Cine Estranho
Saturday, May 29, 2004
 
O Informante(The Insider, 1999)


Dirigido por: Michael Mann
Com: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Philip Baker Hall, Lindsay Crouse, Debi Mazar, Stephen Tobolowsky, Colm Feore, Bruce McGill, Gina Gershon, Michael Gambon, Rip Torn, Lynne Thigpen, Hallie Kate Eisenberg
Indicado a: 5 Golden Globe Awards (Melhor Filme de Drama, Melhor Ator de Drama para Russell Crowe, Melhor Roteiro para Michael Mann e Eric Roth, Melhor Trilha Sonora para Peter Bourke e Lisa Gerrard, Melhor Diretor para Michael Mann), 7 Oscars (Melhor Filme, Melhor Ator para Russell Crowe, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Som, Melhor Roteiro Adaptado para Michael Mann e Eric Roth, Melhor Diretor para Michael Mann)

Eu tinha uma professora de inglês que fazia umas traduções pra um fabricante de cigarros, ela e o marido britânico. Ambos tinham assinado um contrato de sigilo com a empresa. O que significa que, sobre algumas coisas, jamais poderiam abrir a boca. No entanto, ela comentava na sala, em especial pra uma adolescente que estudava com a gente e que fumava muito, que se ela soubesse algumas das sujeiras das companhias de tabaco, ela jamais acenderia outro cigarro.

Não sou moralista, acho. Se o cara quer fumar, que fume, a saúde é dele. Isso é, desde que respeite quem não é fumante e tudo mais, essa ladainha que você aprende no primário, mas que não deixa de ser verdadeira. Certo. No entanto, é estranho notar que os fabricantes dessa droga estão numa boa, sempre, com a justiça. Citando um diálogo do filme a ser comentado, a GM e a Ford podem levar uns processos pela explosão de algum carro. Agora, as empresas de tabaco, mesmo o cigarro causando uma série de doenças e matando números incríveis de pessoas por ano, sempre saem ilesas. Mas o que elas têm a esconder, que precisam de um contrato assinado com seus tradutores, pra que tudo que eles façam fique só entre os empregados?

Não sei se a intenção de Michael Mann e Eric Roth era de investigar isso, quando resolveram sentar pra escrever O Informante. Baseado num artigo real de nome "The Man Who Knew Too Much", ou "O Homem que Sabia Demais", da revista Vanity Fair, essa é a história de Jeffrey Wigand (Russell Crowe), ex-cientista da Brown & Williamson, uma grande empresa de tabaco, que está disposto a, lentamente, abrir o bico. Quem pretende estar lá, na hora certa, pra registrar isso, é Lowell Bergman (Al Pacino), produtor do programa 60 Minutes do canal CBS. Enquanto Wigand enfrenta ameaças por parte dos ex-colegas de trabalho, Bergman enfrenta o departamento judiciário da CBS, que não quer se envolver com tudo isso.

O roteiro de Mann e Roth é excelente, de gente que sabe fazer cinema, e mais, de quem sabe muito bem onde quer chegar. Não só engloba todos os fatos envolvidos no caso, levantando boas questões sobre omissão de informação (no caso, informação extremamente importante, já que supostamente seria algo relacionado à saúde de quem consome os cigarros da Brown & Williamson), como também trata o espectador de maneira inteligente. Pra um drama real sem grandes surpresas, ter um bom roteiro é essencial, acredito.

É bastante interessante, também, notar que Mann, com uma história polêmica em mãos, não dirige O Informante de maneira convencional. Talvez não tivesse ficado ruim se ele jogasse as coisas normalmente, como quase todo diretor americano faz, mas ele evitou esse que seria o caminho mais seguro. Portanto, os acontecimentos se seguem com alguma rapidez, vários personagens são explorados simultaneamente, e talvez isso possa confundir quem só espera um filme divertido de ação. Ação, suspense, drama, sei lá, tudo isso está no longa.

A dupla de atores é um ponto altíssimo de O Informante. Essa é, possivelmente, a melhor atuação de Russell Crowe. Em nenhum momento identifiquei em Wigand os vícios que o ator costuma ter. Aliás, tudo que consegui desenvolver foi o respeito por esse seu trabalho, porque todo o tempo, na tela, quem está lá é um ator dedicado e criativo, que passa tudo que Mann provavelmente queria passar com o personagem. Já Al Pacino, esse costuma sempre dispensar comentários. Já provou ser um gênio, e, pra ele, o prazer em atuar deve ser mais ou menos como o da Madonna em fazer tours. Aquele negócio de se reinventar. E ele se dá muito bem. Há uma cena onde ele fica revoltado, e...Bem, talvez esse negócio de ficar revoltado seja muito fácil pra um ator, já que grito é sinal de boa atuação pra quem não entende muito do assunto, e ninguém devesse admirar tanto isso. Mas é que o cara faz isso de maneira espetacular, merecia o Oscar de Melhor Revolta do Ano - se ele existisse, é claro.

Por fim, o que me conquistou mesmo em O Informante foi o fato de que ele não é só um filme investigativo, como andei lendo por aí, mesmo mexendo num vespeiro enorme, com um acontecimento recente e tudo mais. Portanto, não funciona como documentário, ou só como isso; é também um ótimo drama, bem dirigido, bem atuado, com uma trilha sonora incrível. Não sei se pode-se cobrar muito mais do que isso de uma realização cinematográfica.




Cotação: 80/100
Sunday, May 23, 2004
 
Tróia foi de fato o último filme que vi no cinema. Mas odeio blogs que ficam muito tempo sem atualizar, como esse. Então, bem, me vejo forçado a escrever, em negrito:

OS FILMES DO TARANTINO ME DÃO FOME!

É que eu sou meio...americanizado demais, acho.

Em Cães de Aluguel, o Mr. Blonde me aparece com aquele copo típico de fast foods. Adoro fast foods. Me lembro de ter ficado com vontade de beber algo...

Em Pulp Fiction, toda a seqüência do "Royale With Cheese" me deixou com fome. Aquele hamburger gorduroso, hm...De um fast food havaiano, não? Mais pra frente, ainda tem o milk shake de 5 dólares e tal.

Em Jackie Brown, tem toda uma parte numa praça de alimentação de um shopping. Pô, tem lugar mais perfeito pra instalar um fast food que uma praça de alimentação de um shopping? Me lembro sim de ter ficado com vontade de correr pro shopping mais próximo.

Por fim, não vi Kill Bill. Mas me pergunto se isso é bom ou ruim, isso de me dar fome. Acho que...É ruim. Primeiro que comida de fast food não é nada legal (aliás, alguém mais tá louco de vontade de ver Super Size Me, aquele documentário sobre o cara comendo um mês inteiro só no McDonald's?). Segundo que...Bem, se você lembra que tá com fome, significa que não tá prestando tanta atenção no que se passa na tela, né? E nem tem motivo pra isso, pra dispersão da sua atenção, já que, putz, é um filme do Tarantino. Mas assim sou eu.

Hã. Sim, é só isso.
Tuesday, May 18, 2004
 
Tróia(Troy, 2004)


Dirigido por: Wolfgang Petersen
Com: Brad Pitt, Eric Bana, Peter O'Toole, Orlando Bloom, Diane Kruger, Brian Cox, Brendan Gleeson, Sean Bean, Julie Christie, Saffron Burrows, Garrett Hedlund, Tyler Mane, Rose Byrne

Em 2000, quando a carreira de Ridley Scott estava mais pra baixo que a de Michael Jackson, e Russell Crowe era um ator promissor, com boas atuações em Los Angeles - Cidade Proibida e O Informante, eles resolveram fazer barulho. Isso é, através do lançamento de Gladiador. Depois desse filme, Scott voltou a ser considerado um grande diretor, assim como Crowe passou de vez de "ator de papéis menores" pra "grande astro". Gladiador levou ainda alguns Oscars, inclusive o de melhor filme, mas seu maior feito talvez tenha sido ressuscitar os épicos em Hollywood - até porque sua qualidade é bastante questionável.

Mas um épico pode ser uma bomba tão grandiosa quanto os gastos em sua produção. Ao ver o primeiro trailer de Tróia, não acreditei que pudesse sair grande coisa: aqueles navios enfileirados eram bonitos de se ver, mas era só isso mesmo que me atraía. Orlando Bloom e o diretor de Mar em Fúria num filme baseado em A Íliada, de Homero? Tremi ainda mais quando soube que, pouquíssimo tempo antes do lançamento do longa, a trilha de Gabriel Yared havia sido substituída às pressas pela de James Horner, só porque a de Yared era bem estilizada e diferente, ao contrário da música-genérica-pra-blockbusters de Horner. Era só mais uma prova de que esse filme não era pra ser levado mesmo a sério. Portanto, confesso: me surpreendi.

Páris (Orlando Bloom) e Heitor (Eric Bana) estão em Esparta, promovendo a paz entre a cidade e Tróia, onde são príncipes. No entanto, Páris acaba se envolvendo com a mulher do Rei Menelau (Brendan Gleeson), a bela Helena (Diane Kruger), e leva-a pra Tróia. Menelau, furioso, vai até o irmão, o Rei Agamenon (Brian Cox), que se aproveita da situação pra declarar guerra entre a Grécia e a cidade de Páris. Depois de uma conversa com Ulisses (Sean Bean), Aquiles (Brad Pitt), provavelmente o melhor guerreiro grego, aceita ajudar, mas por razões próprias: ele quer que seu nome seja lembrado muitos anos depois, que sua glória seja imortal. A maior guerra que o mundo veria está pra começar...

Ok, então o roteirista David Benioff resolveu trabalhar livremente, sem se prender muito à Ilíada. Isso não traz prejuízos, só uma visão diferente: ao eliminar a presença dos deuses, deixando que eles só sejam citados, mais como crença do que como fato, ele dá alguma "realidade" ao filme, humanizando mais os acontecimentos da guerra. Claro, essa realidade é entre aspas, porque mesmo não havendo aparições das divindades, há toda uma romantização hollywoodiana, que nem é tão boa assim.

Mas Tróia não decepciona, ou não decepciona completamente. Todos os seus clichês de superprodução funcionam, ou quase todos. Os figurinos lembram muito os velhos épicos norte-americanos, dando um clima legal. A fotografia e a direção de arte também não deixam a desejar. Já a direção de Wolfgang Petersen é bem acertada: embora não muito criativo, ele não exagera em nenhuma parte (particularmente, gostei das lutas no mano a mano, bem filmadas). Aliás, é interessante ver o tratamento que o diretor dá a Aquiles com sua câmera - simplesmente constrói toda a figura do herói na imagem de Brad Pitt, não só pra fazer as menininhas da platéia delirarem, mas pra dar sua visão do personagem. Provavelmente, o maior acerto do diretor, e ele faz algo parecido com a Helena de Diane Kruger, embora em menor escala, já que ela não tem tanto tempo na tela.

Mas parece que só visualmente Aquiles e Helena funcionam. Brad Pitt está apagado, maneirista demais, e com expressões faciais fracas. Eu não o considero um ator ruim, ao contrário da maioria das pessoas, mas parece que, com um papel desses, ele se perdeu. Não está mal, mas falta algo. Melhor que Orlando Bloom, ao menos, que atua mais uma vez mediocremente, e com um personagem desses, só parece mais apático ainda. Embora tenhamos um bom Peter O'Toole (o que não é novidade) e um ótimo Sean Bean como coadjuvantes, o elenco se sai bem abaixo do nível que um filme desses exige. Eric Bana, esse sim, demonstra talento, sendo provavelmente o melhor ator do filme. Heitor, acredito, é até menos profundo que Aquiles ou Páris, mas Bana imprime carisma e força nele, e o faz de maneira bem satisfatória.

No entanto, dói um pouco ver que a pretensão de todo mundo envolvido era mesmo faturar: o filme acaba, você até sai feliz, mas só. Tudo bem, supera fácil o já citado Gladiador, só que é tão certinho dentro do que se propõe, que dá a impressão de ser só mais uma produção esquecível. A trilha sonora de Horner, tão previsível, contribui, e muito, pra isso. Mas acho que o problema é mais profundo. Enfim, melhor não reclamar: se fosse um longa com muitas ambições, como parecia ser no trailer, teria sido muito pior. Ou não.




Cotação: 52/100
Friday, May 14, 2004
 
Van Helsing - O Caçador De Monstros(Van Helsing, 2004)


Dirigido por: Stephen Sommers
Com: Hugh Jackman, Kate Beckinsale, Richard Roxburgh, David Wenham, Will Kemp, Shuler Hensley, Kevin J. O'Connor, Elena Anaya, Josie Maran, Silvia Colloca

Monstros: o cinema americano sempre foi ligado a eles. Ao menos, o antigo cinema americano. Mas eles foram uma vez bastante populares, e filmes e mais filmes foram feitos, principalmente sobre o trio Lobisomem-Frankenstein-Drácula, todos personagens da Universal Studios. Pra qualquer fã dos feiosos, um filme que reúne os três seria um sonho, não? Bem, não sou fã, mas acho que posso dizer que Van Helsing não deve ter preenchido as expectativas de quem é.

Stephen Sommers. Ah, sim, o diretor de A Múmia. Ele é o homem por trás do projeto, dirigiu e assinou o roteiro. Já disse uma vez que gostaria de fazer um filme onde tudo que estaríamos vendo seria uma conversa entre duas pessoas numa praia, ou coisa assim. "Mas não seria legal se, no meio disso, uns monstros chegassem e destruíssem tudo?". Quebra um pouco a expectativa ouvir isso, não? Sommers não esconde sua paixão pelo estilo de cinema de superproduções. Não gosto de uma coisa sobre isso: nunca sabemos quando o diretor está levando a coisa a sério e quando não está.

Nesse longa, temos Van Helsing (Hugh Jackman), um caçador de monstros. Claro, o título no Brasil entrega isso. Ele deve fazer o trabalho de Deus, ou alguma coisa do tipo, sendo manipulado pelo Vaticano. Legal, uma espécie de Homem-Aranha daquela época. Ou melhor, Batman, porque é incrível a quantidade de equipamentos cool que o cara tem, lembrando bastante o morcego. Enfim, junto com seu amigo Carl (David Wenham), ele é enviado pra Transilvânia, onde deve ajudar Anna Valerious (Kate Beckinsale) a matar o Conde Drácula (Richard Roxburgh) e acabar com a maldição da família da moça, que não passaria pelos portões de São Pedro, aqueles que guardam o Céu, caso o vampiro não fosse assassinado.

Certo. A cena inicial de Van Helsing, em preto-e-branco, faz parecer que o que temos pela frente é realmente um bom filme: uma homenagem mais sincera que todo o resto do longa aos antigos filmes sobre monstros. Infelizmente, Sommers parece ter usado toda sua inspiração logo aí, e essa é a melhor cena que tem pra nos apresentar. Depois, tudo que vemos são efeitos especiais incríveis, e uma história que tem pouco a dizer. Aliás, como filme que reúne a trindade de ouro dos filmes de terror, muita coisa é desperdiçada. O único bem desenvolvido é Drácula, e suas noivas.

Que, na minha modesta opinião, não ficaram legais. As atuações são bem forçadas, a ponto de irritar. As noivas do Drácula que o digam, berrando e berrando sem razão aparente. O próprio vilão é tão afetado, tão bobo, que prejudica bastante quem quer torcer pelo bad guy. De fato, ficamos sem ter pra quem torcer, porque Van Helsing é interpretado por um Hugh Jackman apático, bem diferente daquele que nos acostumamos a ver. Kate Beckinsale...é Kate Beckinsale. Nesse, ela nem atrapalha tanto, talvez por estar cercada de gente que faça isso por ela. A melhor atuação acaba sendo de David Wenham, o Faramir de O Senhor dos Anéis, que mesmo com um texto fraco, consegue cativar - não muito, mas o suficiente pra que eu me importasse com ele.

O romance entre Anna e o protagonista parece só atrasar as coisas, além de ser clichê em quase todos os seus momentos. O roteiro de Sommers, bem como sua direção, só privilegia as partes que parecem pré-fabricadas pra fazer o espectador saltar da cadeira. E falha nisso. Mr. Hyde é jogado fora numa seqüência boba, e nada feito com o Lobisomem desperta algo além de "legal, hein". Van Helsing acaba parecendo vazio, fraco, looooongo. Só vamos esperar que não vire uma franquia, porque as coisas costumam piorar nas continuações...




Cotação: 37/100
Tuesday, May 11, 2004
 
Diários de Motocicleta(2004)


Dirigido por: Walter Salles
Com: Gael García Bernal, Rodrigo de la Serna, Mía Maestro, Susana Lanteri, Mercedes Morán

Embora Diários de Motocicleta não esteja exatamente fazendo um discurso político, é de se admirar que finalmente se faça um filme falando de um revolucionário latino-americano. Tudo bem, é estranho ver escrito nos créditos finais de um filme desses algo como "produtor ejecutivo: Robert Redford". Mas em tempos de gente sem terra em seu próprio país, é louvável que alguém se preocupe em retratar uma parte que seja da vida de uma pessoa como Che Guevara - o real, não o que é vendido em camisetas.

Baseado nos diários que Ernesto Guevara de la Serna, o "Che" (ou "El Fuser", como você ouvirá bastante durante o longa), escreveu durante sua viagem pela América do Sul, Diários de Motocicleta esteve em Sundance e participará do Festival de Cannes. O filme é dirigido por Walter Salles, do indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro Central do Brasil, e já tem site americano especulando que agora Salles poderá receber uma indicação na categoria de diretores. O que é estranho: os americanos são extremamente paranóicos em relação a Guevara. Comprovei isso dando uma olhadinha na página do filme no IMDB, e lá as coisas quase ficaram feias.

Mas como já disse, não é um discurso político, nada do tipo "vamos-ser-comunistas-e-tudo-ficará-bem". Nada mais é do que a história de Ernesto (Gael García Bernal) e Alberto Granado (Rodrigo de la Serna), dois amigos que resolvem percorrer uma boa parte da América do Sul, na companhia da simpática motocicleta de nome La Poderosa, partindo de Buenos Aires, na Argentina, e indo até San Pablo, no Peru, onde fica o leprosário que pretendem visitar.

Narrado como uma "aventura na estrada", de uma maneira parecida com Central do Brasil, o filme tem um desenvolvimento muito interessante e devo dizer que nos primeiros momentos não esperava muito dele. É que Salles gosta, ou parece gostar, de que vejamos as coisas do ponto de vista dos seus personagens. Assim, no início, diversão e algumas boas risadas são quase garantidas. Mas é só Ernesto começar a prestar mais atenção no povo, e a nossa visão de toda aquela terra é aprofundada. O ritmo é ótimo, sem reclamações aqui.

Não há como negar que o diretor se aperfeiçoe cada vez mais tecnicamente. Em Diários de Motocicleta, várias tomadas de Salles são verdadeiras pinturas, que não só denunciam a pobreza, a tal "gente sem terra em seu próprio país" citada previamente, como também exibem a riqueza natural americana. Fotografia digna de nota. Ainda há o roteiro que ajuda bastante, sem forçar, sem choros compulsivos, sem exageros que prejudiquem. Os diálogos são leves, ainda bem (aliás, sou só eu que penso assim, ou o castelhano é uma língua maravilhosa, mesmo nos seus palavrões?). Com tudo isso, a duração parece ser bem menor, e as coisas fluem agradavelmente.

Gael García Bernal está ótimo. Sua interpretação é acertadíssima, em momento algum soando falsa. Ah, aqueles ataques de asma...A escolha do ator pro papel foi muito bem pensada, justamente por se tratar de um filme onde tudo é visto através de seus olhos; seu Guevara passa da ingenuidade pra indignação contida, numa mudança bem real. A química com Rodrigo de la Serna é muito boa, e deve ser levado em conta também o talento deste, cujo personagem rouba muitas cenas, sendo extremamente carismático e trazendo um tom de humor que se mostra bastante necessário.

Maduro, bonito e exalando um espírito latino raro no cinema - isso é, ao menos pra mim é raro -, Diários de Motocicleta ainda é fechado de um jeito sublime, com imagens do verdadeiro Alberto Granado, vivo até hoje. Tá certo, toda crítica tem mencionado isso, mas vou fazer o quê? É bem legal mesmo, assim como as fotos reais colocadas nos créditos finais. Dá pra ver o cuidado com a caracterização física dos atores. Belo filme.




Cotação: 75/100
Saturday, May 08, 2004
 
Donnie Darko(2001)


Dirigido por: Richard Kelly
Com: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Drew Barrymore, Mary McDonnell, Holmes Osborne, Katharine Ross, Patrick Swayze, Noah Wyle, James Duval, Maggie Gyllenhaal

"And I find it kinda funny, I find it kinda sad: the dreams in which I'm dying are the best I've ever had"
(Gary Jules - Mad World)

Filme independente de 2001, que chegou discretamente no Brasil direto em DVD pela Flashstar, ano passado, Donnie Darko era uma das produções das quais eu mais ouvia falar. Mas justamente por ser tão pequeno, pensava que jamais encontraria na locadora que freqüento. Tudo bem, eu achava que me decepcionaria, não importava muito. De qualquer maneira, quando encontrei o DVD, não resisti. E depois de vê-lo, tudo que resumiria minhas sensações em relação ao filme é a palavra "uau". Isso, apenas uau.

Mas como esse é um blog de cinema com críticas bem chatas e longas (pelo menos eu tento fazê-las assim, acho que funciona), nada de resumir. Donnie Darko, intepretado por um inspirado Jake Gyllenhaal, é um garoto que supostamente sofre de problemas mentais sérios, mas que estão sendo tratados. Ele conhece um coelho gigante de nome Frank (James Duval), que diz a ele que o mundo acabará em 28 dias. Ao mesmo tempo, algo estranho acontece na residência dos Darko: uma turbina de avião atinge o quarto de Donnie, que não estava lá. Mas não havia um aeroplano no céu naquele momento. E, cada dia mais perto do tal apocalipse previsto por Frank, a vida do garoto vai tomando caminhos...Peculiares. O fim se aproxima, enquanto se acumulam ocorrências inexplicáveis envolvendo uma Vovó Morte, alagamentos na escola, Michael Dukakis, viagens no tempo e um filme de Sam Raimi.

Richard Kelly, diretor estreante, que também escreveu o roteiro, explora cada aspecto da história que tem em mãos: desde a estranheza da adolescência, até a estranheza da tal viagem no tempo. Kelly cria uma atmosfera sombria, mas de maneira natural, sem descaracterizar sua cidade pequena. A escolha da Era Reagan para uma história dessas pode parecer inútil, mas tem a sua importância e foi acertada. Aliás, por mais que a sinopse acima seja esquisita, o filme é construído de um jeito em que tudo aquilo não seja a coisa mais esquisita do mundo. Não exatamente aceitável, mas entende-se a confusão de Donnie. Inclusive, há quem se identifique com ele - e não são poucas pessoas.

Kelly cria imagens lindas, poderosas, mas nem precisa fazer muito esforço. Até porque seus efeitos especiais não são grande coisa, obviamente pelo baixo orçamento de filme independente. Ainda assim, a seqüência de abertura é ótima, por exemplo. Outra coisa que merece lembrança é a trilha sonora. Linda, tem Tears For Fears, Echo & The Bunnymen, Duran Duran, a música citada lá em cima, etc. E é também muito bem usada pelo diretor.

Gyllenhaal se sai incrível no papel principal. Seu Donnie, que parece meio sonolento e perturbado, acrescenta muito à qualidade do filme. Outros atores também são bem aproveitados: Patrick Swayze não está nada que possa ser chamado de excelente, mas ruim muito menos. Jena Malone e Mary McDonnell, como as duas garotas da vida de Darko, essas sim, dignas de muitos elogios. Suas personagens são pontos diferentes na trajetória do garoto, e elas cumprem muito bem essa função, ajudando a enxergar ainda mais o esforço de Donnie em ir em frente.

É até difícil falar de um filme como Donnie Darko. Ele mesmo pode ser considerado como pertencente a vários gêneros: suspense, drama, família, religião, anos 80, política, adolescente, etc. Não sei, ainda não consegui elaborar frases que expressem o que eu de fato senti ao vê-lo. Sabe aquela masturbação filosófica que seus amigos chatos fazem com Matrix? Fazer com Donnie Darko é bem mais legal. Tudo que posso, ou melhor, consigo dizer é que é uma das experiências mais espetaculares que já tive.




Cotação: 93/100
Saturday, May 01, 2004
 
Como Se Fosse A Primeira Vez(50 First Dates, 2004)


Dirigido por: Peter Segal
Com: Adam Sandler, Drew Barrymore, Rob Schneider, Sean Astin, Dan Aykroyd, Amy Hill, Missi Pyle, Blake Clark, Luisa Strus

"Wouldn't it be nice if we were older?/Then we wouldn't have to wait so long/And wouldn't it be nice to live together/In the kind of world where we belong?"
(Beach Boys - Wouldn't It Be Nice)

Adam Sandler sempre teve um humor estranho. Quando fazia parte do elenco de Saturday Night Live, ele alternava momentos ótimos como a "canção do suéter vermelho", na qual conseguiu até a participação de Paul e Linda McCartney, e momentos constrangedores, onde tentava arrancar gargalhadas colocando uma colher na testa e botava a língua de fora diversas vezes durante o mesmo quadro. Ainda assim, nunca desgostei dele, embora seja claro pra qualquer um que o comediante nunca se deu tão bem assim fazendo filmes.

Como Se Fosse A Primeira vez, comédia romântica que não é a primeira produção a trazer Sandler e Drew Barrymore juntos (eles estrelaram Afinados no Amor, em 98), explora um tema incomum no gênero, mas comum hoje em dia no cinema americano: a perda de memória, ou doenças que envolvam-na. Já comentei aqui Amnésia e Procurando Nemo, e ambos abordam o assunto de um jeito ótimo, cada um à sua maneira. Mas será que havia necessidade de se fazer uma comédia romântica tratando disso também? Quer dizer...O que de interessante e/ou diferente um filme do estilo traria dentro de uma proposta dessas?

Henry Roth (Adam Sandler) é um veterinário no Havaí. Ele costuma levar pra cama uma turista diferente toda semana, nunca assumindo um compromisso com elas, e dando as desculpas mais absurdas pra pular fora dos relacionamentos. Até encontrar uma conterrânea, Lucy Whitmore (Drew Barrymore), que o atrai de uma maneira diferente. Seu amigo Ula (Rob Schneider) não aprova que ele fique com uma só. O pai (Blake Clark) e o irmão (Sean Astin) da moça não aprovam o namoro também, mas por outro motivo: Lucy sofreu um acidente, e, desde então, sua memória só dura o tempo de mais ou menos 24 horas. Todas as manhãs, ela acorda pensando que o que tem pela frente é o domingo do aniversário de seu pai, dia no qual bateu a cabeça e ficou assim, quando na verdade já se passou um ano. Sua família tem de todo dia repetir as mesmas ações, pra que a moça não sofra. É claro que há dias em que Lucy descobre a verdade, mas não importa: amanhã, ela já esqueceu.

É meio arriscado um romance falar sobre isso, porque, a não ser que ele faça a coisa de uma maneira madura, é um grande desperdício. Sim, porque, ao menos pra mim, o plot parece intrigante. Mas o que se vê é algo que pode ser considerado qualquer coisa, exceto maduro. É a comédia de Adam Sandler, somada ao humor de Rob Schneider. O que resulta em piadas que não deveriam estar em um filme de censura livre (piadas essas que envolvem maconha e o tamanho do pênis de alguns mamíferos). Porém, há de se dizer que Schneider e Sandler parecem levar a coisa tão infantilmente, que a censura se justifica. Eles nunca fazem a coisa de maneira pesada, apesar de que, ainda assim, ela é grosseira.

Schneider já mostrou, no SNL do início dos anos 90, que quando contido, é bem melhor. Quando deixam, ele escracha e fica aquela coisa "pastelão-bizarra", que só agrada a americanos mesmo, e uma parcela não tão grande assim deles. Aqui, pra nós, acho difícil o filme funcionar como comédia. Eu assisti a Como Se Fosse... numa sala preenchida principalmente por adolescentes, e pensava, talvez por preconceito, que iria ouvir risadas histéricas durante toda a projeção. O que vi, no entanto, foram alguns sorrisos amarelos e forçados.

Já como romance...É aí que a produção conquista o público, mesmo que de uma maneira pouco satisfatória. Barrymore não faz nada demais, mas com seu jeitinho de garota meiga, faz com que alguma pena, ao menos, se sinta dela. Bem mais "oh-so-cute" que os animais do filme, usados claramente pra dar ao humor um tom mais leve (embora isso seja questionável pra qualquer um que veja a cena em que um deles vomita). É o relacionamento adoçado (às vezes em excesso) entre ela e Sandler que dá algum brilho à trama.

O roteiro, do estreante George Wing, não ajuda. É fraco, piegas, cheio de personagens implorando por risadas (Sean Astin? Tsc, tsc, tsc), etc, etc. Até a música dos Beach Boys não é tão bem usada assim. Porém, há o fato positivo de você acabar parecendo com a personagem de Barrymore: um dia depois, você já esqueceu de que assistiu isso aí. É bem assim que funciona.




Cotação: 31/100

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