelo pai, a vergonha que sente em ser uma garota, as brigas que insiste em se envolver, todas essas coisas são exploradas sutilmente.

A performance de Gregory Peck, que lhe rendeu o Oscar, é fantástica. Embora esse não seja um "filme de tribunal" - daqueles que se resumem a discursos bonitos de advogados que mudam o pensamento das pessoas. Há a cena do julgamento, e há um discurso poderoso, mas bom, pelo menos eu não vi assim -, seu Atticus Finch é comovente. Um personagem construído na medida certa de idealização (sem exageros bobos - ok, mérito do roteiro, mas qualquer sinal ou maneirismo adicional de Peck teria jogado isso fora), daqueles que agüentam cusparadas mas, de cabeça fria, não reagem.

Mary Badham também não está ruim, muito pelo contrário. O que é ótimo, aliás, pois normalmente crianças bonitinhas estragam um filme, porque costumam ser forçadas. As outras crianças do filme não comprometem. Robert Duvall, num personagem que não fala uma palavra sequer, já mostra que teria futuro, fazendo um Radley infantil e doce. Por fim, há Brock Peters, que também merece destaque: Robinson encarna o sentimento do injustiçado, do perseguido. Seu depoimento no tribunal é incrível.

Enfim, a trilha sonora nostálgica de Elmer Bernstein mais a boa direção de Robert Mulligan completam o pacote. Um filme maduro, que faz pensar sem deixar de divertir. Matar sabiás é um pecado.




Cotação: 77/100
Wednesday, April 07, 2004
 
Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra(Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003)


Dirigido por: Gore Verbinski
Com: Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Geoffrey Rush, Jonathan Pryce, Jack Davenport, Mackenzie Crook, Lee Arenberg, Zoe Saldana
Indicado a: 1 Golden Globe Award(Melhor Ator de Comédia para Johnny Depp), 5 Oscars(Melhor Ator para Johnny Depp, Melhor Maquiagem, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhores Efeitos Especiais)

Da Disney, baseado numa atração de um parque temático da Disney (que, aliás, é uma das fascinações de Michael Jackson - seria por lembrá-lo de Peter Pan?), produzido por Jerry Bruckheimer, dirigido por Gore Verbinski (que, ok, não é tão ruim). Piratas do Caribe tinha vários fatores que poderiam resultar numa bomba de verão americana, dessas que depois viram filmes 100% Sessão da Tarde. O que se vê, no entanto, é um bom filme de aventura. O que é estranho. Já mencionei que é produzido por Jerry Bruckheimer?

Escrito pelo pessoal do divertido Shrek, Piratas acaba se saindo como um divertido filme sobre...piratas, com direito a tesouros, ilhas, navios, maldições. Felizmente, os chefões da Disney não fizeram a bobagem de cortar um monte de coisa e esse se tornou (acredito eu) o primeiro filme do estúdio com censura 12 anos. Piratas do Caribe é divertido, e uma boa produção nos moldes dos Blockbusters.

Elizabeth Swann (Keira Knigthley), filha do governador, é raptada pelo Capitão Barbossa (Geoffrey Rush), num ataque do temido navio Pérola Negra à cidade de Port Royal. Cabe a Will Turner (Orlando Bloom), secretamente apaixonado pela moça, aproveitar que o Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp) está por ali, libertá-lo da prisão, e um se usar do interesse do outro (afinal, Sparrow uma vez já havia sido o capitão do Pérola Negra, e pretende tomá-lo das mãos de Barbossa). Mais tarde, é revelada ao espectador a maldição citada no título do filme: a tripulação do Pérola é composta por mortos-vivos.

O roteiro meio que derrapa tentando amarrar um elemento com o outro, e tudo parece meio conveniente demais. Mas até aí não há problema, pois o fato dele ser um tanto previsível e ter alguns diálogos fraquinhos é o que realmente tira um pouco do brilho do filme. Talvez um pouco mais de humor negro e uma menor preocupação em fazer uma trama soar adulta (poderia muito bem ter mais cenas de ação; as poucas que temos, aliás, são ótimas) cairiam melhor.

O que tem que ser avaliado à parte é a atuação de Depp como Capitão Rolling Stone. Digo, Jack Sparrow. O ator simplesmente encarna Keith Richards e dá pra ver, basicamente, como seria se o guitarrista tivesse nascido muitos anos antes e optado por uma carreira em alto mar. Mas não pára por aí: essa é simplesmente a melhor atuação de Johnny Depp. Ok, é injusto dizer isso sem ter visto todos os filmes dele, mas há algumas semanas atrás eu comentava sobre Edward, Mãos de Tesoura e o bom trabalho dele nesse filme. Não que Edward seja pior como filme, por favor, mas em Sparrow, Depp cria um anti-herói extremamente carismático, com toques sutis que fazem dele a melhor coisa do filme.

O resto do elenco não está ruim. Keira Knightley e Orlando Bloom fazem o que se poderia esperar que fizessem, e o bom Geoffrey Rush constrói um Barbossa perturbado e interessante - mas os estereótipos presentes no roteiro fazem os elogios pararem por aí. A direção de Verbinski é bem hollywoodiana: se alguma vez no filme você achar que será surpreendido, esqueça, ele vai exatamente pelo caminho mais óbvio. Mas isso não prejudica o filme, ao mesmo tempo que o impede de ter sido ainda melhor.

Bons efeitos visuais, trilha sonora legalzinha, fotografia razoável (achei que a cena inicial tem um clima meio artificial, mas no resto do filme, felizmente, o erro não se repete). Como não gostar de Piratas? Claramente aberto pra continuações (com subtítulo e tudo), com um dos personagens mais legais que surgiram recentemente, faz falta só um toque um pouco diferente, que escaparia de alguns clichês. Como teria feito falta, por exemplo, Spielberg em Indiana Jones.




Cotação: 61/100
Friday, April 02, 2004
 
Procurando Nemo(Finding Nemo, 2003)


Dirigido por: Andrew Stanton e Lee Unkrich
Com as vozes de: Albert Brooks, Alexander Gould, Ellen DeGeneres, Willem Dafoe, Allison Janney, Geoffrey Rush, Eric Bana, Brad Garrett, Erik Per Sullivan, John Ratzenberger, Nicholas Bird, Andrew Stanton
Indicado a: 1 Golden Globe Award(Melhor Filme de Comédia), 4 Oscars(Melhor Filme de Animação*, Melhor Trilha Sonora para Thomas Newman, Melhor Edição de Som, Melhor Roteiro Original para Andrew Stanton, Bob Peterson e David Reynolds)

Procurando Nemo, ou "Pleculando Nemo", como disse a pessoa de 4 anos que me emprestou o DVD, é mais um desses filmes da Pixar. Mais um desses filmes da Pixar? Sim, mais um daqueles que fazem você sorrir espontaneamente enquanto está assistindo, deliciando cada momento daquela ótima experiência cinematográfica. Talvez a saga do peixinho Nemo seja o melhor que tivemos até agora vindo da Pixar/Disney, talvez não. Só espero que os próximos trabalhos sejam do nível que foram todos os produzidos até agora.

A aventura, dessa vez, é protagonizada por um peixe-palhaço de nome Nemo (dublado por Alexander Gould). Seu pai, Marlín (dublado por Albert Brooks), é superprotetor, afinal, Nemo é seu único filho e ele perdeu a esposa. Cansado de agüentar o pai e seu excesso de amor por ele, Nemo se rebela, mas acaba sendo pego por um mergulhador e vai parar no aquário de um dentista australiano. A partir daí, acompanhamos a busca de Marlín e sua amiga Dory (com a voz deliciosa da comediante Ellen DeGeneres), que sofre de perda de memória recente, por Nemo, e a tentativa de fuga deste do lugar onde está preso, ajudado por alguns amigos novos, feitos ali mesmo, no aquário.

Visualmente, o filme é lindo. Mas até aí, normal: há a competência dos animadores da Pixar, que pode ser vista em qualquer um dos seus outros filmes, e há também a questão do dinheiro. Mas o fato é que o ambiente aquático é belo até não poder mais. Cada detalhezinho foi levado em conta, e, honestamente, o filme valeria só pelo visual.

Provavelmente a primeira animação infantil com três personagens problemáticos - embora eu não conheça muito dessa arte pra afirmar isso com convicção. Mas o protagonista tem uma "nadadeira da sorte", Dory não guarda bem as coisas e Marlín ama demais. Enfim, Nemo é divertidíssimo. É um filme família, com uma história bonitinha, mas que não deixa de ter um fundo educativo sutil. Não é a coisa mais brilhante do mundo, mas sendo bem conduzido (um ótimo ritmo pra 100 minutos de filme), bem escrito e bem atuado (afinal, dubladores são atores, oras), se destaca. Na competência dos realizadores é que mora a diferença do filme infantil bom pro ruim.

Se tivesse que resumir o filme com uma palavra, diria "delicioso". E é bem por aí. Procurando Nemo (ou "Pleculando Nemo") serve de entretenimento tanto para adultos quanto para crianças. E os pais de filhos com deficientes agradecem. Longa vida à Pixar.




Cotação: 72/100

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