Cine Estranho
Monday, June 28, 2004
Assim, esse não é beeeem o que você pode chamar de um blog pessoal, nem eu sou uma pessoa que pode ser considerada sensível, sabe. Mas tenho que admitir: a versão de Ben Folds para Golden Slumbers, da trilha sonora de I Am Sam, trazem-me lágrimas aos olhos.
Hm, sim, é só isso.
Saturday, June 26, 2004
O Dia Depois de Amanhã(The Day After Tomorrow, 2004)

Dirigido por: Roland Emmerich
Com: Dennis Quaid, Jake Gyllenhaal, Sela Ward, Ian Holm, Emmy Rossum, Dash Mihok, Kenneth Welsh, Austin Nichols, Jay O. Sanders, Perry King, Nestor Serrano, Adrian Lester, Sheila McCarthy, Glenn Plummer, Tamlyn Tomita
Detesto ser o último a comentar um filme, mas a verdade é que eu não estava com a mínima vontade de ver O Dia Depois de Amanhã, o filme mais recente de Roland Emmerich, que dirigiu, entre outros longas, O Patriota, Independence Day e Godzilla. Nada, absolutamente nada me parecia encorajador nos trailers, nem mesmo a presença de Jake Gyllenhaal, ator que passei a admirar depois do ótimo Donnie Darko, do diretor Richard Kelly. Até que começaram a sair as críticas e, surpresa, nem todas eram negativas.
Achei muito estranho isso. Quer dizer, é claro que existe gente que adora filmes-catástrofe, cada um deles, mas a maior parte da crítica sempre torceu o nariz pra esse tipo de produção. "Tem alguma coisa aí", pensei. Mas o tempo passou (bem, não muito tempo, um mês mais ou menos), e adiei vê-lo enquanto pude. Simplesmente não estava na minha lista de prioridades, e quando se vai tão pouco ao cinema, isso até tem alguma importância. Até que veio a oportunidade: depois de um desencontro com uns amigos com quem tinha marcado de ver Shrek 2, resolvi me aventurar nesse aí.
O aquecimento global começa a derreter as calotas polares e, com isso, uma nova "Era do Gelo" está pra começar. Jack Hall (Dennis Quaid) é um paleoclimatologista que avisa o vice-presidente dos Estados Unidos (Kenneth Welsh, muito parecido com adivinha quem? Sim, Dick Cheney) dos perigos que os danos ao meio ambiente, muitos deles causados sob a proteção da política do país, podem trazer. Como resposta, tudo que Hall recebe é uma palestra sobre a economia norte-americana e como ela não pode ser prejudicada. O filho de Jack, Sam (Jake Gyllenhaal), e seus amigos estão em Manhattan por causa de uma competição acadêmica, enquanto o cientista escocês Terry Rapson (Ian Holm) avisa Hall que tudo que ele havia previsto já começou a acontecer, e as primeiras vítimas seriam todos aqueles que estão no Hemisfério Norte - inclusive quem está em Nova York...
Ufa. Ok, então temos o ambiente perfeito pra um tal filme-catástrofe: vários personagens, protagonistas heróicos, dramas familiares, tudo que você já viu antes em algum filme onde um desastre ocorria. Me pergunto o porquê disso, aliás. Será que todos esses clichês estão em algum livro secreto pra diretores, no capítulo "Como Enrolar Se Você Tem Um Orçamento Grande, Mas A História Que Tem Em Mãos Não Preenche Um Longa-Metragem"? Piadas sem graça à parte, vale dizer que isso é usado como bengala por O Dia Depois de Amanhã. Quer dizer, quando não há mais ao que recorrer, recorre-se então às pequenas historinhas de gente que vai/pode perder a vida na catástofre que se aproxima.
Tudo bem, então dessa vez Roland Emmerich resolveu usar furacões, tornados e outros tipos de terrores vindos do descontrole da natureza. Isso pra voltar a fazer cenas de destruição, aquelas que são as responsáveis pela existência de pessoas que vão ao cinema só pra ver desastres. No entanto, há de se reconhecer que alguma coisa diferente acontece em O Dia Depois de Amanhã: na cena em que tornados destróem Los Angeles, por exemplo, é passada a sensação de que uma coisa realmente assustadora está sendo mostrada. Não, não é só por causa dos efeitos especiais (eles tão lá também, ótimos como sempre), mas o trabalho com a câmera, feito do ponto de vista do chão, é interessante. Sem contar que, no fundo, é legal pra caramba ver uma metrópole engolida por uma onda gigante, como acontece na Nova York do filme.
E o discurso político? Que discurso político? Talvez até haja a intenção de se alfinetar os Estados Unidos, seja pelo vice-presidente cabeça-dura, seja pelos americanos tentando cruzar a fronteira e perdoando a dívida externa dos países latinos. Mas que isso soa superficial e oportunista durante todo o longa, não tenho dúvidas. Até porque em nenhum momento somos levados a ver como estão as coisas em outro lugar, como a Europa - bem, tirando as poucas seqüências com a turma de Ian Holm, que são nada perto do que se passa na terra do Tio Sam. Talvez tenhamos alguma propaganda ambientalista, mas só isso.
Não há nada muito profundo, nada que seja relevante de fato na produção. É um filme sobre milhões de pessoas morrendo, como muitos que existem e são feitos todos os anos em Hollywood. O negócio é que não é tão bobo quanto, sei lá, Impacto Profundo, um dos filmes que mais me arrependo de ter gastado tempo assistindo. Seus clichês e até sua previsibilidade são melhores trabalhados. Um ótimo filme-catástrofe, embora isso não signifique muita coisa. Só que, enquanto não temos feijão, eu prefiro comer arroz bom do que arroz ruim.

Cotação: 48/100
Sunday, June 20, 2004
Chinatown(1974)

Dirigido por: Roman Polanski
Com: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, John Hillerman, Burt Young, Perry Lopez, Diane Ladd, Darrell Zwerling, Roy Jenson, Joe Mantell, Bruce Glover, Richard Bakalyan, James Hong, Beulah Quo, Jerry Fujikawa, Roy Roberts, Noble Willingham, Rance Howard
Indicado a: 7 Golden Globe Awards (Melhor Filme de Drama*, Melhor Ator de Drama para Jack Nicholson*, Melhor Atriz de Drama para Faye Dunaway, Melhor Ator Coadjuvante para John Huston, Melhor Trilha Sonora para Jerry Goldsmith, Melhor Diretor para Roman Polanski*, Melhor Roteiro para Robert Towne*) 11 Oscars (Melhor Filme, Melhor Ator para Jack Nicholson, Melhor Atriz para Faye Dunaway, Melhor Direção de Arte, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Som, Melhor Trilha Sonora para Jerry Goldsmith, Melhor Diretor para Roman Polanski, Melhor Roteiro Original para Robert Towne*)
Com muita vergonha, admito que conheço pouquíssimo da filmografia de Roman Polanski. Dizem que é um gênio. Se é o caso, fico feliz por ele ter sido reconhecido recentemente pela Academia, com o Oscar de diretor por O Pianista, apesar de toda a confusão, dele não poder entrar nos Estados Unidos pra receber o prêmio - seu nome estava envolvido com pedofilia por aqueles lados, acho. Sei lá, não saber exatamente o que se passou só confirma a minha ignorância em relação a ele.
No entanto, faz algum tempo que despertou em mim alguma vontade de mudar isso. Sempre que ouço dizer que alguém é um gênio, é o mínimo que acontece, me dar essa vontade. E achei que Chinatown era um bom começo: o filme foi indicado a inúmeros prêmios (chegou a "roubar" o Golden Globe de O Poderoso Chefão 2), Los Angeles - Cidade Proibida sempre foi comparado com ele, e ainda tinha Jack Nicholson, um dos meus atores favoritos.
Nicholson, em um dos seus primeiros papéis realmente importantes, interpreta J.J. Gittes, um detetive particular, contratado por alguém se passando por Evelyn Mulwray (Faye Dunaway), com a missão de investigar seu marido, Hollis Mulwray, que supostamente cometia adultério. Aos poucos, Gittes se dá conta que Hollis está envolvido em algo muito maior: alguém está comprando terrenos secos baratos, cedendo água para eles, e depois revendendo por milhões de dólares, enquanto a cidade de Los Angeles se torna desértica.
Bom, toda a introdução tosca (os dois primeiros parágrafos) foram só pra explicar que eu não saberia de que maneira comentar Chinatown. Quer dizer...O filme é complexo, mas não é nem por isso. É que, em Chinatown, há um desenvolvimento lento da trama, bastante natural e ajustado, que é construído tão perfeitamente que não cansa. Por conhecer tão pouco de Polanski, eu não sei dizer se isso é característica dele ou se foi o excelente roteiro vencedor do Oscar, escrito por Robert Towne, que fez com que as coisas ficassem como ficaram. De qualquer jeito, é de se admirar a coragem que alguém tem de filmar assim em Hollywood, onde o público é tão impaciente. Imagino que a cena onde J.J. Gittes cantarola The Way You Look Tonight deve ter deixado o público de lá se contorcendo na cadeira, esperando alguma "emoção" (obviamente entre aspas, isso é muito relativo), que não viria.
Água e poder em Los Angeles, que belo tema de se trabalhar. No entanto, muitos filmes policiais, especialmente nos anos 90, tinham temas maravilhosos e estavam abaixo de serem simplesmente medíocres. O que diferencia Chinatown é, em primeiro lugar, o excelente roteiro de Robert Towne. É composto de diversas, digamos, camadas, que são descobertas pelo espectador, sem nunca forçar nem querer causar aquelas grandes surpresas que sempre surgem pra salvar um filme do seu destino patético. Confiar na inteligência de quem vê, tá aí uma lição preciosa que é sempre ignorada.
Towne entrega a Polanski personagens muito marcantes, cada um a sua maneira, pra serem trabalhados. J.J. Gittes está pra filmes noir como Pelé pro futebol, porque é o protagonista completo. Durão, insistente, realista, não deixa de ser sensível aos problemas dos outros e até romântico em certas ocasiões. Com texto escrito especialmente pra ser dito por ele, Jack Nicholson se mostra mais do que versátil, além de absurdamente carismático. Mas não há nem como dizer que o público deixa de se identificar com Evelyn, pois Faye Dunaway também é muito talentosa, e os acontecimentos mostram-na muito mais forte do que se imagina. Por fim, John Huston como Noah Cross é um grande vilão, tem motivações compreensíveis e, mesmo não tendo tanto tempo na tela, tem algum conflito profundo. "A maioria das pessoas não reconhece que, no lugar certo e na hora certa, são capazes de qualquer coisa", ele chega a dizer.
Minha intenção não era falar muito sobre o longa, porque sabia que não conseguiria ressaltar as coisas que realmente importam nele. Com uma direção espetacular de Roman Polanski (será que é justo mesmo dizer que, anos mais tarde, ela inspiraria a de Curtis Hanson em Los Angeles - Cidade Proibida? As duas são geniais, mas não se parecem tanto), Chinatown é único, original e bastante esperto. Meu tipo de filme.

Cotação: 92/100
Tuesday, June 15, 2004
Cazuza - O Tempo Não Pára(2004)

Dirigido por: Sandra Werneck e Walter Carvalho
Com: Daniel de Oliveira, Andréa Beltrão, Cadu Fávero, Marieta Severo, Reginaldo Faria, Débora Falabella, André Gonçalves, Leandra Leal, Emílio de Mello
"Dias sim/Dias não/Eu vou sobrevivendo sem um arranhão/Da caridade/De quem me detesta"
(Cazuza - O Tempo Não Pára)
Durante a sessão que peguei de Cazuza - O Tempo Não Pára, filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho, que narra a trajetória de um dos cantores brasileiros mais populares dos anos 80, me encontrei refletindo sobre uma teoria meio boba: "filmes baseados em histórias reais recentes não dão muito certo". É até meio estúpido pensar assim, já que é só usar a rolagem aí pra descobrir o quanto gostei de O Informante, de Michael Mann, que envolvia acontecimentos, digamos, fresquinhos.
Acontece que o que me levou a pensar assim foi o próprio Cazuza (o filme, não a pessoa). Por muitas vezes, ele tenta ser livre, tenta ir um pouco mais além da simples exibição do mito. Só que talvez por Frejat ainda estar na mídia, talvez pelo fato do Brasil (ainda) não ter esquecido do artista que dá título ao longa, talvez por ter sido algo que parece que aconteceu ontem, ou talvez simplesmente por ser um filme da Globo Filmes, tudo fica lá, na superfície. Dei tantos motivos pra isso porque é injusto dizer que Mann teve "mais peito" que Werneck e Carvalho: estes últimos apenas tinham uma tolerância menor pra trabalharem.
Ok. O que se passa, todos sabemos (acredito eu): Cazuza (Daniel de Oliveira) é um garoto carioca, cheio de amigos, que começa a fazer sucesso com sua banda, o Barão Vermelho. Por ter crescido nos anos da ditadura no Brasil, ele quer se libertar, seja através das drogas, do sexo ou do rock 'n roll. Mas o rapaz não consegue se encontrar, pra desespero dos seus pais (Marieta Severo e Reginaldo Faria). Depois de contrair um vírus do qual ainda pouco se sabia, Cazuza se sente preso e cheio de restrições, e inicia-se então a decadência lenta e, simultaneamente, meteórica, de um ídolo.
Cazuza - O Tempo Não Pára não se arrisca a explicar a infância do cantor e letrista. Se por um lado, isso é bom, já que seria idiota tentar encontrar uma razão pra tudo ter ocorrido como ocorreu, por outro, não sei. Não seria essa mais uma tentativa de evitar problemas com os fãs? Seja lá o que for, os fãs ganham, porque retrata-se então o período mais interessante e conhecido dessa vida - claro que alguns fatos importantes não estão lá, mas falemos disso mais pra frente.
Por enquanto, vamos apelar pra o que já foi dito mil vezes: Daniel de Oliveira dá um show. Ótima atuação. Ao mesmo tempo que encarna um personagem real, Daniel cria seu próprio Cazuza. Seus vícios, seus gestos, eles não só desenterram a lenda, eles também constróem algo inédito, algo novo. Marieta Severo e Reginaldo Faria também se saem bem, embora tenham poucas chances de demonstrar seu talento, porque tudo gira de fato em torno de Daniel. Cadu Fávero, como Frejat, é outro bom ator, num papel não tão fácil assim (não é nenhum Salieri, mas há uma certa ambigüidade de sentimentos em relação a Cazuza).
Mas como um filme sobre esse cara não fala sobre Ney Matogrosso, ou sobre a entrevista à Marília Gabriela onde ele confessou ter AIDS? Pois é, são só algumas das coisas que foram esquecidas. O filme se mantém muito certinho, sem explorar aspectos da vida de Cazuza que ainda não foram explorados. É uma história que muita gente já conhece, recontada, agora no cinema. Embora os diretores tentem se libertar dos grilhões da obviedade, convenhamos que uma cena de homossexualismo aqui, uma cena de usuários de drogas ali, um filho xingando a mãe acolá, não constituem um estudo do homem. O roteiro, recheado de diálogos fracos querendo soar grandes, é basicamente feito disso.
Só que, apesar dessas falhas graves, não é um filme ruim. Tem mais acertos do que erros, porque, como diversão, funciona. O ritmo frenético do início (as coisas acontecem muito, muito rápido) não é exatamente ruim, embora, depois que o filme bota o pé no freio, pareça deslocado. Como cinebiografia, não é nada inovador mesmo. Só que, ao escrever isso, me pego tentando lembrar de alguma cinebiografia que fosse, e são poucas. Por fim, é algo pra fã: é até legal ver tanta gente cantarolando baixinho, e o longa investe bem na excelente discografia de Cazuza. Poderia ter sido melhor, mas está acima do que eu esperava.

Cotação: 53/100
Saturday, June 12, 2004
Então, eu tinha prometido melhorar, e ia começar postando um review de Chinatown, do Polanski, que não, nunca assisti. Mas aí...Sabe quando você tem tanta coisa pra fazer, que até esquece que tinha alugado filme? Então, vou ter que alugar de novo alguma outra vez. Enfim.
Só pra não deixar isso aqui às moscas, e só porque eu achei engraçado:
"It's the biggest overreaction since Joe Pesci shot Spider in GoodFellas"
Ou em português claro:
"É a reação mais exagerada desde que Joe Pesci atirou no Spider em Os Bons Companheiros"
(Colin Quinn, do Saturday Night Live, falando sobre a possibilidade de Bill Clinton sofrer um impeachment por causa de suas...relações com uma estagiária)
Monday, June 07, 2004
Caramba, que falta de atualização por aqui. Bom, depois do feriado, prometo tentar melhorar.
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban(Harry Potter and The Prisoner of Azkaban, 2004)

Dirigido por: Alfonso Cuarón
Com: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Maggie Smith, Alan Rickman, Warwick Davis, Miriam Margolyes, Kenneth Branagh, David Thewlis, Robbie Coltrane, John Cleese, Gary Oldman
Ok, então, eu nunca li um livro do bruxo adolescente mais famoso do mundo. Mas sempre ouvi falar que o terceiro da série escrita pela britânica J.K. Rowling era o melhor e, bem, ao menos o preferido de boa parte dos fãs ele é. Harry Potter acabou fazendo bastante barulho no cinema também, com os lançamentos de A Pedra Filosofal e A Câmara Secreta, em 2001 e 2002, respectivamente. Portanto, ficou difícil pra eu continuar, digamos, ignorando o fenômeno apelidado de "Pottermania".
Porém, sempre achei os dois primeiros filmes fracos. Chris Columbus não está entre meus diretores favoritos, muito pelo contrário, e deve ser uma tarefa dificílima produzir algo interessante e criativo quando você sabe que há milhões de pessoas rezando pra que o filme seja o mais fiel possível ao livro em que é baseado, e pior ainda se uma dessas pessoas for a própria escritora dele. Sim, mas não é impossível: Peter Jackson fez algo maravilhoso com sua trilogia O Senhor dos Anéis, e devem existir outros exemplos. Sim, até assistir O Prisioneiro de Azkaban, a tal Pottermania ainda era estranha demais pra mim, já que não via nada demais ali.
Nesse terceiro filme, Columbus resolveu ficar só como produtor, e dar a chance de uma vida pra Alfonso Cuarón, já conhecido por trabalhos como A Princesinha e E Sua Mãe Também. Seria ele então o diretor, e, quando fiquei sabendo, gostei. Em O Prisioneiro de Azkaban, Cuarón pegaria o universo já apresentado por Columbus e iria em frente, contando agora a história de Sirius Black (Gary Oldman), um perigoso bruxo que, foragido, está à procura de Harry Potter (Daniel Radcliffe), pra que possa terminar o que começou há vários anos atrás, quando matou os pais do garoto.
As coisas mudaram, acho que isso fica bastante claro pra qualquer um que tenha visto os anteriores e vá conferir esse aqui. Pra começo de conversa, tudo está mais sombrio, só que agora sombrio de verdade (digo isso porque era o que comentavam de A Câmara Secreta, mas todos sabemos que ele não era muito diferente de A Pedra Filosofal): não há mais, ainda bem, aquele clima de fascinação por Hogwarts e tudo o que envolve os bruxos. Talvez por já ser a terceira parte, e já no livro era assim, ou talvez porque Cuarón simplesmente sabia que isso não funcionaria novamente.
O que temos aqui é um filme de personagens, apoiado neles e só neles - sim, lá estão efeitos especiais, direção de arte caprichada, etc. e tal, mas não é nada como o mundo um tanto plástico e vazio que Chris Columbus nos exibiu. Aliás, ok, estou sendo injusto: a parte visual do filme é ótima, mas ela acompanha o tom da trama, que é, em grande parte, ditado pelas estranhezas e peculiaridades dos personagens. Exageros? Até vemos alguns, mas são mais sutis. De fato, até John Williams me pareceu menos repetitivo e trouxe uma boa trilha sonora.
E ainda bem, ainda bem mesmo que Alfonso Cuarón soube dirigir seus atores. Porque, se no primeiro filme, era um tanto indigesto ver Radcliffe atuando, aqui nem parece a mesma pessoa. Tá certo, o rapaz tá amadurecendo, mas talvez ainda não estivesse pronto pra carregar todo um filme nas costas (que é o que acontece em Prisioneiro de Azkaban). Não, não, aqui é totalmente diferente: ele está inclusive mais "tridimensional", se é que vocês me entendem, que Rupert Grint e Emma Watson, que, apesar disso, não estão ruins. Gary Oldman, nos pouquíssimos minutos que aparece, mostra porque é brilhante. Atuação digna de Oscar (de ator coadjuvante, claro), mas isso já é outro assunto.
Por fim, talvez seja como A. O. Scott, do New York Times, disse em sua crítica: esse é o primeiro filme do bruxo que parece realmente um filme, em vez de uma leitura do livro com alguns efeitos especiais. Por isso, pode decepcionar quem espera que tudo que Rowling escreveu esteja presente. Muitas coisas ainda podem ser melhoradas, o diretor não parece ter obtido liberdade total, mas há ritmo, ação, diálogos e situações interessantes na medida certa. É um filme divertido, e muito menos raso. Vamos ver o que Mike Newell, que irá dirigir o próximo (Harry Potter e o Cálice de Fogo), fará. Até agora, Azkaban é o melhor - fácil, fácil.

Cotação: 67/100
Tuesday, June 01, 2004
Kill Bill - Vol. 1(2003)

Dirigido por: Quentin Tarantino
Com: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Chiaki Kuriyama, Sonny Chiba, Gordon Liu, David Carradine, Michael Madsen, Daryl Hannah
Indicado a: 1 Golden Globe Award (Melhor Atriz de Drama para Uma Thurman)
"Bang bang, he shot me down/Bang bang, I hit the ground/Bang bang, that awful sound/Bang bang, my baby shot me down"
(Nancy Sinatra - Bang Bang)
Não há nada mais clichê do que começar um texto sobre o primeiro volume da nova história trazida por Quentin Tarantino às telas com uma citação à essa música. Porém, acho que pra quem só teve a oportunidade de ver o filme praticamente um mês depois dele ter estreado no Brasil (sem mencionar quantos meses fazem desde a estréia americana), não é nada tão absurdo. E o pior é que toda essa demora não foi por vontade própria: o longa só abriu aqui pela minha cidade semana passada, com a censura estranha de 18 anos.
Mas não, não é nada que não tenha valido a pena esperar: depois de um bom tempo longe da cadeira de diretor, Tarantino retornou com praticamente tudo que se poderia esperar dele - e um pouco mais. Misturando referências de maneira deliciosa (e não de maneira que quem não sabe do que se trata, se sente perdido), passeando por vários estilos com competência, e jogando com as coisas com seu humor negro de sempre. Da cena inicial, em preto e branco e ao som de uma respiração acelerada, até a cena final, que deixa qualquer um maluco de vontade de voltar aos cinemas (o Volume 2 estréia em Outubro, não?) pra ver como as coisas vão se resolver, Kill Bill é um filme cool. Entenda isso como quiser.
A trama não parece e talvez não seja nada profunda: no dia do seu casamento, a Noiva (Uma Thurman), cujo nome não nos é revelado nessa metade da saga, é atacada por pessoas de um grupo conhecido como Víboras Mortais, do qual ela costumava fazer parte. Só que, ao contrário do que o homem que ordenou tudo isso, um tal de Bill (que não tem sua face mostrada ainda, mas todos sabemos e até os créditos nos dizem que é David Carradine), esperava, ela não morreu. Após passar 4 anos em coma, a moça está disposta a se vingar de cada uma das pessoas que fez isso com ela, sem descansar - até que o último deles tenha morrido.
Sim, sim, este é um filme do homem por trás de Cães de Aluguel, como essa sinopse paupérrima já deixa claro. Violento sim, mas a violência não é ofensiva nem pode ser levada muito a sério. Claro, ou alguém perde uma mão e jorra sangue sem parar, chegando até a fazer barulho de chuveiro? É sim questionável a censura de 18 anos: não que seja exatamente um filme pra levar a criançada pra ver, mas é muito menos sério do que A Paixão de Cristo, por exemplo, que recebeu uma censura de 14 anos, e ainda mexia com um tema mais, digamos, forte.
Algo que eu gostei bastante em Kill Bill e que li em poucos textos alguma coisa sobre é Uma Thurman, a Noiva (que, diga-se, é um papel tão incrível e memorável quanto um Indiana Jones ou um Luke Skywalker), que acerta muito na sua atuação. Não há um olhar que transmita tanto ressentimento (olhar esse que recebe atenção especial da câmera, assim como os pés da moça, mas essa já é outra história, e sim, eu vou colocar uma dezena de parênteses nesse review), nem uma voz que pareça conter tanta dor, e talvez isso seja muito, muito importante, mesmo que pouca gente acabe prestando atenção.
"Epa, mas como que esse filme é isso tudo aí? Não é só uma bobagenzinha, sobre uma garota que luta com espadas e decepa uns japoneses, numas cenas de ação legaizinhas?", alguém pode perguntar. E não, não é só uma bobagenzinha, porque o cinema de Tarantino é humano, embora pra muita gente isso não fique claro. Nesse, ele se aproveita de uma montagem sensacional de Sally Menke e de uma fotografia linda de Robert Richardson, pra esconder ainda mais o que quer dizer. Portanto, não há diálogos recheados de cultura pop, e sim todo um visual de filme B de Honk Kong (com um anime violento e belíssimo, inclusive, lá pro meio), que tornam a experiência divertida, pra quem só procura olhar pro que está na superfície, e pra quem não faz isso também.
Na trilha sonora, é sabida a competência do cara, escolhe as músicas certas pros momentos certos, e nesse Volume 1 as coisas continuam assim. "Battle Without Honor Or Humanity", "Twisted Nerve", "Don't Let Me Be Misunderstood", está tudo lá, em seu lugar, servindo de fundo pros rios vermelhos que escorrem da tela. Tentei evitar encerrar assim, mas não dá: Kill Bill - Vol. 1 é praticamente o Pulp Fiction da nossa época, ainda que o Pulp Fiction da nossa época seja o próprio Pulp Fiction.
E vamos rezar pra que a Lumiére não adie muitas vezes o Volume 2.

Cotação: 90/100
PS: Pois é, durante Kill Bill, não senti fome.
