Cine Estranho
Saturday, July 31, 2004
 

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças(Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004)


Dirigido por: Michel Gondry

Com: Jim Carrey, Kate Winslet, Elijah Wood, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson, Kirsten Dunst, Thomas Jay Ryan, David Cross, Jane Adams, Debbon Ayer

Memória é uma das coisas mais complicadas do Universo. É algo tão obscuro e complexo que não é de se admirar que as almas mais inquietas sempre tenham procurado entendê-la, ou, ao menos, estudá-la, ainda que só como forma de se aproximar, e não de resolver, os seus mistérios. Almas inquietas são aquelas que sempre, durante a História, estiveram produzindo arte (ok, não só isso, eu sei). Portanto, não é de se estranhar que, no cinema, volta e meia temos obras envolvendo-a: ela, a memória. Elas não precisam dar respostas, ou mesmo ser tão incompreensíveis quanto seu tema. Podem causar arrepios como Amnésia, ou podem ser doces como 50 First Dates, cujo nome se eu escrevesse do jeito que foi traduzido traria uma repetição chata da palavra "como" - ambos devidamente comentados aqui, alguém se lembra? Certo, o fato é que essa é uma fonte que há tempos vem rendendo coisas interessantes (não só no cinema, claro, mas esse é outro assunto).

Charlie Kaufman é um roteirista estranho, pra dizer o mínimo. Desde seu primeiro trabalho, Quero Ser John Malkovich, já demonstrava uma vontade incomum de explorar a mente humana. E assim ele vem fazendo, sem se preocupar muito com conceitos estabelecidos anteriormente. O homem tem talento, isso é inegável, suas histórias são contos cheios de detalhezinhos importantes somando pro todo. Mas, de qualquer jeito, não há como negar que, no fundo, as coisas que ele diz são bastante simples, e falam pra todas as audiências. O que faz de Kaufman alguém tão admirável é o fato de reciclar tão bem as idéias, muitas vezes fazendo com que elas pareçam novas. Eu diria que o nome disso é genialidade, até porque é muito mais difícil dizer o que é simples hoje em dia. O simples é sempre subestimado.

Não me lembro de outros roteiristas que tenham ficado tão famosos. Normalmente, louvam-se diretores, atores, atrizes e compositores. Claro, há também quem olhe pros roteiristas, mas não do jeito que olham pra Charlie Kaufman, aplaudindo-o a cada novo filme, quase como se fosse ele o responsável por tudo, quase como se fosse o diretor. Mas Kaufman gosta de estar nos sets onde filmam seus roteiros, ajudando no que pode - até por isso tem mágoas de George Clooney, que dispensou-o durante as filmagens de Confissões de uma Mente Perigosa. Ele é importante. Na Folha, sexta passada, eu li a explicação mais plausível pra essa valorização de Kaufman: estamos numa época onde o texto em si é muito valorizado, numa época de blogs de cinema, de fóruns de internet, enfim, onde o roteiro é um elemento cada vez mais essencial - ao menos no cinema de Hollywood.

Em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, há a idéia de se apagar coisas da mente. Joel Barish (Jim Carrey) é um homem reservado e tímido. Bem o contrário de sua ex-namorada, Clementine Kruczynski (Kate Winslet), que é extremamente impulsiva e fala muito. Após um tempo sem se ver, o casal se reencontra, mas Clementine não o reconhece. Joel acaba descobrindo a existência de uma empresa de nome Lacuna Inc., que oferece um serviço bizarro: a chance de apagar da sua memória uma pessoa da qual você prefere não mais lembrar, possivelmente por se tratar de uma desilusão amorosa. Foram eles, especificamente o doutor Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson) e seus assistentes Stan (Mark Ruffalo) e Patrick (Elijah Wood), que tiraram a figura de Barish da mente de sua ex. Patrick, aliás, até se aproveita da situação pra se aproximar de Clementine. Joel (ou Joely, como ele um dia já foi chamado) decide, então, fazer o mesmo, e esquecer completamente dos seus sentimentos pela moça. Só que se arrepende no meio do processo, e briga pra manter suas lembranças. Enquanto isso, a secretária de Mierzwiak (Kirsten Dunst) se sente misteriosamente atraída pelo patrão...

Apagar a memória é um fetiche um tanto quanto antigo. Há coisas guardadas nela que nos arrependemos profundamente. Como viajar no tempo já é uma outra complicação, preferimos escondê-las na memória, supostamente esquecendo-as. Faz parte da nossa natureza. Mas as lembranças, elas são...Oras, elas são lembranças! São como aquelas fitinhas vermelhas amarradas no dedo. Elas impedem você de se esquecer. Quando são doloridas, elas vão torturá-lo, até que deixem de ser importantes. Por isso mesmo, a idéia de querer apagar alguém é irônica, ela só mostra o quanto não se pode esquecer essa pessoa, mesmo que se tente. Não é uma prova de que se quer viver longe dela, e sim de que não se pode viver longe dela. Uma saída até covarde, fugir do problema.

Química. Química é importante. Raríssimas vezes encontrei química maior que em Brilho Eterno. Jim Carrey, naquela que é provavelmente sua melhor interpretação, fascina, com um personagem de Kaufman que em muito lembra outros, ao lado de uma Kate Winslet inspiradíssima e cheia de vida, falando inglês com sotaque americano sem muito problema. O elenco todo, aliás, é digno de elogios. Mark Ruffalo e Elijah Wood estão hilários. Tom Wilkinson faz, com talento, o papel do mágico médico que traz esperanças às pessoas, esperanças de não mais sofrerem com o que veio e já passou - porém, há muito menos magia nele do que se imagina. Mas Kirsten Dunst acaba roubando a cena, nos poucos minutos que tem na tela. Atua sutilmente, talvez matando suas chances de ser indicada como atriz coadjuvante pra qualquer coisa: ela o faz de maneira muito natural. Talvez só não esteja melhor que os protagonistas, porque esses recebem cenas maravilhosas e diálogos perfeitos, tudo filmado com a classe discreta de Michel Gondry na direção.

Há um episódio meloso demais de That 70's Show no qual Eric, depois de muito sofrer estando separado de Donna, pede a Deus pra esquecê-la. Ele envia um anjo (o gordinho que faz Newman em Seinfeld) e esse mostra a Eric o que seria das vidas de ambos se não tivessem nunca se aproximado. Ele perderia muito da coragem que adquiriu e ela ficaria sem rumo rapidamente na vida. Ainda assim, confrontado com o dilema de não saber se é pior ter amado e depois perdido ou nunca ter amado, ele escolhe a segunda opção. O anjo então exibe uma espécie de "melhores momentos" daquele relacionamento, e ele, por fim, desiste da idéia. É mais ou menos essa a noção que Joel tem, mas depois de já ter iniciado o processo de esquecimento. Bloquear alguém de sua mente é esquecer tudo. As pessoas tendem a só lembrar das coisas ruins, mas elas vêm, claro, presas às boas, e quando se tem certeza que as boas consertam tudo o que as ruins fizeram, que a intimidade sem medos vale muito mais que a estranheza ríspida com a qual os ex-amantes se tratam, então não se pode simplesmente desistir de se manter próximo - ainda que a vontade incontrolável de estar próximo assuste.

Não se pode exigir mais do que o que é básico, o que se acha necessário pra uma convivência. Dizer um "ok" e seguir em frente é mais simples do que querem fazer parecer. "Não vejo nada em você que eu não goste", "Mas você verá", "ok". Sentimentos devastadores são horríveis, mas sem eles, não se vive. Ou se vive com monotonia forte. Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças talvez seja o melhor filme que vi na vida, mesmo sendo comum, mais do que aparenta. É tudo uma questão de ver se vale a pena.


Cotação: 100/100

PS: Estou me sentindo, nos últimos tempos, como Bill Murray em Encontros e Desencontros. Isso só faz o filme de Sofia Coppola subir no meu conceito.


Saturday, July 24, 2004
 
Ok, eu estava adiando fazer isso, mas com tantos blogs fechando, decidi que era hora. Aliás, depois de ver o profeta do apocalipse (hehe) comentando ali no último post, vi até que já tinha passado da tal hora. Mas não, não, essa não é uma despedida. Só um tempinho que eu tô dando - férias são tão legais, dã, afirmar o óbvio dizer isso, mas tenho visto tanta coisa. Quem dera manter a média nos outros meses que virão.

Enfim. Eu volto. Quem sabe com o novo filme do Charlie Kaufman estreando. Bah, já devia ter avisado tudo isso faz um tempão, né? Eu sei. Mas é isso. Ok? E, sei lá, alguém aí me explica como o filme do Garfield é tão ruim?

Saturday, July 03, 2004
 
Homem-Aranha 2(Spider-Man 2, 2004)


Dirigido por: Sam Raimi
Com: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Alfred Molina, Rosemary Harris, J.K. Simmons, Donna Murphy, Daniel Gillies, Dylan Baker, Bill Nunn, Aasif Mandvi

Estive pensando: talvez adaptar histórias em quadrinhos seja uma das coisas mais complicadas de se fazer. Mas calma aí, não qualquer história em quadrinhos: as tradicionais, com personagens mainstream da DC e da Marvel Comics, lidas por milhares de pessoas nos Estados Unidos e em todo o mundo. Porque, bem, primeiro que um dos piores tipos de nerd que existe é o fã de HQs. Tá certo que fã de qualquer coisa que vá virar filme vive esperneando sobre "fidelidade à obra", mas nesse caso específico, as reclamações são as mais absurdas. Pro Homem-Aranha, condensar todo espírito de cada personagem, alguns existentes já fazem uns bons 40 anos, em um longa de duas horas, é uma missão impossível.

Portanto, não tem surpresa nenhuma em ver que são poucos os bons filmes de super-heróis. A maioria dos estúdios prefere contratar qualquer diretor, não dar liberdade alguma pra ele, rezar pros fãs não reclamarem muito e simplesmente investir com peso nas campanhas publicitárias. Felizmente, o quadro tem mudado - principalmente no caso da Marvel. Por exemplo, em 2002, quando Homem-Aranha foi lançado, ele não trazia qualquer nome: era assinado por Sam Raimi. Deixando de lado o fato do filme ter arrecadado horrores, foi interessante ver que trouxeram alguém que realmente entendia de cinema e, mais ainda, de quadrinhos. Quer dizer, não sei dizer se Raimi já sequer abriu alguma revista do Cabeça de Teia, mas seu filme era toda a essência dos quadrinhos de Stan Lee e Steve Ditko. O que me leva a concluir toda essa linha enorme, entediante de pensamento, dizendo: nem os fãs mais die-hard poderiam reclamar (não que não tenha alguém que reclamou mesmo assim...).

Pra continuação, sinceramente acredito que os braços de Raimi estavam ainda mais soltos. Já tendo faturado rios de dinheiro com o primeiro, os executivos de Hollywood confiaram no diretor. Pra alegria minha e de qualquer cinéfilo, acho. Ok, então retomamos a história de Peter Parker (Tobey Maguire), um jovem que se divide entre a dura vida de fotógrafo, entregador de pizza e, quando ninguém está vendo, Homem-Aranha. Passaram-se alguns anos, e Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), seu grande amor, já se distanciou romanticamente dele e mesmo do amigo comum a ambos, Harry Osborn (James Franco), que aliás, odeia o Homem-Aranha (vocês se lembram do porquê, né?). Harry está financiando o Dr. Otto Octavius (Alfred Molina), que pesquisa dia e noite atrás de uma outra maneira de se conseguir energia. Quando uma demonstração do seu trabalho transforma Octavius em "Dr. Octopus", um monstro de braços metálicos, Parker se vê obrigado a defender Nova York da nova ameaça, ao mesmo tempo que tenta se reaproximar de Mary Jane. Tarefa árdua, não?

Lá em cima, no primeiro parágrafo desse texto, eu disse algo sobre "condensar o espírito de cada personagem". Pois bem, em Homem-Aranha 2, o roteiro de Alvin Sargent permite que se chegue a um ponto em que nenhum outro filme de herói chegou, em termos de aprofundar-se nos personagens. As situações proporcionadas por ele nos levam a enxergar não só o básico em cada um, mas a entendê-los, suas motivações. Não só o conflito entre Aranha e Peter, essa indecisão de sacrificar-se por um bem maior ou aproveitar a vida, mas MJ, Harry e o Dr. Octavius, são todos tridimensionais, e não é preciso saber mais do que é mostrado; pode-se deduzir muitas coisas sobre cada um deles, até a Tia May (Rosemary Harris), tendo somente visto o que está no longa.

Tomemos o exemplo mais óbvio: Parker. Ele é um perdedor, aos olhos dos outros. Se é preciso mostrar que ele é o cara que, numa festa, não consegue nem pegar um salgadinho da bandeja antes que todos eles acabem, então, mostra-se. Isso vem de diversos jeitos, e não só pro protagonista. É muito interessante assistir à essa humanização da trama. Que ironia ver o Homem-Aranha descendo de elevador.

Tá certo, num filme desse tipo não se pode só ver o lado psicológico, e então a competência de Sam Raimi fica ainda mais evidente. As cenas de ação são espetaculares, extremamente bem filmadas, até quando parecem mais artificiais. Os pegas entre o Aranha e o Dr. Octopus são sensacionais, de tirar o fôlego, só conferir a cena da luta no metrô pra saber que é verdade. Não é nada que fuja muito aos padrões, não, mas funciona com todo o resto, dá um ótimo contraste com as partes mais sossegadas. Na verdade, nos balanços finais pelos prédios, eu conseguia até prever o movimento da câmera - e, não, não é algo ruim. É uma estética parecida com HQ, aliás.

Nota-se também a tal da confiança no diretor. Ele agora parece ter tido liberdade pra incluir cenas que nos remetem aos seus filmes mais antigos. Cenas divertidíssimas, diga-se de passagem, ainda que não tão sérias, ou melhor, que não deveriam ser levadas tão a sério. Otto Octavius acordando no hospital, só pra citar uma. Há até exagero nas atuações, nesses casos, mas tudo encaixando corretamente. Inclusive o humor, tão comum nos gibis, tão ausente no primeiro (o que é tudo aquilo ao som de Raindrops Keep Falling On My Head? Muito bom!).

Mérito também do ótimo elenco. Tobey Maguire não é um poço de talento, mas ele É o Homem-Aranha, e não consigo imaginar alguém entrando melhor no papel. Provavelmente essa é uma de suas atuações mais inspiradas. Alfred Molina passa da bondade à maldade de uma maneira bem natural, e é outro bom ponto do filme. Mas eu acho que o que impressiona mesmo são os jovens James Franco e Kirsten Dunst. Se já estavam bem em Homem-Aranha, no 2 eles destróem. A cena lá pro final em que nos é entregada a idéia da terceira parte (sim, teremos uma!) mostra a competência de Franco, que rouba outros momentos. Dunst é fenomenal também, com aquele ar de "garota-mais-inteligente-do-que-imaginamos".

Por fim, o que dizer? Raimi fez a continuação ainda mais divertida que o original. Um filme que prende a atenção, que talvez seja muito, muito profundo, ainda sendo um blockbuster. Só um bom diretor seria capaz de uma coisa dessas. Se mantendo fiel às HQs ainda? Uau! Ninguém tem motivo pra reclamar, vai, vamos lá: o filme é um gibi filmado. Tão delicioso, ingênuo e marcante quanto um bom gibi.




Cotação: 76/100
Friday, July 02, 2004
 
MARLON BRANDO
1924 - 2004


Vencedor de 2 Oscar e de 2 Golden Globe Awards.




"Quando o homem velho cai morto entre suas plantações de tomate, temos a sensação de que um gigante se foi. (...)A performance de Brando é famosa com justiça e imitada freqüentemente. Nós sabemos tudo sobre suas bochechas estufadas, e seu uso de acessórios como o gato na cena inicial. Brando usa-os, mas não depende deles: ele carrega o personagem tão convincentemente que, no final, quando ele avisa seu filho duas ou três vezes que 'o homem que vier marcar um encontro com você - é esse o traidor', não estamos pensando que aquela é uma atuação, de maneira alguma. Estamos pensando que o Don está envelhecendo e se repetindo, mas também estamos pensando que provavelmente ele tem toda a razão."

(Roger Ebert, em sua crítica de O Poderoso Chefão)

Don Corleone é, provavelmente, meu personagem favorito do cinema. Estou triste.

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